4 de junho de 2026

Entrevista com Jean Wyllis

Uma conversa franca e honesta com o deputado, ativista e escritor Jean Wyllys

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Misteriosos dão os caminhos do senhor, devem pensar frequentemente os deputados da ala mais conservadora do Congresso Nacional quando se debruçam sobre os resultados da eleição de 2010. Naquele pleito, apenas 13.016 votinhos, 0,2% do total de votos válidos no Rio de Janeiro, foram suficientes para dar a eles uma dor de cabeça e tanto.  Na carona da reeleição do deputado Chico Alencar, do PSOL, que sozinho elegeu mais dois parlamentares, Jean Wyllys, até então mais conhecido como o vencedor da quinta edição do Big Brother Brasil, estreava na Câmara anunciando que pautaria o mandato na defesa dos direitos humanos. Pior para eles, melhor para o Brasil. O escritor e professor universitário apresentou projetos polêmicos, como a recente proposta de legalização da maconha; protagonizou debates eletrizantes com os pastores Silas Malafaia e Marco Feliciano e, em 2012, no prêmio Congresso em Foco, foi eleito pelos internautas como um dos melhores deputados do país. Jean acaba de reunir no livro Tempo bom, tempo ruim – Identidades, políticas e afetos (Ed. Paralela) suas reflexões sobre o atual momento brasileiro, e aproveitou uma passagem por São Paulo para um papo-cabeça com a reportagem de TOP Magazine sobre política, preconceito, fundamentalismo religioso, e, na ressaca da Copa, acredite, futebol.

Foto: Pablo Saborido

Foto: Pablo Saborido

É verdade que para você futebol é homofobia pura?

Na verdade isso foi uma maneira que usaram para simplificar algumas das minhas declarações. O que eu quis dizer é que o futebol é uma sociabilidade masculina, que se apoia e se afirma na derrisão da homossexualidade e da feminilidade. Em que pesem hoje o futebol feminino e as torcidas gays, conquistas sobre um esporte que foi concebido e tratado desde o início como esporte masculino. Mas não é essa a única sociabilidade masculina que se afirma na derrisão da homossexualidade. As forças armadas, por exemplo, também se afirmam dessa maneira. Não só o futebol, o rugby, o beisebol, o futebol americano agem de forma semelhante. Se você fizer uma pesquisa com os cânticos que os recrutas entoam nas forças armadas vai encontrar derrisão pura de tudo o que é feminino ou que tem a ver com a homossexualidade. 

Como tem sido enfrentar a bancada evangélica nos debates do Congresso?

Eu acho que o fundamentalismo religioso é uma das coisas mais tenebrosas e a mais escura das nuvens do nosso tempo. Porque ele é fascista na sua essência. Isso me apavora. E acho que os intelectuais brasileiros não têm se atentado à gravidade dessa sombra, desse ovo que está sendo chocado subterraneamente e que vem tomando bases no Brasil. E, por favor, isso não é preconceito contra protestantes ou evangélicos, e sim uma posição clara contra essa coisa que ganhou força dos anos 70 para cá chamada neopentecostalismo. É uma teologia que baseia e sustenta seu avanço sobre os corações e as mentes de seus fiéis na demonização das religiões minoritárias e aí, quando eu digo minoritárias, excluo o judaísmo, que eles não atacam talvez até pela experiência do nazismo. Contra esses grupos são criados aspectos carregados de preconceitos fortemente arraigados: a ideia de uma religião só de pretos, magia negra, satanismo! Essas pessoas recebem uma conta que nunca pediram… o diabo! Um aspecto da religião deles, neopentecostais, que sequer existe na Bíblia da maneira como é apresentado hoje.

E não é legítimo as igrejas se articularem politicamente?

Primeiro elas se articularam economicamente. E foi nossa Constituição que permitiu essa articulação quando, pensando em proteger a Igreja Católica que era hegemônica no Brasil, concedeu imunidade tributária às entidades religiosas. Como pegava mal nominar uma só religião, o texto final saiu com “entidades religiosas”. Na prática isso abriu espaço para que outras entidades viessem e, resumo da ópera, virou muito fácil abrir uma igreja. Hoje muitas igrejas são como empresas, e uma empresa isenta de impostos e de fiscalização. A grande questão é que, se graças às isenções, essas entidades começam a enriquecer pessoas, esse dinheiro começa a se desdobrar em diferentes outras atividades econômicas, há de se botar um freio nisso, o que  nunca foi feito. Assim, algumas igrejas investiram em outros negócios,  quando não serviram de lavanderia para outros negócios. Elas enfim se articularam economicamente e, com isso, conseguiram avançar politicamente. Hoje constituem uma bancada no Congresso Nacional de 70 deputados, o que faz uma diferença enorme.

A expressão “casamento gay” apavora os evangélicos. Há um sentimento de que usar outro termo atenuaria o conflito. Isso é verdade?

Tem gente que vira para mim e fala: “Poxa, o casamento está em declínio, e aí logo vocês, os gays, é que vão em busca de recuperar uma instituição que está falida?” Eu digo não, a ideia não é essa. Esse, aliás, é um artifício para afastar a gente dessa demanda, dessa reivindicação. Na verdade, quando o Estado diz que  determinado segmento da população não pode acessar um direito, ele está passando uma mensagem para o conjunto da população de que aquelas pessoas são sujeitos menores, ou de segunda categoria. Então, institucionalmente é uma discriminação quando o Estado nega a nós, homossexuais, o direito ao casamento. Ainda que eu não queira casar, eu quero é ter o direito. E é isso que está em jogo: acabar com a discriminação jurídica.

Bem, se só a bancada evangélica tem 70 deputados, você ainda acredita que conseguirá aprovar leis mudando a política nacional de drogas?

Acredito. Eu acho que a sociedade tem uma capacidade de pressão muito maior do que esse grupo. Eles não são 80%  da população, são, segundo as estatísticas, cerca de 20% da população. São articulados, sem dúvida, mas não tem número ainda. E eles também não são um bloco monolítico, você tem diferentes visões mesmo ali dentro. Existe divergência entre a Universal e a Assembleia de Deus, por exemplo. Mas acho que do lado de cá é que a gente pode avançar, no enfrentamento dos preconceitos. Podemos fazer esclarecimentos em relação à questão das drogas, que são fundamentais para que compreendam que, do jeito que está, é que não dá mais.

Você ainda acredita em mobilização popular? Os sindicatos perderam força, ninguém quer saber de partidos, parece até que o gigante adormeceu novamente.

Nós estamos passando por uma grande mutação. Efetivamente esses antigos atores perderam em grande parte a capacidade de pressão sobre o sistema. Mas não acho que eles acabaram, ou mesmo vão acabar, acho que está havendo uma redefinição por novas formas de atuação. Essas formas antigas de associação estão tendo de lidar com temas como os afetos, as identidades, as liberdades individuais, o tema ambiental. Muitos desses temas são transversais e não podem ser propriedade de um sindicato, de um só partido ou mesmo da esquerda ou da direita.Hoje não é só a classe que determina, que define um sujeito. O sujeito ocupa outras posições que também são importantes.

Como assim?

Você tem as contradições. O cara que está ali lutando por melhorias ou salários dignos muitas vezes mantém a mulher quase como uma escrava dentro de casa. Então, esse cara que ocupa uma posição subalterna de explorado, do ponto de vista da classe social, é um opressor do ponto de vista do gênero. Esse cara que ao mesmo tempo  levanta e exibe uma bandeira vermelha  dizendo “sou um lutador, eu luto pela igualdade social”, é, às vezes, o cara que expulsa um filho de casa por ser homossexual.

Você fala em mutação, mas as eleições estão dobrando a esquina e parece que vamos ter novamente mais um velho Fla-Flu entre esquerda e direita.

Em um dos seus últimos textos, Freud trabalha essa questão da dificuldade  que o ser humano tem de lidar com as escolhas. E ele diz de uma maneira muito corajosa – e eu concordo com ele – que as democracias são exceções. Porque a democracia exige que você participe, se aprofunde, tenha discernimento, encare as ambiguidades da vida.Ao contrário do que a gente pensa, os totalitarismos não são exceções.  Eles simplificam a vida.  O Grande Pai, seja um deus totalizador ou um líder político de extrema força, nos isenta da responsabilidade das escolhas, já que ele manda na gente. É muito difícil fazer escolhas e arcar com consequências. E o ser humano sempre tendeu a simplificar a vida numa dicotomia que tem a ver com a percepção: luz e sombra, som e silêncio, Deus e Diabo, bem e mal, isso facilita muito. Mas assim ele esquece que entre a noite e o dia tem o entardecer, o anoitecer.  Não é fácil lidar com zonas ambíguas, com posições ambivalentes. O mundo é um caos. Sempre foi, e entre o preto e o branco as zonas cinzas sempre existiram, e em bem mais do que 50 tons de cinza (risos).

Porque o título Tempo bom, tempo ruim para seu livro?

Essa expressão na verdade é de um verso do Caetano Veloso. Mas nos versos dele tem uma um sentido de clima, porque ele está se referindo a Iansã, senhora do clima, da chuva e do sol. Eu estendi a noção de tempo pra era, pra época. Porque eu acho que vivemos um tempo muito ambivalente de avanços e retrocessos, de conquistas e perdas, de transformações positivas e negativas simultaneamente. E esse é um livro no qual eu marco muito meu lugar de fala. Não tem neutralidade, o livro não quer ser neutro nem transparente, ele tem uma opacidade clara. É meu lugar de fala de migrante, de homossexual assumido, de parlamentar eleito, de ativista político, de escritor. E todas essas posições de sujeito estão muito marcadas nessa visão de país e nesse momento fértil que estamos atravessando.

Qual é o lado bom desse tempo?

Muitos. Gostem as pessoas ou não,  porque acho que a gente tem de ser honesto na hora de fazer uma crítica a alguém de quem a gente diverge. E nesse ponto eu sou muito honesto em reconhecer os avanços sociais da era Lula, dos governos do PT. São tempos bons. Tempos em que milhões de pessoas saíram da miséria concretamente, tempos de progresso material da nação, de massificação da educação – e, veja bem, não estou falando de qualificação, mas de massificação.  Nós temos um país absolutamente plugado, a emergência de novos atores sociais: como o movimento LGBT, indígena, das religiões de matriz africana e o próprio movimento feminista se reviu e se recolocou na cena pública. Nós estamos discutindo a legalização da maconha, tivemos as jornadas de junho, portanto, a vontade de um segmento expressivo da população em dizer para o sistema político: “Chega, nós cansamos  da sua blindagem, a gente quer participar”. Então, temos tempos bons.

E também temos tempos ruins…

Sim, que em alguma medida  fazem o contraponto a esses avanços. Esse mesmo governo que tirou milhões da miséria caiu em velhos esquemas de corrupção,  uma coisa que acabou sendo uma grande decepção para todos nós. A corrupção é um sistema e, nós, no Brasil, temos isso de muito ruim. Temos também a sombra do fascismo retornando, não só nas redes sociais, mas também nas ruas, como nos recentes justiçamentos (referindo-se a casos de linchamentos públicos). Na mesma proporção que a educação se massificou, ela caiu em qualidade. Some a isso tudo a violência urbana e o problema da mobilidade urbana e me responda: quem ainda tem forças para, no fim do dia, ir a um teatro, um cinema? Com isso, a vida espiritual se empobrece, os preconceitos não se desfazem, as pessoas não conseguem fugir desse lixo chamado preconceito e optam pelas soluções fáceis, fascistas para problemas sérios e complexos da agenda contemporânea. 

Jan Theophilo, começou a carreira no início dos anos 90 no Jornal do Brasil, e teve passagens por Veja, O Globo, O Dia e o site no.com.br. Vencedor do prêmio Mídia da Paz em 2001, Jan cobriu in loco o atentado às Torres Gêmeas, esteve nas Copas do Mundo da África e da Alemanha, e, após uma experiência de cinco anos em comunicação corporativa, assumiu no início do ano a direção da redação de TOP Destinos.

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