A transição energética da China deixou de ser apenas uma questão de segurança interna e passou a se consolidar como um ativo geopolítico em meio à instabilidade global, segundo análise baseada no 15º Plano Quinquenal do país. O movimento ganha relevância diante de crises recentes no fornecimento mundial de energia, reforçando a estratégia chinesa de autossuficiência e diversificação.
Em matéria assinada por Carol Yang para o jornal South China Morning Post, publicada nesta sexta-feira, 10 de abril, é relatado que essa mudança foi colocada à prova por tensões recentes, como o conflito envolvendo Estados Unidos e Israel no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz, responsável por cerca de 20% do fluxo global de petróleo e gás. Apesar de um cessar-fogo temporário e da sinalização de reabertura, o tráfego marítimo segue abaixo do normal, levando países a adotar medidas emergenciais de contenção de energia, enquanto a China se mostrou mais protegida por sua estratégia estrutural.
De acordo com publicação da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma sobre o plano quinquenal, divulgada no mês anterior, a taxa de autossuficiência energética da China permanece acima de 80%, sustentando a meta de construir um novo sistema energético capaz de transformar o país em uma potência no setor e ampliar sua vantagem estratégica global.
O relatório aponta que a intensificação de conflitos geopolíticos — incluindo a guerra entre Rússia e Ucrânia, tensões no Oriente Médio e ações militares dos Estados Unidos — está redesenhando o cenário energético e comercial, com maior disputa por recursos e rotas. Nesse contexto, a crescente incerteza sobre importações energéticas exige medidas mais rigorosas de gestão de riscos.
A estratégia chinesa prevê elevar a participação de fontes não fósseis para 25% do consumo energético até 2030, além de dobrar o uso desses combustíveis em uma década. Analistas citados indicam que o país tem enfrentado melhor os choques recentes graças à flexibilidade de seu sistema energético, que combina reservas estratégicas, forte uso de carvão e expansão de renováveis, permitindo manter a atividade industrial mesmo com a alta dos custos globais.
Por fim, o plano também adota uma abordagem preventiva, com metas como manter a produção anual de petróleo em 200 milhões de toneladas e ampliar a produção de gás natural, além de expandir a capacidade nuclear e investir em diversas fontes renováveis. Ainda assim, segundo o documento, a busca por autossuficiência não implica isolamento, mas sim maior abertura, com diversificação das importações e fortalecimento da cooperação internacional em energia limpa.
Os investimentos em energia verde
Os investimentos da China em energia verde são hoje os maiores do mundo e fazem parte de uma estratégia ampla que combina segurança energética, política industrial e liderança global. Os dados mais recentes mostram que o país não está apenas ampliando a geração limpa, mas transformando toda a sua infraestrutura energética.
Um dos pontos mais relevantes é o volume de recursos aplicados. Em 2024, a China investiu mais de US$ 625 bilhões em energia limpa, praticamente o dobro do registrado uma década antes, consolidando-se como o maior investidor global no setor, aponta a Agência Internacional de Energia. Já em 2025, o investimento total em energia (incluindo renováveis e infraestrutura associada) atingiu cerca de 3,5 trilhões de yuans (US$ 500 bilhões), com crescimento acima de outros setores da economia, segundo dados do China Daily Global. Esse movimento está ligado às metas de reduzir emissões e impulsionar o crescimento econômico. Grande parte desse investimento vai para a expansão acelerada de fontes renováveis, especialmente solar e eólica.
Outro eixo fundamental dos investimentos está na infraestrutura que sustenta essa transição. O governo chinês tem direcionado bilhões para redes elétricas, transmissão e armazenamento de energia, com cerca de US$ 88 bilhões destinados apenas à expansão e modernização do sistema em 2025. Isso é necessário porque o crescimento das renováveis tem sido tão rápido que, em alguns casos, a rede não consegue absorver toda a energia produzida.
Além da geração elétrica, a China também investe fortemente em setores industriais ligados à energia verde. O país domina cadeias globais de produção de painéis solares, turbinas eólicas, baterias e veículos elétricos, o que amplia seu peso geopolítico. Em 2025, o setor de energia limpa respondeu por mais de 90% do crescimento do investimento nacional, tornando-se um dos principais motores da economia, apontou o The Guardian.
Por fim, esses investimentos têm impacto global. A produção em escala da China ajudou a reduzir drasticamente os custos de tecnologias renováveis, acelerando a transição energética em outros países. Ao mesmo tempo, reforça a posição chinesa como líder na economia verde e como fornecedora central de tecnologias limpas em um cenário de crescente competição internacional.
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