O neobolsonarismo e a minimização dos riscos à democracia, por Luís Nassif

Hoje em dia, o adesismo a Bolsonaro se dá em duas frentes. Junto à malta, a defesa de todas suas excentricidades e,unto ao público um pouco mais sofisticado, a minimização.

Há várias formas de adesão política.

Se não puder defender seu aliado, ataque seus críticos. Se não puder defender os abusos de seu aliado, minimize-os.

Hoje em dia, o adesismo a Bolsonaro se dá em duas frentes. Junto à malta, a defesa de todas suas excentricidades. Junto ao público um pouco mais sofisticado, a minimização: ele é meio estranho, mas não traz riscos à democracia. É uma modalidade de neobolsonarismo, de apoiadores envergonhados do capitão.

Segundo esse pensamento, a oposição acusava Lula de pretender transformar o Brasil em uma Venezuela. Agora, a oposição acusa Bolsonaro de pretender implantar uma ditadura. Nos Estados Unidos, os democratas acreditavam que os republicanos representavam riscos à democracia, assim como a oposição a Obama e a oposição a Donald Trump apontavam os mesmos riscos. Logo, apontar riscos à democracia é comportamento habitual das oposições e, por isso mesmo, os alertas devem ser minimizados.

Há características absolutamente distintas entre Brasil e Estados Unidos, entre Obama, Trump, Hitler, Lula, FHC e Bolsonaro. Mas transforma-se um ponto em comum – o fato da oposição dramatizar os riscos da situação – em regra universal, e coloca-se todo alerta sobre os riscos à democracia no mesmo balaio, do superdimensionamento de riscos por parte da oposição. Pronto, está resolvido, poupando o analista do teste da análise complexa.

A lista dos falsos paralelismos é longa. Vamos a duas delas:

  1. É falso, mas que isso, é ridículo comparar a tradição democrática americana com a brasileira. Ao longo de toda a história republicana, a marca política do Brasil foi a ditadura ou a instabilidade política em regime democrático.
  2. É falso comparar Bolsonaro com qualquer dos presidentes brasileiros em período democrático. Nenhum deles foi defensor do estado de exceção, como Bolsonaro.
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Talvez os ímpetos de Fernando Collor pudessem sugerir algum comportamento mais bonapartista. Mas não se identifica nenhuma atitude dele – e de seus sucessores – que pudesse ser classificada como ameaça à democracia.

Bolsonaro é um caso único. É um presidente claramente inimigo da democracia, envolvido com milícias e com os porões, com ligações com as pessoas que comandam o Escritório da Morte, no Rio de Janeiro, e suspeito de participação em crimes políticos. E presidindo um país sem a menor tradição democrática.

Confira o seguinte teste:

  Lula FHC Bolsonaro
Controle sobre a Procuradoria Geral da República Não Sim Sim
Controle sobre a Polícia Federal Não Não Sim
Medidas para impedir investigações Não Sim Sim
Defesa do estado de exceção Não Não Sim
Desmonte dos sistemas de fiscalização ambiental Não Não Sim
Mudança nos critérios de distribuição de verbas de publicidade Não Não Sim
Censura nos patrocínios culturais Não Não Sim
Envolvimento com milícias, afastando fiscais que impediam o contrabando no porto de Itaguaí Não Não Sim
Puniu fiscais que o multaram Não Não Sim
Eliminação de conselhos de participação Não Não Sim

 

Nem se critique FHC pelo fato de manter Geraldo “Engavetador” Brindeiro no comando da Procuradoria Geral da República (PGR). Nenhuma democracia séria do mundo confere poder ilimitado a uma corporação não eleita, e com atribuições de processar o próprio Presidente da República. Nos EUA, o presidente da República tem o poder de demitir procuradores sem precisar se explicar. Só a ingenuidade petista para esse gesto de “republicanismo”.

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Bolsonaro não apenas enquadrou a PGR e a PF, como atuou para impedir investigações sobre seu filho; afastou fiscais da Receita que atuavam em áreas sensíveis a contrabando de armas, desarmou a fiscalização em áreas indígenas e de preservação ambiental; impôs censura cultural nos patrocínios de empresas públicas e acabou com todos os conselhos de participação.

E está montando uma rede nacional, com apoio das milícias, do neopentecostalismo, das Polícias Militares, das empresas privadas de segurança, dos donos de cartório.

Esses malabarismos, para não aceitar os riscos que Bolsonaro representa, se explica apenas pelos ganhos pontuais do mercado com Paulo Guedes. Mas é a prova definitiva de que o mercado não pensa além do próximo exercício de opções.

 

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10 comentários

  1. Riscos à Democracia é o de menos…
    perigo maior virá dos adoradores de Hitler e do seu deus

    já estão perseguindo os que não dançam conforme a música deles, que é a mesma do nazismo

    eu mesmo já passei por algo parecido ao ter o portão de minha casa chutado várias vezes por ter me recusado a abri-lo para um grupo de milicianos evangélicos

    cultura e opção religiosa, quando criadas, alteradas e impostas à força, é nazismo

    Todo o povo brasileiro corre perigo, não é só a Democracia não

    • Peguei uma van para ir de uma cidade a outra aqui no Sul do MA e pude perceber a estrategia de Bolsonaro para adentrar no Nordeste: o uso de fake news para colocar Bolsonaro como vitima de malvados esquerdistas que derramaram oleo no mar e atearam fogo na Amazonia….ouvi esse absurdo na voz de um pastor, via radio….alem dos discursos mentirosos nos cultos, ha os jornais impressos, internet, whatsapp, tvs locais, radios comunitarias e webradios

      • Enquanto isso, a esquerda partidária insiste no textao acadêmico, nas palestras, nos debates, nos slogans batidos…

        Uns e outros viraram tuiteiros…agora vai.

  2. O problema maior é minimizar o antipetismo.

    Todas, TODAS as campanhas presidenciais dos setores “sofisticados” durante a Nova Republica foram montadas no antipetismo; contra o “comunismo”, contra o “socialismo”, contra a União Soviética, Cuba, Stalin, Fidel… Depois de quatro derrotas consecutivas, o que mudou agora foi só a “cabeça de chapa”, por assim dizer. 1/3 do eleitorado está fechadinho, firme e forte com a boçalidade e a mentira.

    O PSDB, por exemplo, só engordou depois que herdou o governo Collor e Itamar. No poder fizeram tudo que disseram que iam fazer, tudo que nao disseram que iam fazer e tudo que disseram que nao iam fazer, as unicas exceções foram o parlamentarismo, voto distrital e entrega da previdencia. Hoje a social democracia À brasileira tenta voltar a ser um “partido de quadros”, “em cima do muro” (bota aspas nisso), aa espera de outro governo cadente…

    É esse o maior exemplo do que alguns teimam em chamar de “centro democrático”.

    …Acham que a disputa pelo poder é coisa de “cavalheiros”….

    E ainda falam do “republicanismo” do PT, PT, PT.

    5
    1
  3. Tem um erro si em cima, controle sobre a pf? Sim….e o caso lunus?????? Em que dizimaram a precoce candidatura Roseana Sarney? Era pra ficar um mandato, e comprou a reeleição, com alguns inergumenos pexinyum terceiro mandato, impossível pela ruindade e incompetência do governo, foi um governo totalmente voltado ao mercado, prejudicial aos pobres e trabalhadores, a diferença com esse desgoverno miliciano foi ser travestido de social democrata….mas tinha os mesmos ingredientes, proteção da mídia aos desfeitos e dos órgãos de fiscalização, que não faziam seu trabalho…….quantas cpis houveram naquele período nefasto???? Quem viveu e sofreu naquele período não esquece…..

  4. O imbecil do Alvim apenas escancarou o processo de fundação do Estado Totalitário. Caiu apenas porque foi sincero demais. Enquanto isso os democratas apenas observam, estupefatos, e Lula chuta o saco do PCdoB e reafirma a exuberância do “maior partido do Brasil”. Tamos fudidos.

    • Só caiu pela grita dos de fora…..se a reclamação fosse apenas interna, o doidão estaria mais que assegurado bj o cargo……mas foi derrubado pelos novos amigos do coiso, aqueles mesmos que riram do negros quilombolas, lembram???????? Pois é, a estupidez é um bumerangue, que vai e volta contra quem atira…….

  5. Ainda continua a ilusão com a tradição democrática americana. Um país totalitário, com um bipartidarismo ilusório, onde as leis são produzidas por “representantes” do povo, eleitos pelo poder financeiro, onde a corrupção é legalizada pela existência dos “lobbies”. Vejam o que acontece com a democracia quando o pensamento único é ameaçado, lá e fora de lá, como aqui.

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