Quando o presidente João Goulart subiu ao pequeno palanque de 1,60 metro de altura postado na praça da República, em frente à Central do Brasil, no Rio de Janeiro, fez-se silêncio entre os 100 mil presentes. Eram 19h44 de 13 de março de 1964.
Em discurso de 65 minutos, João Goulart anunciou que havia assinado decreto que encampava todas as refinarias particulares de petróleo e outro que desapropriava e destinava à reforma agrária terras em torno de ferrovias e rodovias federais e pedia reforma urgente da Constituição, “acima da qual está o povo”.
O evento começou às 17h com o nome oficial de Comício Pró-Reformas de Base. Segundo os planos de João Goulart, seria o primeiro de uma série que culminaria com uma concentração de 1 milhão de trabalhadores no dia 1º de maio, em São Paulo.
A localização do evento era estratégica. Primeiro, porque os trens da Central poderiam despejar milhares de pessoas na praça em poucas horas. Ainda mais com as passagens gratuitas, como determinou o governo federal que elas fossem naquele dia 13.
Pois de trem acorreram manifestantes de diversas regiões do país. Só de São Paulo saíram pelo menos duas composições, uma batizada de Vanguarda e outra de Reforma, com 2.200 trabalhadores. Num dos trens vinham Fernando Henrique Cardoso e seus colegas, intelectuais da USP.
Segundo, porque pegava a ala lateral do Ministério da Guerra, o que deu margem à interpretação do “recado” aos militares. Ainda assim, o palanque, apertado e ao lado de um outdoor da Gordura de Coco Carioca, contou com a presença dos três ministros militares do governo Jango.
O primeiro dos 15 oradores foi José Lélis da Costa, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Guanabara. Logo veio José Serra, aos 21 anos presidente da UNE. Falou por oito minutos, a maior parte dos quais registrada em filme.
“Lembro ter sido carregado até as proximidades do palanque e de ter percebido que quem fazia toda a segurança era o Exército, o que achei esquisito”, diz Serra. Não estava claro se ao futuro senador seria dado o direito de falar, devido ao discurso duro que havia feito na frente de Jango e dos ministros militares no ano anterior, no comício de 23 de agosto.
Ao ser apresentado no palanque, Serra foi aplaudido e instado a discursar. Hoje, avalia o comício em dois aspectos: “Por um lado, mostrou que havia uma capacidade de mobilização popular; por outro, deu às forças que promoveriam o golpe a sensação de risco em progressão geométrica, o que não era verdade, pois o risco era de progressão aritmética, ou seja, menor”.
Mas o orador mais polêmico e que causaria maior comoção seria mesmo Leonel Brizola. Enquanto fazia sua crítica ao Congresso e sugeria a formação de um outro, era incentivado aos gritos de “Fecha!”, “Fecha!”. Por algum motivo, as palavras daquele dia não ficaram na memória do ex-governador: “Com toda a franqueza, não me recordo do texto; não confirmo nem nego”.
Mas lembra um detalhe importante: “Vim de Porto Alegre para o Rio naquele dia especialmente para o evento, apesar de não ter sido convidado”. Mesmo assim, chegou ao palanque. “Fui entrando e, em seguida, pedi para falar. Não puderam me negar o microfone, e nem preciso dizer que a receptividade foi calorosa.”
A praça estava tomada, mas o número exato de participantes é objeto de disputa. Vai de 100 mil a 200 mil, dependendo da fonte da época. Chamava a atenção também a bela figura de Maria Teresa Goulart no palanque. “A presença de Jango com ela foi entendida como um recado ao país de que ele estava tomando o comando”, diz Skidmore, no Rio naquele dia, que assistiu ao comício pela TV.
Terminada a noite às 21h15, João Goulart passou mal e deixou a praça em direção ao Palácio das Laranjeiras no assento de trás do carro oficial, deitado com a cabeça no colo da primeira-dama, a quem chamava de Teca, que lhe acariciava os cabelos -antes ela declarara, para a delícia dos jornalistas presentes, ter achado “maravilhoso” o comício.
O comício da Central do Brasil precipitou um golpe civil-militar que já se desenhava.
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