4 de junho de 2026

Ex-jogador da Seleção vende roupas usadas em Lisboa

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Do GloboEsporte.com

Em Lisboa, solitário, Perivaldo assume os erros: ‘Foi a morte do artista’

20/11/2013 13h32 – Atualizado em 21/11/2013 02h46

Ex-jogador do Botafogo, Palmeiras, Bahia e Seleção vende roupas usadas em feira e diz ter perdido dinheiro com uma mulher, carros e maus investimentos: ‘Fiz tudo errado’

Por Cláudia Garcia, especial para o GloboEsporte.com
Lisboa

Bob Marley pelo visual, Peri pelo nome. E brasuca pela origem. É assim que Perivaldo Lúcio Dantas, 60 anos, é conhecido pelos vendedores da Feira da Ladra, em Lisboa. É no tradicional mercado da capital portuguesa que o ex-jogador da Seleção, do Botafogo, Bahia, Palmeiras e Bangu vende roupas e objetos usados para se sustentar. Perivaldo vive em Lisboa há 23 anos e perdeu o contato com quase toda a família no Brasil. Só não perdeu a boa disposição e a alegria de viver. Como lateral-direito, para ele, só Carlos Alberto Torres e Toninho Baiano foram superiores. Mas, se em campo, era capaz de acertar cruzamentos na medida, como o para Mendonça em vitória sobre o Fla por 3 a 1 nas semifinais do Brasileiro de 1981 (assista ao vídeo acima), na vida disse ter cometido erros capitais. Desde os amigos aos conselhos ruins responsáveis pela mudança do rumo da sua vida. Uma mulher, carros e maus investimentos foram os grandes problemas, segundo o baiano, que afirmou não ser alcoólatra mas parou para beber uma cachaça. E ele se assumiu como grande culpado pela situação difícil em que se encontra.

– O erro foi meu. Vim para cá, fiz tudo errado, foi a morte do artista. Eu tinha um Rolex de ouro que valia 50 mil dólares e tinha diamante. Vendi, gastei tudo. Comprei carros, vendi também, fui gastando tudo o que tinha e depois não consegui recuperar. Emprestei dinheiro a amigos, dei dólares a um cara para comprar umas ações para mim e ele desapareceu com o dinheiro. Se eu tivesse juízo, até tive um bom trabalho quando cheguei em Portugal. Em 1992, trabalhava como cozinheiro em Porto Santo (Madeira), ganhava um dinheiro bom naquela época, uns 4 mil dólares por mês. Mas conheci uma pessoa em Lisboa, uma portuguesa, que nem vale a pena falar, dos olivais sul, larguei tudo por ela… As melhores mulheres da minha vida foram a sul-coreana, que me ajudou muito, e a minha esposa, que está em São Paulo e ainda me ajuda – revelou em tom emocionado o Rei da Pituba, que não quis se alongar sobre seu passado e família (assista ao vídeo abaixo com outros depoimentos).

Perivaldo considera a forma como chegou a Lisboa outro erro capital para a situação em que se encontra – o ex-jogador disse no último sábado à reportagem do GloboEsporte.com que aluga vaga em quarto de albergue, graças ao faturamento na feira e à ajuda mensal dada pela ex-esposa, que confirmou a informação, apesar de as câmeras do “Fantástico” o terem flagrado como morador de rua.  E foi, segundo ele, na saída da Coreia do Sul, onde atuou por três anos, que sua vida começou a mudar para pior. Antes de terminar o contrato, disse ter resolvido voltar ao Rio para tentar a sorte e depois ter ido para Lisboa sem qualquer garantia, aconselhado por alguns amigos.

– Foi uma das maiores besteiras da minha vida. Eu tinha um contrato de 100 mil dólares lá em Seul. Ganhava bem, uns 9 mil dólares por mês, era muito dinheiro. Mas rescindi o meu contrato, voltei para o Rio e me disseram para vir para cá, para Lisboa, que ia aparecer um clube. Nunca apareceu nenhuma proposta boa e eu fui ficando, fui me acomodando e trabalhando aqui e ali.

O ex-jogador disse que jamais usou drogas nem foi alcoólatra. Mas parou durante a reportagem para beber uma cachaça e disse que a mulher, por telefone. reconhece quando bebeu.

– Bom, eu não tenho vícios, não uso droga. Eu tomo assim uma bebidazinha ou outra, mas não tomo muito, porque a minha mulher não gosta e ela diz que sente o cheiro da bebida por telefone. você não sabe o que significa sentir o cheiro da bebida por telefone, significa que a voz, que a língua, já não é igual.
Perivaldo montagem (Foto: Infoesporte)À la Bob Marley, Perivaldo vende casacos e outras roupas usadas para sobreviver em Lisboa (Foto: Infoesporte)

Camisas, camisetas, casacos, celulares e fones são alguns dos objetos que ele vende, mas sem muito sucesso com a clientela. A feira da Ladra é a mais antiga de Lisboa e é conhecida por vender todo tipo de produtos e de todas as qualidades. Todas as terças-feiras e sábados de manhã, Perivaldo chega na área carregando uma mala com tudo aquilo que reuniu durante a semana para ganhar uma grana. Mas, às vezes, sai de bolso vazio.

– O Perivaldo? O ex-jogador de futebol? Ele está por aí, deve estar na praça central porque ele nunca falha numa feira – comentava um vendedor de discos do mercado indicando para o largo principal, onde se encontrava o Peri da Pituba, como era chamado carinhosamente nos clubes por onde atuou no futebol brasileiro.

O vendedor

Já passava das 11h30m da manhã de sábado quando a reportagem do GloboEsporte.com encontrou Perivaldo chegando à feira.

– Você sabe que acordar cedo para mim é um problema – disse, brincando.

Depois, sempre se desculpava com um sorriso nos lábios enquanto arrumava suas coisas em cima de um plástico no chão.

– Eu vendo aquilo que pinta, roupa minha, coisas que me deram, celular, é isso aí. Às vezes venho para cá e ganho uns 300 euros, outras vezes não dá nem para ganhar um – explicou.

Enquanto negociava um casaco com um senhor que reclamava da sujeira do tecido, Peri da Pituba tentava ganhar o cliente.

– É só limpar, é só limpar – dizia Perivaldo, tentando convencê-lo, sem sucesso.

Sem contato com filhos e netos

Longe da família, o baiano diz ter mais amigos do que dinheiro e por isso escolheu vender na feira, para passar o tempo e jogar conversa fora.

– Vim aqui fazer compras uma vez e fui gostando, isso é mais uma ‘higiene mental’, serve para passar o tempo. Eu gosto de estar aqui. Todo mundo me conhece. Perivaldo daqui e brasuca dali, e o cara vai curtindo, sem chatice, fujo do estresse e é isso. Pronto! Eu gosto disso! Mas eu agora queria ver se voltava para o Brasil, queria muito assistir à Copa do Mundo, tenho lá os meus netos que nunca vi – relatou o baiano, que vive em Lisboa há 23 anos e diz nunca ter retornado à sua terra nesse período.

Convocado para a Seleção por Telê Santana em 1981, Perivaldo disse que vive em um quarto alugado no Centro da cidade e que paga o aluguel com algum dinheiro recebido da primeira esposa, que vive no interior de São Paulo e com quem retomou contato há 12 anos. Para o resto, afirma que se arranja como pode com algum dinheiro que vai ganhando na feira e também recebe um salário da Coreia do Sul, onde jogou futebol no fim da carreira, conheceu sua segunda esposa e teve um filho.

– Tenho 12 filhos. Tenho filho em Seul, em El Salvador, em São Paulo, na Bahia, no Rio de Janeiro, no Ceará. Em todo o mundo. Eu não tenho filho, eu fiz filho – contou, sorrindo.

Botafogo no coração

Dentro de campo, a maior saudade é da camisa alvinegra. Peri da Pituba foi revelado pelo Bahia nos anos 70 e estourou no Botafogo no início dos 80, indo depois em 1983 para o Palmeiras e, no ano seguinte, para o Bangu, antes de partir para o exterior.

– O Botafogo fez tudo por mim. A torcida me adorava porque eu marcava muitos gols. Era da defesa mas era artilheiro também. Tinha raça, treinava de manhã, à tarde e à noite. Disposição nunca me faltou. A torcida sabia que eu tinha raça e era lindo ouvir 70 mil pessoas gritando 1,2,3,4, 5 mil, quem não gostar do Perivaldo vai na Polícia do Rio, recordou Rei da Pirituba animando a feira.

Como jogador, as melhores recordações que Perivaldo guarda, além dos gols, foi a vitória do Botafogo sobre o Flamengo por 3 a 1 nas semifinais do Campeonato Brasileiro de 1981 – ele centrou na medida para Mendonça marcar o primeiro -, as vitórias no Campeonato Baiano com o Bahia em 1975 e 1976 e um amistoso com a seleção brasileira contra a antiga Tchecoslováquia no Morumbi, quando o então lateral-direito salvou um gol certo numa espetacular puxeta. Uma acrobacia que lhe rendeu a admiração de meio mundo e também o aproximou dos colegas Zico e Junior, que passaram a respeitá-lo, mesmo depois de ter provocado a expulsão do Galinho num clássico Botafogo x Flamengo.

– O Zico? Foi ele que esquentou a cabeça. Foi ele que se expulsou, o lance foi indiscreto, não dá para falar aqui não. Mas na Seleção os que mais me ajudaram foram ele e o Junior. E eram eles os que mais me detestavam em campo. Eles falavam que eu era chato, mas me ajudaram muito depois – continuou.

Do passado de jogador, Perivaldo não se importa de falar. Ri quando lembram dos momentos em que irritava a torcida com os centros por trás do gol. Fala também com alegria da boa disposição nos treinos aos gritos da torcida até a comparação com outros da posição. E o ex-lateral cita o capitão do tri mundial da Seleção Carlos Alberto Torres e Toninho Baiano, ex-Fla e Flu, na “eleição” do melhor brasileiro da posição.

– Só esses dois jogaram mais bola do que eu.

Hoje, o Rei da Pituba acompanha pouco o futebol e a seleção brasileira, mas sonha em assistir a um jogo da Copa no Brasil. Baiano de nascença e carioca de adoção, leva as duas cidades no coração e até no sotaque em que mistura as duas cadências ao sotaque luso. Mas é no Rio de Janeiro, onde a torcida mais o emocionou e onde disse ter vivido os melhores momentos de sua vida, que Perivaldo quer fazer sua última boa jogada.

– Rio de Janeiro é a minha terra, é lá que eu vou encerrar a minha vida. E não é um sonho, é realidade mesmo.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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  1. CELSO ORRICO

    17 de dezembro de 2013 9:56 pm

    vi muito ele jogar..

    acompanhei muito o início da carreira dele no Bahia já que assistia todos os jogos do Tricolor de Aço na Fonte Nova, além do mais eu morava na Pituba nessa  época  era um bairro de veraneio e os jogadores frequentavam a nossa praia,  ir aos treinos do Bahia ficou sendo um programa quase obrigatório..Perivaldo jogava pra caramba..pelo que li ele já voltou essa semana para o Brasil com ajuda da família..

  2. cesar r. nemes

    17 de dezembro de 2013 10:33 pm

    Peri da Pituba

    É mais um dos pobres diabos que o futebol produz, necessitado de ajuda. Não jogava grande coisa, mas por ser exótico e abobalhado era incensado. A escola lhe teria feito um grande bem. Que a partir de agora encontre o seu rumo.

  3. Lucinei

    17 de dezembro de 2013 11:05 pm

    No Flamengo jogaram Leandro e

    No Flamengo jogaram Leandro e Jorginho muitas vezes melhores que Perivaldo, do botafogo. O primeiro atuou um pouco antes; o segundo um pouco depois e, repetindo: muito melhores que Perivaldo em todos os fundamentos. Ele pode falar de graça, etc – ele não vai dizer que era ruim, pois fez até certo sucesso. Mas levar a sério demais brincadeira é outra coisa.

  4. ckoliver

    17 de dezembro de 2013 11:54 pm

    Erro histórico

    Perivaldo não pode ter marcado gol ncontra o flamengo a semifinal do campeonato brasileiro de 81 simplesmente pq o flamengo não chegou às semifinais. Foi morto pelo fogão nas quartas-de-final.

  5. Isaura

    18 de dezembro de 2013 12:06 am

    Notícia já ficou velha

    Ele está de volta ao Brasil

    Perivaldo volta ao Brasil após viver na rua em Portugal e reencontra família

     

    O Fantástico localizou, em Lisboa, o ex-lateral da seleção. Mas chegou a hora da volta por cima. Perivaldo desembarca no Brasil e a equipe do programa acompanha o reencontro dele com a família.

    http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2013/12/perivaldo-volta-ao-brasil-e-reencontra-familia-apos-viver-na-rua-em-portugal.html

  6. Luiz Gonzaga da Silva

    18 de dezembro de 2013 12:53 am

     “…como o para Mendonça em

     “…como o para Mendonça em vitória sobre o Fla por 3 a 1 nas semifinais do Brasileiro de 1981…Peri da Pituba foi revelado pelo Bahia nos anos 70 e estourou no Botafogo no início dos 80, indo depois em 1983 para o Palmeiras e, no ano seguinte, para o Bangu, antes de partir para o exterior…Convocado para a Seleção por Telê Santana em 1981, Perivaldo…”

    Vamos lá! Estava na arquibancada nesse jogo( Fogão X Fla). Não foi semifinal e, sim quarta de final. A semi foi Botafogo X São Paulo.

    No primeiro jogo no Maraca, ganhamos de 1X0. No segundo realizado no Morumbi, fizemos 2X0 no primeiro tempo. No intervalo e segundo tempo valeu de tudo para o São Paulo ganhar o jogo. Houve invasão ao vestiário do juiz para intimidadá-lo e outras coisas mais. Resultado São Paulo 3 X2 Botafogo. Fomos “garfados”.

    Perivaldo jogou quase todo os anos 80 pelo Botafogo. Foi convocado por Telê para a Copa de 86 no México, nessa época era jogador do Botafogo. A informação da matéria sobre sua carreira está incorreta. Aliás,o fato que provocou a convocação do lateral foi importante. Na semana do embarque da seleção rumo ao México, Leandro e Reanato Gaucho pularam a cerca e foram para a “night”. Telê resolveu cortar somente  o ponta, certamente, levou em consideração a vida pregressa do pai da Carol Portaluppi. Leandro, grande craque, ficou com dor de consciência e resolveu abandonar a seleção. O treinador resolveu chamar Perivaldo que, por sinal, não decepcionou, fazendo dois golaços.

    Ah! No citado jogo Botafogo X Fla,  Mendonça fez uma jogada de gênio em cima de Junior, um verdadeiro baile. Em resposta, o grande lateral rubro negro deu uma banda no meio campista alvinegro. O juiz marcou penalti e expulsou o atual comentarista global.

    Tenho boas recordações da passagem do Peri da Pituba no glorioso, espero que consiga retornar sua vida numa boa. Vou torcer.

    1. Iranduba

      18 de dezembro de 2013 2:37 am

      Acho que você confundiu o

      Acho que você confundiu o Perivaldo com o Josimar. Foi ele, também jogador do Botafogo, que fez os dois gols fantasmas na copa de 86.

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