Não sei se é um bom tema para Páscoa. Talvez sim, pois este ano o Pessach, que rememora a fuga da escravidão no Egito, coincide com a Páscoa cristã. Espero que os amigos judeus compreendam que minha intenção é a melhor possível.
Uma coisa que sempre me deixa triste, realmente muito triste, chocado na verdade, é saber que ainda existem pessoas que acreditam no Negacionismo do Holocausto, isto é, que este episódio histórico não teria sido “grave” do modo como cabalmente comprovado por documentos, relatos, censos.
Evitar o ressurgimento da intolerância em relação a pessoas de religião judaica pelo mundo, ainda mais que não há relação entre elas e o atual conflito israelo-palestino (que é toda uma outra história) é uma tarefa permanente para todas as pessoas com boa vontade. Razão pelo que o ensino sobre o Holocausto, em graus variados, é constante nos currículos de história por todo o mundo. Da revista Morashá:
“As tentativas de negar o genocídio sistemático de seis milhões de judeus nos obrigam a admitir uma amarga verdade: o antissemitismo é uma doença grave que ainda está latente nas sociedades. Ele pode adormecer durante certo período, mas volta com novas forças, mudando suas vestes e atuando com brios intensos. No decorrer das gerações, os judeus mantiveram a esperança no desaparecimento do fenômeno, porém aos poucos entenderam que é impossível desligar-se totalmente do bacilo do antissemitismo.”
Como lembra Bobbio, o Holocausto não é apenas “mais um” episódio de guerra:
“… é um fato único na história, o maior delito até agora realizado por homens contra outros homens”. Nesse sentido, Bobbio, em 1960, antecipa a tese sustentada por Hannah Arendt em Eichmann in Jerusalem, publicado em 1963, revisto em 1964, de que o Holocausto é, pela natureza e escala, um crime sem precedentes e sem antecedentes. Nada há, lembra Bobbio, que se compare com o genocídio organizado e premeditado: “Entre o horror da guerra e o horror do genocídio, ainda que não houvesse uma diferença de quantidade (mas seis milhões de mortos são uma quantidade desmesurada), existe uma diferença de natureza: a guerra é a eterna luta do homem contra o homem, conduzida por meios violentos, os homens que se tornaram lobos famintos que se devoram uns aos outros; a guerra pode também conduzir ao extermínio, mas o seu fim é a vitória, não o extermínio. No genocídio organizado e premeditado o extermínio foi o fim em si mesmo…” (extraído de artigo da edição 104 da Revista Cult.)
Bom, a História do Holocausto é longa, complexa, dramática e bastante conhecida (ou deveria ser.)
Os artigos e textos que apresento a seguir falam especificamente do pós-Holocausto, de como é uma farsa o processo de se tentar negá-lo ou mesmo diminuí-lo. Ainda há um desconhecimento sobre o que é o Negacionismo do Holocausto. Felizmente, no entanto, muitos sabem que já foi fartamente rebatido, que Garaudy foi um dos poucos negacionistas famosos, que a Editora Revisão (lamentavelmente) publicou no Brasil os livros dessa corrente de pensamento.
O que penso, além disso, a respeito:
– que tentar usar o negacionismo como ferramenta para enfrentar o sionismo antipalestino é um equívoco, posto que desmoraliza e fragiliza a posição do antissionismo, ao associá-lo a teses que não encontram nenhuma receptividade em ambientes acadêmicos. Estimular-se-ia, assim, o que se chama de “indústria do Holocausto” (que pode ser vista também tanto como resposta como estímulo ao “negacionismo”) ;
– que há uma tendência mundial a considerar o negacionismo como relacionado a discurso de ódio e, portanto, crescentemente criminalizado, sendo que, por ora, apenas na Europa e Israel. Nos EUA mesmo, sua divulgação não é criminalizada. Sei que há jurisprudências no Brasil, com base nas leis 7716/89 e 9459/97, que entendem o negacionismo como crime de racismo. Entendo que há uma discussão no Brasil quanto à validade disso e eu entendo, como a jurisprudência ditada pelo STF em 2003, que não há risco à liberdade de expressão com a interpretação atual da justiça (considerar o negacionismo como uma farsa, não como uma ideia ou expressão válida de conhecimento e para pesquisa);
– que muitas pessoas que dão crédito a teorias negacionistas podem simplesmente não estar informadas, ou mesmo podem estar sendo incautas ou manipuladas. Teorias de conspiração as mais diversas ganham sobrevida graças ao novo canal internet, as pessoas não têm em geral o hábito de checar fontes, ficam propensas a acreditar em coisas que combinem com crenças pré-existentes. Mas isso não deve durar mais que uma ou duas décadas;
– que o fato de muitos textos na área serem de autores judeus não os desmerece em nada, posto que estes entendem mais de antijudaísmo como muçulmanos de islamofobia, negros e índios de racismo e imigrantes de xenofobia. E nem isso pode ser considerado propaganda sionista.
Procurando somar, para facilitar uma introdução ao tema, busquei por artigos que podem ser interessantes. Isso não substitui de modo algum o trabalho que cada pessoa realmente interessada deve fazer.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Negacionismo_do_Holocausto
http://encontro2008.rj.anpuh.org/resources/content/anais/1212959137_ARQUIVO_Anais_da_ANPUH-Daniela[1].pdf
http://holocaustobr.blogspot.com.br/2010/04/livro-alerta-sobre-difusao-do.html
http://www.morasha.com.br/conteudo/artigos/artigos_view.asp?a=893&p=1
http://www.ufrrj.br/graduacao/PEThistoria/arquivos_PET/atividades/jornada-PET/anais/anais-pdf/24_IMAGENS-DO-HOLOCAUSTO-UMA-ANALISE-DA-MANIPULA%C3%87AO-ICONOGRAFICA-NEGACIONISTA.pdf
http://reidespecial.org.br/?CONT=00000353
http://holocausto-doc.blogspot.com.br/2008/02/as-perguntas-e-respostas-do-ihr-e.html
http://www.conjur.com.br/2003-set-04/stf_mostra_liberdade_expressao_limites
http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/bobbio-holocausto/
Com reservas (pois o site em questão não tem reputação consolidada), a “direita” atribuindo à “esquerda” a propagação do negacionismo:
http://www.midiasemmascara.org/arquivos/5412-as-origens-do-%E2%80%9Crevisionismo-historico%E2%80%9D.html
Exemplo de artigo negacionista:
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