Mistura de filme B japonês dos anos 1960 com um típico melodrama familiar norte-americano deste início de século XXI, Godzilla-2014 dificilmente vale o equivalente a 1/4 da entrada no cinema. Paguei inteira e sai do Kinoplex me sentido roubado.
Belas imagens de destruição urbana foram criadas digitalmente para emoldurar coisas banais, como a devoção ao cumprimento do dever, a obsessão pela verdade de um cientista que viu a esposa morrer e o reencontro dele com o filho soldado. Após lutar para salvar a cidade de São Francisco e matar os filhotes de um casal de monstros o soldado protagonista reencontra esposa e filho sãos e salvos.
Godzilla mata seus dois adversários e retorna ao fundo do mar após descansar durante algum tempo. O plano dos militares para matar todos os monstros usando uma bomba nuclear falha. Na verdade eles acabam apenas fornecendo aos inimigos de Godzilla a energia que eles precisavam para chocar seus ovos. Moral da história: "plano militar é uma relação de coisas que quase sempre não ocorrem."
A Natureza, que está sempre no comando de tudo segundo um cientista japonês, encontra seu equilíbrio quando um monstro destrói outros monstros. A luta entre Godzilla e seus adversários, porém, ocupa apenas uma pequena parte do filme. Dois terços ou mais da obra são gastos para explicar a origem e os desdobramentos de um pueril melodrama familiar. Impossível não ficar com sono ao ver fotos de família serem reencontradas após vários anos de abandono numa cidade japonesa despovoada.
Os adversários de Godzilla também se reencontram. Mas a família feliz de monstros que tenta gerar filhotes nos EUA não tem um final feliz. Primeiro, os filhotes são incinerados pelo soldado protagonista. Depois o casal monstruoso é morto pelo gigantesco dinossauro solitário que retorna ao fundo do mar oceano.
O melodrama da família do soldado protagonista tem um final feliz. A saga da família de monstros termina numa tragédia colossal. A Natureza, que deveria estar no comando de tudo e a todos tratar com a mesma equidade, concede privilégios dramáticos aos seres humanos. As famílias de monstros terão que esperar por um final feliz numa outra produção que seja menos antropocentrica.
Godzilla não tem esposa ou filhotes. Ele termina como começou: sozinho e mergulhado nas profundezas oceânicas. A pobreza familiar do monstro-herói é semelhante à da maioria dos cinéfilos. Isto explica porque o respeitável publico tende a sentir emparia por este novo Godzilla: ele é um monstro que pode ser visto como um de nós. O mesmo não se pode dizer, por exemplo, do soldadinho dedicado que reencontra emocionado sua esposa comportada e seu filhote quase mudo. Quem em sã consciência lutaria para proteger uma família como aquela?
Só mesmo Godzilla-2014 é capaz de salvar uma típica família cinematográfica norte-americana. É digno de nota que o herói-monstro só faça isto porque não tem uma família semelhante. Se tivesse, Godzilla provavelmente ficaria rindo e assistindo de longe os melodramas familiares nos EUA. "Humanos demasiadamente humanos todos somos", talvez Godzilla dissesse para si mesmo como um bom nietzschiano.
Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo
Seguir no Google
Deixe um comentário