Com apresentação de Lourdes Nassif e Reynaldo Aragon, o programa estreia em 15 de setembro, às 21h, e será exibido todas as terças-feiras no GGN.
Da Redação
A estreia recebe Eden Cardim para uma conversa sobre gerrymandering digital e as novas formas de disputa pelo poder no ambiente tecnológico. O PODER.EXE nasce para investigar como plataformas, dados, algoritmos e transformações do comportamento estão reorganizando a política e a sociedade.
No GGN, um novo espaço para pensar a tecnologia e o poder a partir do Sul Global
Há momentos em que uma parceria editorial não nasce apenas da convergência entre dois projetos, mas de uma necessidade do próprio tempo. O PODER.EXE, novo programa realizado pelo GGN em parceria com o Código Aberto.net, surge dessa percepção: já não é possível compreender a política sem compreender a tecnologia, assim como não é possível discutir tecnologia ignorando as disputas econômicas, culturais e comportamentais que atravessam cada plataforma, cada algoritmo e cada nova infraestrutura de comunicação.
A estreia será na próxima terça-feira, 15 de setembro, às 21h, com apresentação Lourdes Nassif e Rey Aragon. A partir daí, o encontro será semanal, sempre às terças-feiras, no mesmo horário. O primeiro convidado será o jornalista e cientista de dados Eden Cardim, para uma conversa sobre gerrymandering digital — conceito que ajuda a compreender como os ambientes informacionais podem ser organizados, segmentados e manipulados de maneira a interferir na forma como grupos sociais percebem o mundo, se relacionam com a política e tomam decisões, em especial no periodo eleitoral.
Essa será a matéria-prima do PODER.EXE. Não um programa sobre tecnologia no sentido estreito da palavra, tampouco mais uma mesa de comentários sobre a conjuntura política. A proposta é observar o ponto em que tecnologia, política e comportamento se encontram e passam a operar como uma única engrenagem de poder. Inteligência artificial, redes sociais, soberania digital, Big Techs, desinformação, eleições, infraestrutura, guerra informacional, economia de dados, transformação do trabalho e disputa pelo imaginário estarão entre os temas examinados ao longo do programa.
O olhar será também uma escolha. Queremos pensar esses processos a partir do Sul Global, das necessidades brasileiras, da democracia, da soberania e de um horizonte de desenvolvimento que não aceite como inevitável uma ordem tecnológica desenhada longe de nossas sociedades e frequentemente subordinada aos interesses de grandes corporações e centros de poder. A tecnologia não chega ao mundo pronta e neutra. Ela carrega interesses, modelos econômicos, relações de propriedade e determinadas concepções sobre quem pode decidir, produzir, conhecer e governar.
É justamente por isso que o GGN é a casa certa para essa conversa. Ao longo de sua história, Luis Nassif e o GGN construíram um espaço raro no jornalismo brasileiro, no qual ciência, economia, desenvolvimento nacional, universidade, cultura e política podem conversar sem a obrigação de caber na superfície do debate cotidiano. Em tempos marcados pela velocidade, pelo ruído e pela simplificação, preservar um lugar dedicado à inteligência e à complexidade não é detalhe editorial: é uma forma de compromisso público.
Para o Código Aberto.net, essa parceria tem um significado especial. Encontramos no GGN não apenas espaço para um novo programa, mas afinidade com uma ideia de jornalismo que considera conhecimento parte essencial da vida democrática. Um jornalismo capaz de perguntar não somente o que aconteceu, mas que forças produziram aquilo que aconteceu, quem controla essas forças e a serviço de quais projetos elas estão sendo mobilizadas.
É com esse espírito que nasce o PODER.EXE.
Toda terça-feira, às 21h, queremos abrir uma conversa com pesquisadores, cientistas, jornalistas, formuladores e personagens capazes de nos ajudar a enxergar aquilo que muitas vezes permanece escondido sob a interface aparentemente simples do mundo digital.
Na próxima terça, começamos.
PODER.EXE — 15 de setembro, às 21h, na TV GGN e na TVcodigoaberto.
Reynaldo Aragon – Editor do codigoaberto.net
Rui Ribeiro
14 de setembro de 2026 9:50 amLucros das Big Techs: Produção versus Consumo
As Big Techs sustentam que seus lucros não são originados na produção, mas no consumo dos seus serviços. Ora, os lucros das big techs vêm fundamentalmente da produção, embora elas utilizem a esfera da circulação (e a captura da atenção) para realizar e maximizar esse valor.
O dinheiro recebido por uma escola particular é “valor-atenção”?
Não. O dinheiro pago pela mensalidade escolar representa a realização de valor (e de mais-valia) na esfera da circulação. O dinheiro é apenas a forma-preço de uma mercadoria (o serviço educacional). O conceito de “valor-atenção” é tratado pela crítica marxista como um equívoco que confunde o pagamento na circulação com a substância criadora de valor.
A mais-valia do dono da escola vem do trabalho dos professores ou da atenção dos alunos?
Do trabalho dos professores. Como escreveu Karl Marx, “o professor é um trabalhador produtivo… quando trabalha como um cavalo para enriquecer o dono da escola”, a mais-valia brota da exploração da força de trabalho do professor. A atenção do aluno é uma condição pedagógica para que o processo de ensino ocorra, mas “não cria valor econômico”. O aluno consome o serviço; ele não produz capital.
A Aplicação às Big Techs: Produção ou Consumo?
As plataformas digitais (como Google, Meta, TikTok) geram lucros massivos que parecem vir do “consumo” ou da “atenção” (anúncios direcionados, dados coletados dos usuários). No entanto, a análise materialista esclarece que:
O mito do “trabalho do usuário”: Teorias da “economia da atenção” ou do “capitalismo de plataforma” frequentemente argumentam que o usuário gratuito produz valor ao navegar e prestar atenção. Porém, para o marxismo clássico, o usuário comum está na esfera do “consumo” (mesmo quando fornece dados, ele o faz como consumidor/espectador, não como assalariado inserido em uma relação de produção capitalista).
Onde está a verdadeira mais-valia? A mais-valia das big techs é gerada pelo “trabalho assalariado de engenheiros de software, cientistas de dados, moderadores de conteúdo terceirizados e equipes de infraestrutura”. São esses trabalhadores que produzem o capital incorporado nos algoritmos e plataformas.
O papel da atenção: A atenção capturada dos usuários e a venda de anúncios pertencem à esfera da circulação e realização. É o mecanismo pelo qual a empresa traduz a mercadoria algorítmica em dinheiro, realizando a mais-valia extraída do trabalho de seus funcionários (e apropriando-se de rendas monopolistas).
Um ponto fundamental a se considerar nessa discussão é que o lucro das big techs também se apoia fortemente na apropriação do valor gerado por criadores independentes, escritores, jornalistas, cientistas e matemáticos que alimentam essas plataformas. Embora esses produtores de conteúdo muitas vezes não sejam funcionários contratados por carteira assinada, seus textos, pesquisas, músicas e obras de arte funcionam como a matéria-prima essencial que atrai a atenção dos usuários e viabiliza o modelo de negócios baseado em anúncios e dados. Nesse sentido, as plataformas exercem uma forma de extração de valor e expropriação de renda intelectual – assemelhando-se a uma nova forma de renda da terra ou de monopólio digital -, onde o esforço criativo alheio é capturado e monetizado pelo capital algorítmico sem a devida e justa compensação.
Confundir a atenção do consumidor com a fonte do valor é cometer o erro de olhar apenas para a “aparência do mercado” (onde tudo parece nascer da troca e do desejo do consumidor) e ignorar a “relação social de exploração” oculta nos bastidores da produção tecnológica.