Existe endorfina pós trabalho? Deve existir porque lá estava eu: em transe de tão cansado, entrando no ônibus para casa, e de fones de ouvido. Escutava um álbum novo que há muito anseava por escutar. Paguei a cobradora simpática (raridade), segui pelo corredor do veículo procurando um assento. Tudo cheio. Minhas esperanças iam se esvaindo na medida que andava. Parei de andar, estiquei o pescoço de modo a checar os últimos assentos. ” Achei! Lá está um vago. “Descansar as pernas antes de ‘bater pé’ até em casa”, penso esboçando um sorriso.” Sento-me; tem uma moça do meu lado. Bonita. E aí emerge em mim uma vontade colocada pela natureza em todos nós. Um sentimento de atração inexplicável, pelo menos pela ordem lógica. Quando ele aparece, tudo a se fazer é se dobrar a ele, ceder. E eu cedi. Comecei a maquinar um meio de começar um assunto com ela. O problema: ela, assim como eu, estava de fones. Quão bacana seria dar “oi” e ser vencido pela música no ouvido dela? Então, sem o uso de maconha ou qualquer outra droga “recreativa”, fiz do problema a solução. Pois é, dá para ser criativo sem o uso desses entorpecentes – não acredite no que vê nos filmes.
Eis a solução: abri o “Bloco de Notas” do meu celular, e me pûs a digitar nele. Fui breve na escrita, pois o tempo de viagem era curto. “Que se danem as maiúsculas e os acentos, depois vemos isso”, pensei comigo mesmo. Terminei e a cutuquei. Ela olhou para mim e eu apontei para a tela do meu celular. Eis (exatamente) o que estava escrito nele:
“em 2004 estranhos ainda conversavam entre si
em 2014 estranhos mal se olham
em 2024 um estranho vai virar um inimigo em potencial”
Ela só podia ter concordado, e assim foi. Sorrindo, ela removeu os fones do ouvido, eu a imitei, e nos cumprimentamos.
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