A ex-presidente da Argentina Cristina Fernández de Kirchner afirmou que Donald Trump e o Partido Republicano sofrerão uma derrota nas eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para esta terça-feira (3). Em entrevista publicada nesta segunda-feira (2) pelo jornal norte-americano The Washington Post, a dirigente peronista também deixou aberta a possibilidade de voltar a disputar a Presidência argentina em 2027, caso consiga reverter a decisão judicial que a impede de ocupar cargos públicos.
Cumprindo prisão domiciliar em Buenos Aires, Cristina avalia que o desgaste de governos de direita pode abrir caminho para uma recuperação das forças progressistas na América Latina e em outras regiões do mundo.
A ex-presidente criticou especialmente a atuação internacional de Trump, que mantém uma aliança política com o presidente argentino Javier Milei e tem apoiado lideranças conservadoras latino-americanas.
Em sua avaliação, existe uma contradição entre a influência exercida pelo presidente norte-americano sobre a política regional e a possibilidade de seu próprio partido ser derrotado nas urnas.
Cristina também manifestou a expectativa de que o resultado eleitoral norte-americano represente o início de uma nova onda progressista. Para ela, os movimentos políticos não seguem trajetórias irreversíveis, e o crescimento recente da direita pode encontrar seus limites diante da frustração econômica dos eleitores. The Washington Post+1
Cristina admite voltar a disputar a Presidência
A entrevista foi concedida à jornalista Marina Dias, do Washington Post, no apartamento de aproximadamente 200 metros quadrados onde Cristina cumpre uma pena de seis anos de prisão, decorrente de uma condenação por irregularidades em contratos de obras públicas.
Aos 73 anos, a ex-presidente continua sendo uma das principais lideranças do peronismo. Ela preside o Partido Justicialista e mantém influência sobre a maior bancada de oposição no Congresso argentino.
Embora esteja proibida de exercer cargos públicos, Cristina não descarta uma candidatura nas eleições presidenciais de 2027, quando Milei poderá buscar a reeleição.
Questionada sobre essa possibilidade, respondeu que poderia concorrer caso recuperasse seus direitos políticos.
A eventual candidatura dependeria de uma reversão de sua inelegibilidade, que atualmente é permanente. Sua declaração ocorre em um momento no qual a oposição argentina ainda não conseguiu construir consenso em torno de um nome para enfrentar Milei.
Segundo o jornal norte-americano, pesquisas recentes mostram que Cristina mantém índices de aprovação ligeiramente superiores aos do atual presidente, embora ambos registrem percentuais na faixa dos 30%. The Washington Post+1
Ex-presidente recorre à ONU e compara sua situação à de Lula
Outro tema central da entrevista foi a condenação judicial que mantém Cristina em prisão domiciliar.
A ex-presidente reafirmou sua inocência e voltou a sustentar que o processo tem motivações políticas. Ela foi condenada em um caso envolvendo contratos de obras rodoviárias na província de Santa Cruz, durante seus governos, entre 2007 e 2015.
Cristina questionou a ausência de provas de que teria recebido pessoalmente recursos desviados e acusou o sistema judicial argentino de corrupção.
Sua defesa, conduzida pelo advogado Rafael Valim, apresentou um pedido ao Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas para que sejam examinadas possíveis violações das garantias processuais e dos direitos fundamentais da ex-presidente.
O objetivo é obter um reconhecimento internacional de irregularidades no julgamento, criando condições para contestar a condenação e recuperar seus direitos políticos.
O comitê da ONU não possui autoridade para anular diretamente decisões da Justiça argentina. Entretanto, um eventual pronunciamento favorável à ex-presidente poderia ampliar a pressão jurídica e política sobre as autoridades nacionais.
Cristina também comparou sua situação à do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que permaneceu 580 dias preso antes de ter suas condenações anuladas.
O próprio Lula visitou Cristina durante sua prisão domiciliar e, segundo ela, recomendou que mantivesse uma rotina de exercícios físicos e evitasse a depressão.
A ex-presidente afirmou que encara a prisão como consequência do projeto político que representa e de sua resistência aos grupos de poder estabelecidos na Argentina.
Valim, que também participou da defesa de Lula, considera que uma decisão favorável da ONU poderia fortalecer a mobilização pela restituição dos direitos políticos de Cristina. The Washington Post+1
Cristina reconhece erros do peronismo e critica política econômica de Milei
Apesar das críticas ao atual governo, Cristina reconheceu que os problemas econômicos enfrentados pela Argentina durante a administração de Alberto Fernández, da qual foi vice-presidente, contribuíram para a vitória de Javier Milei em 2023.
Naquele período, a inflação anual chegou a superar 200%, enquanto aproximadamente 40% da população vivia em situação de pobreza.
A ex-presidente admitiu que a deterioração do poder de compra e a percepção de desigualdade entre trabalhadores e beneficiários de programas sociais alimentaram o descontentamento da população.
Para Cristina, parte do eleitorado passou a apoiar candidatos que prometiam romper com as estruturas políticas tradicionais porque deixou de acreditar na capacidade dos governos de melhorar suas condições de vida.
Ela considera, no entanto, que esse mesmo sentimento poderá se voltar contra Milei caso as promessas de recuperação econômica não se traduzam em melhorias concretas para os argentinos.
O governo argentino conseguiu reduzir significativamente a inflação e recebeu avaliações positivas de setores do mercado financeiro por suas medidas de austeridade, cortes de gastos públicos e flexibilização dos controles cambiais.
Entretanto, os efeitos sociais dessa política continuam provocando insatisfação. O aumento da pobreza neste ano, a elevação do desemprego e as dificuldades de renda das famílias aparecem como fatores de desgaste da administração Milei.
Cristina afirmou que muitos argentinos continuam enfrentando dificuldades para chegar ao fim do mês, apesar das promessas de transformação econômica feitas pelo presidente. The Washington Post
Para Cristina, esquerda precisa apresentar alternativas concretas
Na avaliação da ex-presidente, o principal desafio das forças progressistas não consiste apenas em derrotar eleitoralmente lideranças como Trump e Milei, mas em compreender as razões que levaram parcelas expressivas da população a apoiar projetos políticos de ruptura.
Cristina considera necessário oferecer propostas econômicas capazes de recuperar a confiança dos trabalhadores e enfrentar problemas cotidianos, como o endividamento das famílias, a perda de renda e o custo de vida.
A dirigente também chamou atenção para o grau de polarização das sociedades contemporâneas e questionou a possibilidade de governar um país quando metade de sua população considera a outra metade uma adversária que deveria desaparecer da vida política.
Como exemplo de uma perspectiva diferente, mencionou seus estudos sobre a filosofia chinesa e a ideia de coexistência entre forças opostas, em contraste com uma concepção política baseada na eliminação permanente do adversário.
Mesmo afastada da vida pública pelas restrições judiciais, Cristina continua acompanhando a política internacional e as manifestações realizadas na Argentina.
Durante a entrevista, manifestantes que protestavam contra cortes na educação promovidos pelo governo Milei se concentraram diante do edifício onde ela mora e pediram sua volta à Presidência.
A cena, relatada pelo Washington Post, ilustra a posição contraditória da ex-presidente na política argentina: impedida judicialmente de disputar eleições, mas ainda capaz de mobilizar apoiadores e influenciar os rumos da oposição.
Sua aposta é que o desgaste da direita, tanto na Argentina quanto nos Estados Unidos, possa criar as condições para uma reorganização progressista. O primeiro teste dessa avaliação ocorrerá nas eleições norte-americanas de terça-feira.
Com informações doThe Washington Post.
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