Ela podia ser só um rostinho bonito disfarçando o cérebro brilhante, mas também gosta de animais. Ela podia só gostar de animais, mas também dedica boa parte de sua vida a cuidar deles. Ela podia só dedicar boa parte de sua vida aos cuidados com eles, mas também leva pra sua casa todos os bichos mortalmente feridos ou gravemente mutilados que naturalmente sucumbiriam até a primeira hora do dia seguinte. E foi assim que Janaína de repente percebeu que vivia em um reino encantado povoado por gatos, micos e gambás. Mico, permitam-me a correção: era só um, o Leon. O Leon caiu ou foi lançado das costas do mico (Seu Pai), e logo em cima da Janaína, que passava na calçada justo naquele momento. Ainda era um ratinho recém-nascido, e lá foi a Janaína dar mamadeira, descobrir o que mico come e do que mico gosta pra driblar a Dona Morte e permitir que ele crescesse forte e irreverente, dando na cara de uns gatos e apanhando de outros, roubando tudo que podia (porque roubar faz parte da natureza dos micos) e enchendo seu reino encantado de alegria.
Hoje eu cheguei lá e encontrei a Janaína com cara de choro. “O que houve?”, perguntei. “O Leon, Vanessa… O Leon morreu.” Choramos por um instante, eu e ela; eu, ela e as duas gambás; eu, ela, as duas gambás e os muitos gatos; eu, ela, as duas gambás, os tantos gatos e o silêncio; eu, ela, essa bicharada toda, o silêncio e um vazio que preenchia tudo o que antes o Leon recheava com a sua alegria sibilante. 
Bem que eu achei o dia frio e triste hoje cedo. E bem que eu falei pra ela: “Dos nossos bichos, a gente só tem duas certezas, Janaína: que eles vão nos encher de alegria a vida toda; mas vão nos matar de tristeza quando se forem.”
R.I.P, macaquinho Leon.
http://vanessaornella.com/
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