O político de direita e a corrupção capitalista, por Roberto Bitencourt da Silva

Os que hoje, como Bolsonaro, sorriem com o infortúnio de aliados de véspera, amanhã podem perfeitamente ser tragados pelo mesmo sistema que tanto defendem

Foto: Marcello Casal/Agencia Brasil

O político de direita e a corrupção capitalista

Por Roberto Bitencourt da Silva

Segundo a célebre música da cantora Fernanda Abreu, o Rio de Janeiro é a “capital do sangue quente, do melhor e do pior do Brasil”. A referida capital acordou nessa sexta-feira com a grave notícia de mais um governador acusado de altissonantes práticas de corrupção.

Uma prova adicional do predomínio em terras fluminenses e cariocas do “comando de comando, submundo oficial”? Wilson Witzel foi afastado do cargo por determinação do Superior Tribunal de Justiça. Na Assembleia Legislativa tramita o processo de cassação do seu mandato.

Auxiliares do seu governo têm sido investigados e alguns foram presos. Quanto ao governador, pesam as acusações de tráfico de influência e corrupção. As apurações policiais e judiciais seguem o seu curso, com o julgamento ainda distante no horizonte.

Segundo o noticiário, o presidente Jair Bolsonaro, ex-aliado do igualmente reacionário governador, ficou satisfeito com a decisão tomada pelo STJ. Por outro lado, os cidadãos de outras praças estaduais podem alegar que o problema peculiariza o Rio, cujo estado “só tem político que não presta”.

Nem Bolsonaro tem credibilidade para sorrir com a situação, nem a eventual sentença contra a política carioca e fluminense faria justiça com o estado. O Rio de Janeiro realmente é o lugar que talvez expresse de modo mais nítido “o melhor e o pior do Brasil”, na consagrada fórmula dada pela música pop nacional de Fernanda Abreu. Tratemos do pior.

Vamos combinar? O político de direita, em regra, é moralmente reprovável, bandido e corrupto, salvo exceções de praxe, aquelas em que as autoridades não estão diretamente envolvidas em tramas negocistas para alcançar objetivos materiais para si. No mais, o representante de direita é eleito para atender aos interesses dos empresários, especuladores, rentistas e grandes conglomerados corporativos privados.

Eles são eleitos para corromper o espaço e o interesse público. Os políticos de direita revelam uma orientação que se choca frontalmente com um princípio republicano elementar: a prevalência do interesse público sobre os anseios e as paixões privadas. Na contramão de tal preceito ético e doutrinário, o político de direita é movido para subjugar a coisa pública às aspirações de pessoas e grupos particulares. Ele é visceralmente antirrepublicano.

O político de direita – como Witzel e Bolsonaro – é um advogado daqueles poderosos setores econômicos e sociais. A rotina parlamentar ou administrativa do político de direita é norteada pelo tráfico do patrimônio, dos recursos e dos interesses públicos.

Representantes e políticos de direita são os defensores preferenciais do capitalismo. Vistam farda ou toga, manuseiem e se apropriem de bíblias ou códigos legais, ou não possuam qualquer aspecto e traje singular. Pouco importa.

O capitalismo e os capitalistas são corruptos e corruptores. Visam submeter a tudo e a todos ao princípio do ganho lucrativo privado. Trata-se de um modelo civilizatório que vai de encontro não só coma ordem republicana, mas com o ideal da democracia.

A soberania popular, o controle majoritário sobre as ações dos governantes e legisladores, bem como acerca de outras esferas de poder, também a participação dilatada incidindo no processo de decisões que afetam a toda a coletividade, são todas variáveis filosóficas e históricas fundamentais de qualquer sistema político que se pretenda democrático.

O capitalismo, obviamente, precisa minar tais requisitos, postulados e experiências. O primado da representação, para atender aos interesses da minoria portadora do dinheiro e do poder, desde o século 19, com os federalistas estadunidenses e com John Stuart Mill, no Reino Unido, tem almejado desintegrar as expectativas democráticas.

Nesse sentido, os políticos de direita têm cumprido com o papel do exercício da “responsabilidade” e da preservação das garantias da comunidade de negócios. Em países da periferia capitalista, como o Brasil, acrescente-se a defesa empedernida dos interesses alienígenas, das corporações multinacionais estrangeiras e do imperialismo. Uma direita que age, sem pudor, para assegurar a destruição e a subserviência do próprio país.

O cientista político Norberto Bobbio, décadas atrás, apresentou um simples e operacional parâmetro para distinguir direita e esquerda: a luz da igualdade econômica e social.

Quanto mais distante das proposições e iniciativas voltadas à realização da igualdade e do bem-estar social, mais à direita tenderiam a encontrar-se os líderes e representantes. Não gratuitamente ocorre a pulverização contemporânea da democracia, no Brasil e alhures, devido à diluição das diferenças políticas. A perda crescente da legitimidade em função do esfacelamento constante das fronteiras entre direita e esquerda.

A mercantilização capitalista que a tudo invade e a todos exige o comprometimento com os seus imperativos, a extensão desenfreada das práticas negocistas, não somente dão sustentação – provisória e instável – aos políticos de direita, como desmoralizam a própria atividade política.

No capitalismo, deus é a grana. Essa é uma lei férrea e sagrada do sistema. O político de direita é o seu pastor. O resto é papo somente para engabelar os incautos.

Os que hoje, como Bolsonaro, sorriem com o infortúnio de aliados de véspera, amanhã podem perfeitamente ser tragados pelo mesmo sistema que tanto defendem e que demanda, sistematicamente, insumos para a expiação das indisfarçáveis mazelas do capitalismo, para aplacar episodicamente os incontornáveis incômodos e desalentos coletivos. O político de direita é o pastor, mas também a oferenda no altar da religião capitalista.

Roberto Bitencourt da Silva – cientista político e historiador.

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