Derrota do aliado brasileiro e acolhimento do senador investigado de lavagem de dinheiro alimentam críticas dos democratas ao presidente norte-americano a poucos dias das eleições legislativas
A vitória de Lula (PT) nas eleições presidenciais brasileiras e a fuga do candidato derrotado Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, com o acolhimento de Donald Trump ao político acusado de crimes financeiros, estão servindo de munição para as eleições de meio de mandato do país, as chamadas Midterms. O episódio se tornou, nos últimos dias, uma das principais bandeiras dos Democratas para expor o comportamento do presidente republicano, sua política externa e o constrangimento de conceder vistos a um investigado no Brasil, que deixou o país sob ordem judicial.
A repercussão da vitória de Lula já havia ecoado nos EUA, mas ganhou força depois que Flávio fugiu do Brasil, apesar de uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para que entregasse seus passaportes e não saísse do país. O senador chegou a Miami na quarta-feira (28), acompanhado da mulher e das duas filhas, com um plano de fuga que incluiu cruzar a fronteira com a Argentina e seguir de avião particular, com escala no Equador. A Polícia Federal investiga as circunstâncias da saída e o descumprimento da ordem judicial.
Em meio à disputa legislativa pelo controle do Congresso dos EUA, a decisão de Trump de acolher o candidato alvo de investigações abriu uma nova frente de desgaste político para a Casa Branca. Nas redes sociais, manifestações e vídeos de democratas e opositores do presidente exploram o apoio do mandatário a lideranças estrangeiras que enfrentam questionamentos judiciais e contestam resultados eleitorais desfavoráveis.
Democratas cobram explicações sobre acolhimento de Flávio
Nas primeiras reações, parlamentares do Partido Democrata criticaram publicamente a decisão de Trump conceder vistos a Flávio Bolsonaro e à família. O deputado Joaquin Castro, integrante da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes, cobrou explicações do governo sobre uma possível ajuda à fuga de Flávio. O deputado Shri Thanedar também criticou o tratamento concedido ao brasileiro.
Em publicação nas redes sociais, os Democratas compararam a recepção oferecida à família Bolsonaro às restrições impostas a pessoas que tentam entrar nos Estados Unidos fugindo de conflitos no Sudão e no Haiti, ironizando a disposição de Trump em receber um político que contestou o resultado de uma eleição democrática.
O político democrata Isaiah Martin, candidato ao Congresso dos Estados Unidos pelo Texas, afirmou nesta terça-feira (27) que Flávio Bolsonaro seria deportado “no primeiro dia” caso os democratas assumam o controle político necessário para fazê-lo.
O Departamento de Estado não detalhou publicamente a categoria dos vistos concedidos nem esclareceu se Flávio apresentou um pedido formal de proteção internacional.
As Midterms entram na disputa
As eleições legislativas de 3 de novembro renovarão parte do Congresso norte-americano e funcionam como um teste para o governo Trump. Os republicanos tentam preservar sua força no Legislativo, enquanto os democratas buscam ampliar sua representação e limitar a capacidade de ação do presidente.
A poucos dias de o país votar essa renovação, a vitória de Lula ecoou além das fronteiras brasileiras. Nos EUA, a fuga de Flávio amplificou ainda mais as críticas, com parlamentares e eleitores democratas cobrando explicações, publicações nas redes sociais ampliam o debate e a imprensa norte-americana relaciona a derrota brasileira do aliado de Trump à disputa interna nos Estados Unidos.
Revés para a influência de Trump
A vitória de Lula representa também uma derrota política para o projeto de aproximação de Washington com a direita brasileira.
Após a vitória de Lula, Trump voltou a questionar o processo eleitoral brasileiro, afirmando que a votação parecia fraudulenta, sem apresentar evidências que sustentassem a acusação. O discurso foi repercutido por influenciadores ligados ao movimento MAGA, que também contestaram o resultado e defenderam medidas contra o Brasil.
A relação entre os governos já vinha marcada por tensões. A administração Trump adotou medidas comerciais e sanções contra autoridades brasileiras em meio ao processo judicial envolvendo Jair Bolsonaro, pai de Flávio, condenado por tentativa de golpe de Estado. A interferência norte-americana na política brasileira também foi alvo de críticas de parlamentares democratas antes da eleição.
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