4 de junho de 2026

Este convite caiu do céu; conto de Fernando Portela

Maria do Socorro recebeu o convite no final do mês, quando entrou no mercadinho para comprar carne-seca para o marido, Cristóvão. Um homem parecendo cigano, alourado, de cabelo muito comprido, amarrado com elástico num rabo-de-cavalo, chegou bem perto dela e sem a menor cerimônia começou a examinar-lhe o rosto. Maria, já acostumada com aquilo, fingiu que não viu. Na hora de pagar, o homem ficou atrás dela na fila e lhe disse, em voz baixa:

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“Acho que tenho um bom emprego para a senhora; mas é preciso ver se resolvemos o problema da sua família.”

“Minha família não tem problemas”, respondeu ela, mal-humorada, sem se virar nem olhar para o cigano.

“Sei que não tem”, o homem insistiu. “O emprego é bom, mas a senhora seria obrigada a passar a vida viajando.”

Maria do Socorro voltou-se para ele como quem leva um beliscão.

“É um circo, moço?”

“É. Como a senhora adivinhou? Será que eu tenho cara de empresário de circo?” O homem sorriu de dentes recapados. “Ou pareço um palhaço?”

“A gente vê que o senhor é artista. Por causa do rabo-de-cavalo.”

“Ah, bom. Mas o que me diz? A senhora é casada?”

“Bem casada. Estou levando carne-seca pro meu marido. Mas a gente vai ver, seu…”

“Michel.”

“Com x?”

“Não, com ch.”

“Então, seu Michel, a gente vai estudar. Quando é que lhe dou a resposta? Onde encontro o senhor?”

“Ué… mas eu nem lhe disse o salário. É bom, mas a senhora nem sabe…”

“Antes de qualquer coisa, tenho de falar com o Cristóvão. De que adianta salário bom se ele não deixar?”

“É verdade. Qual é a sua graça?”

Ela ficou confusa. Olhou para os lados.

“Eu não tenho graça, senhor. Tenho diferença, que é esta barba.”

“Só queria saber seu nome. A senhora me acha no circo. Amanhã estará armado na cidade. Circo Medina. Diga pro seu marido que, dependendo, a gente pode achar trabalho pra ele, também, mas com salário menor.”

“Eu digo, seu Medina.”

“Não, o circo é que é Medina. Eu sou Michel. Com ch.”

Daquela vez, ela atravessou a estrada fora da passarela, correndo risco de vida. Não via a hora de chegar a casa. Cristóvão, desempregado, certamente dormia. Nos últimos tempos, ela começou a ficar desconfiada das longas ausências dele, à noite. “Com os amigos”, dizia. Ela não acreditava. Talvez Cristóvão estivesse cansado de esperar o filho que ela não conseguia gerar. Por causa da barba, quem sabe? Não, a barba nada tinha a ver: ela possuía órgãos de mulher, perfeitos, inclusive seios muito bonitos, elogiados por quem a tinha visto nua. E lisinhos, sem pelugem.

Andou os três quilômetros, da estrada à favelinha, em tempo recorde, com o embrulho de carne-seca na mão. Nos últimos meses, conseguira mais alguns quilos de roupa pra lavar, com o pessoal da lanchonete nova, que havia sido inaugurada junto do posto de gasolina. Sobrava alguma coisa para o supérfluo: carne-seca, cinema aos domingos, uma ou outra roupa nova, sapatos… dava até para as cervejinhas de Cristóvão.

A porta do barraco estava entreaberta: só podia ter sido o Capeta. O vira-lata era um gênio: conseguia abrir todas as portas, sempre à procura de alguma coisa pra comer. Ela entrou de repente. “Chispa!”, gritou para o cachorro, que era peludo, de tamanho médio e todo preto. O bicho ganiu, enquando passava ao lado das pernas dela, trêmulo.

Cristóvão veio na sequência, esfregando os olhos, de bermudas e sem camisa.

“Meu Socorro…”

“Cheguei, Cristóvão. E tenho grandes novidades! Olha, trouxe sua carne-seca.”

“Quando eu acordar, você me conta.”

“Ouve logo, amor: tão querendo que eu vá trabalhar no circo. E você pode ir junto, eles arrumam serviço.”

Cristóvão despertou. Olhou para ela por um tempo, sem dizer nada. Coçou a cabeça. Ela sorria para ele, tentando adivinhar-lhe os pensamentos. Ele ficou sério:

“Quem lhe chamou, meu Socorro?”

“Um homem chamado Michel. De rabo-de-cavalo.”

“Respeitador?”

“E eu lá dou trela pra quem não me respeita, homem?”

Cristóvão deu meia-volta, entrou num cubículo mínimo que servia de banheiro. Lavou o rosto com a água de uma pequena bacia. Ela desembrulhou a carne, ali na sala mesmo, pois não havia cozinha, e foi arrumar uma faca para tirar-lhe o sebo.

“Meu Socorro: o que é que você iria fazer no circo?”

“Ora, Cristóvão: a mulher barbada não faz nada; só se mostra… Lembra do circo que a gente viu, dois anos atrás?”

“Claro. Mas aquela barbada era fajuta. Um pelo muito fino, e meio louro, quase não se via…”

“Eu tenho mais pelo, muito mais!” Ela ria, antecipando o prazer de se expor, como uma fruta na feira, a um grande público.

“Se for só para mostrar o rosto…”

“Sabia que você ia deixar, Cristóvão!” Maria do Socorro correu para o marido e se pendurou no pescoço dele. Ele a beijou na testa, evitando-lhe as bochechas, cobertas daquele pelo escuro e espesso. Já os cabelos do buço, também escuros, pareciam mais finos, delicados.

“Tem trabalho pra mim, também?”, ele perguntou, tirando-lhe os braços do pescoço, e procurando uma cadeira para sentar.

“Tem! Tem! seu Michel disse. Vamos ter de ir lá, aqui perto, na cidade, mas só vão armar o circo amanhã… Sabe, Cristóvão, tem um probleminha, você deve imaginar: a gente vai passar a vida viajando.”

“Eu acho que esta é a melhor parte”, disse o marido, já sorrindo.

Maria do Socorro nunca se sentiu tão serena. Deus é sabedoria: aproveita até os defeitos dos pecadores para criar felicidade. Não se preocupava muito com o ordenado que lhe ofereceriam: três salários mínimos, imaginava, já seria um grande progresso, fora o que Cristóvão ganhasse.

“Meu Socorro”, ele agora voltou a ficar sério, “tem uma coisa que vou lhe pedir.”

“O que quiser.”

“Se perguntarem como a gente namora, não diga que eu aliso seus cabelos do rosto, está certo? O povo pode maldar.”

“Não entendi, mas não vou dizer nada, Cristóvão. O que se passa entre nós não interessa a ninguém. Nem a patrão.”

Ele suspirou, levantou-se, abraçou a mulher por trás e, agora sim, beijou-lhe as bochechas peludas. Ela pôs o rosto de lado, fingindo timidez. “Come um pedaço de pão pra tirar o jejum”, ela disse, enquanto ele, carinhoso, lhe puxava os cabelinhos com os dentes.

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007

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