E finalmente é desvendado o mecanismo que o urso usa quando hiberna. Seu metabolismo vai para ¼ do normal, situação que em seres humanos geraria perdas de massa muscular e óssea. Com isso, ele passa o inverno tranquilo e as fêmeas inclusive têm filhotes nessa situação sem deixar de hibernar (não me perguntem como os pequenos conseguem ser mantidos sob controle).
A compreensão de tal fenômeno permitirá, entre outras coisas, que possamos fazer longas viagens espaciais (e bote aí coisa para muito além de Marte) sem que haja degradação de nossos corpos, por exemplo. E enquanto ainda não saímos deste planeta para conquistar outros mundos, poderão sorrir os pacientes vítimas de atrofias musculares e osteoporose. A linha fina falou de pessoas em coma, mas o texto não tratou disso, mas possivelmente pôr quem estivesse em tal situação não em coma, mas em hibernação induzida também ajudaria um bocado, poupando trabalho do pessoal da enfermagem em, por exemplo, evitar a formação de escaras ou ter de recolher urina e fezes. Também vislumbro aqui alguma possibilidade de uso de tal recurso como uma forma de ajudar a aliviar o drama de quem estivesse muito mal e em uma fila de transplante.
Não deixa de ser interessante também notar semelhanças entre nós e os ursos negros americanos, como o fato de o coração deles bater normalmente a 55 bpm. Tudo bem que 38ºC, normais no urso, seriam sinal de febre em nós, mas quando olhamos seu estado de hibernação, a temperatura máxima a que ele chega é de 36ºC, outra semelhança interessante.
Outra utilidade para o mecanismo hibernatório consigo enxergar para outros animais. Alguns são muito susceptíveis a estresse e seu transporte chega a ser problemático. Hibernados, poderiam percorrer distâncias grandes sem haver risco de morrerem no caminho, algo que geraria comemoração em muitos que veem seus cães e gatos sofrerem quando precisam entrar naquela caixinha de transporte. Também dá para imaginar o uso disso em transferências de animais selvagens para repovoamento de habitats onde eles estão raros ou extintos. Hibernados, a coisa fica bem mais simples e fica até possível imaginar a erradicação de espécies invasoras não por extermínio, mas por realocação de indivíduos para a terra onde são nativos, mesmo que esta esteja muito longe. E quantas não são as vezes em que animais que são invasores em um habitat estão raros ou quase extintos no lugar de onde vieram?
Segue:
Do Último Segundo
Ursos diminuem drasticamente seu metabolismo durante hibernação
Estudo apresentado durante congresso científico tem aplicações potenciais para viagens espaciais e tratamento de pessoas em coma
Por Natasha Madov, enviada a Washington | 17/02/2011 16:59
Foto: Øivind Tøien/ University of Alaska Fairbanks
Cara de sono: urso americano diminui três quartos de seu metabolismo durante hibernação
No auge do frio do inverno, eles tiram uma senhora soneca. O urso negro americano, (Ursus americanus) passa de cinco a sete meses por ano hibernando, sem comer, beber ou defecar durante todo este tempo. Se uma fêmea estiver prenhe, ela dá a luz ao filhote e volta a hibernar. Embora esse mecanismo de sobrevivência do urso e de outros animais seja conhecido há muito tempo, pouco se compreendia dos seus aspectos biológicos.
Mas um estudo da Universidade do Alaska apresentado hoje (17) durante a reunião da Sociedade Americana para o Avanço da Ciência, em Washington, (na sigla em inglês, AAAS) mostrou que os ursos são surpreendemente sofisticados nesta estratégia de sobrevivência, diminuindo três quartos de seu metabolismo em seu período de hibernação. É a primeira vez que cientistas descobrem uma diminuição tão drástica em mamíferos que hibernam. E mesmo após acordarem, na primavera, o metabolismo ainda continua baixo, só voltando em seu valor normal durante o verão. “Foram duas ou três semanas para se recuperarem, enquanto animais menores, como esquilos, demoram apenas um dia para voltar ao normal depois da hibernação”, explicou Øivind Tøien, um dos pesquisadores envolvidos na experiência.
Já era fato conhecido que a temperatura corporal também varia, mas os pesquisadores conseguiram estimar com precisão essa mudança: de 30 a 36 graus Celsius, em intervalos de dois a sete dias. É uma mudança mais suave, pois no verão a temperatura corporal chega no máximo a 38 graus. Ao chegar ao valor mais baixo, o corpo do urso começa a tremer até o corpo ficar mais quente.
Tudo isso foi possível porque o departamento de caça e pesca do Alasca capturou um grupo de animais saudáveis que estava ameaçando comunidades locais, e os animais foram levados a um centro de pesquisa, onde suas tocas foram recriadas com fidelidade, longe de seres humanos, e equipadas com câmeras infravermelhas, sensores de movimento e transmissores de rádio foram implantados nos ursos, para registrar a temperatura, batimentos cardíacos e atividade muscular.
Uma das fêmeas teve um filhote durante o período de estudo, e os cientistas descobriram que enquanto estava prenhe, seu metabolismo não se alterou. Depois do nascimento do ursinho, no entanto, sua temperatura e metabolismo caíram aos níveis dos outros animais.
O batimento cardíaco dos animais também se alterou significativamente: dos normais 55 batimentos por minuto para 14 por minuto. A respiração também se desacelerou: os ursos podiam levar 20 segundos entre cada inspiração e expiração.
Brian Barnes, principal autor do estudo, acredita que o próximo passo está em entender a base genética desse comportamento, e como os ursos conseguem baixar tanto seu metabolismo e ainda assim continuar vivos e funcionais. “Eles não perdem massa muscular ou óssea como acontece com um ser humano ao ficar imobilizado tanto tempo,” disse durante coletiva em Washington. “Agora estamos interessados em descobrir os sinais moleculares que ativam essas mudanças, pois entender este mecanismo pode ajudar em novas terapias para prevenir atrofias musculares, osteoporose e até mesmo criar mecanismos que viabilizem viagens espaciais tripuladas de longa duração”.
Deixe um comentário