
Serei “do contra” quando disser que repudio o sol no céu. Mas é que ele me incomoda, me enerva e me faz suar. Ilumina tudo; e por que eu iria querer ver tudo? A graça não está em desvendar o caminho? Não está na incerteza? O frio na barriga! O furor de desvendar, surpreender-se. Se você não gosta disso, não vejo por que seguir as próximas linhas.
Sempre me disseram que o dia é belo – enquanto isso se recusavam ou esqueciam de enaltecer a noite. Portanto, trevas, permita-me ser seu mais novo exaltador. Tenho muito a dizer, pois meu apreço é de longa-data. Quem lhe escreve é um aliado.
A noite me dá a claridade que o dia me nega – só não me chame de vampiro, isso soa piegas.
Sou apenas um morcego dentre vários outros; bem vindo a mais uma vigília noturna. Depois que o céu se põe, meu cérebro dilata. Adquiro Pedigree, não sou mais vira-lata. Olho para a escuridão; não vejo perigo, vejo mistério. Olho para o breu; não vejo receio, vejo possibilidades. A imaginação tem asas de dia, mas é à noite que ela voa.
E é por isso que vejo beleza em nós dois, nesse caminho que trilhamos. A luz da lua ilumina em reminiscências tábuas de pedra no chão; eu e você estamos abraçados. Um calafrio fúnebre nasce em mim e faz meu corpo estremecer; você também o sente. Pares de círculos quase invisíveis nos observam. Olhá-los depois de um tempo tornou-se desnecessário, uma vez que aguçamos nossos sentidos. Eles espreitam e nós sabemos disso sem sequer olhar. Sentem raiva do amor que sentimos. Temos mais é que sair dali. Sabemos somente onde dará o próximo passo, e é isso. A jogada seguinte, nesse nosso jogo do Amor, quem haverá de saber onde ela dará? É então o momento: eu me solto de você. Você arfa em desespero. Dou um passo largo em direção à tábua seguinte e nela me estabeleço. Estendo a minha mão e digo: “Venha!” Meu rosto envolveu-se por uma máscara que é o escuro, e por um momento você desconfiou do meu paradeiro.
Instantes anteriores ao seu pulo, tentáculos e serpentes aproximam-se de nós; somos mais fracos separados. Galhos se quebram e barulhos horripilantes nascem da escuridão. Seu pulo ao meu encontro é delicioso, seu peito contra o meu é macio. Sua respiração é ofegante, assim como a minha. Um pouco mais da luz da Lua perpassa a vegetação da floresta. Não demora para eu perceber, de relance, que estamos num cemitério, pulamos por cima de túmulos, brincamos de viver juntos onde vários já pereceram e foram enterrados. Uma Amarelinha híbrida de morte e amor.
Você está suando frio – eu vejo que seu medo é grande. Consigo enxergá-lo nos seus olhos. É quando nos beijamos e nos unimos, esquecemos dos perigos que nos rodeiam. Aguardamos, no deleite de termos um ao outro, a hora de darmos mais um passo.
Por você vale a pena ter uma fraqueza. Eu poderia desbravar sozinho essa floresta de iniquidades monstruosas. Mas que graça teria chegar ao final e sentir que esqueci de algo, sentir-me incompleto?
Você é minha flor, é o emblema da minha espada. Sem você não haveria meu desembainhar de lâmina. Não haveria porquê. Você é um amor, mas me causa dor, pois não te tenho para mim. Se ninguém é de ninguém, o que te prende de me ver?
O sol raia, dá um basta na nossa saga. O raiar clareia nossos arredores – e vemos que na verdade tudo não passou de desejo, nada se consumou, tampouco você me afagou. Mais um episódio se foi, e ainda faltam tantos! Eu marquei onde paramos, nosso último progresso. “Esteja aqui de novo, na próxima noite”, é isso que te peço. Você some da minha vista. E eu sei que o faz pensando muito numa solução rápida para nós. Algo me diz isso – temos uma conexão. Você se sente confusa. Nisso, em você nasce uma ideia difusa: como pode a saudade torturar a dois estranhos? O destino tem seu jeito de funcionar; e se funciona, por que questionar?
Apolo, quando trouxer a noite, lembre-se de fazê-la durar. E quando trouxer o Sol, não se demore a recolhê-lo.
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