4 de junho de 2026

O samba-enredo que leva Lula e a esperança do Brasil à Sapucaí

Trata-se de um desfile sobre esperança, sobre como pessoas comuns podem empreender uma jornada que os levará a feitos fabulosos
Foto: Ricardo Stuckert

A Acadêmicos de Niterói levará à Sapucaí, no Carnaval de 2026, o samba-enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, uma homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que transforma sua trajetória pessoal em uma narrativa simbólica sobre a formação social brasileira, a luta popular e a construção coletiva de um projeto de país.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O enredo acompanha a trajetória de Lula da infância no Nordeste à Presidência da República, organizada por Milton Cunha a partir da lógica simbólica da “jornada do herói”, uma forma clássica de comunicar valores e pertencimento social.

Para o carnavalesco e pesquisador Milton Cunha, há um triunfo simbólico do herói, mas o sentido central do enredo está na origem de Lula.

“A sacada é começar com o menino, a família, a mãe, a luta que é comum a todos nós que fomos buscar dias melhores”. Trata-se, segundo ele, de “um desfile sobre esperança, sobre como mulheres comuns, homens comuns, podem empreender uma jornada que os levará a feitos fabulosos”.

A abertura do desfile se dá no sertão nordestino, em Pernambuco, em um país simbolicamente “assombrado” pela memória da ditadura militar. Para Cunha, esse ambiente inicial estabelece o pano de fundo histórico da narrativa.

“As assombrações estão ali na infância dele, representando os anos de chumbo da ditadura militar. É nesse cenário que surge o menino Luiz Inácio, sob a influência formadora de Dona Lindu, descrita como uma presença estruturante, uma mãe valorosa, que ensina o respeito, o trabalho, a luta”.

A infância é construída a partir de elementos simbólicos simples, como o quintal da casa de Lula, o pé de mulungu e o olhar para o céu, regado de esperança. Cunha explica que “esse menino adora um pé de mulungu, que está lá no quintal da casa, ele sobe e olha as estrelas”, e que essas estrelas não são apenas imagens poéticas, mas signos permanentes da narrativa, “estrelas que são o ícone da trajetória dele”.

O segundo movimento do enredo é marcado pela migração forçada da família, provocada pela seca, que conduz os retirantes do Nordeste a São Paulo. A travessia aparece como metáfora de um Brasil estruturalmente empurrado à mobilidade pela desigualdade.

Cunha descreve esse momento como uma ruptura histórica. “É hora de abandonar as assombrações. A grande seca faz a família partir para São Paulo, para o sonho”, num percurso que remete à formação social do país e à experiência coletiva dos retirantes.

Na sequência, o enredo acompanha a entrada de Lula no mundo do trabalho industrial e sua formação política. A figura do torneiro mecânico marca a transição da experiência individual para a organização coletiva. Para Milton Cunha, esse é o ponto de inflexão da narrativa.

“Ele conhece o sindicato, se apaixona pela luta grupal, pela possibilidade de melhorias, de salário, de buscar leis, de fundar um partido. A trajetória pessoal passa a se fundir com a construção de um projeto político”.

O percurso é marcado por derrotas eleitorais, disputas e enfrentamentos, que fazem parte da consolidação gradual desse projeto. Cunha descreve esse processo como uma caminhada longa e contínua. “Perde eleição aqui, perde eleição ali, enfrenta opositores, mas vai escrevendo a trajetória e se elege presidente da nação verde e amarela”.

A subida da rampa do Planalto em 2023 surge como imagem central de ascensão social de Lula, e reforça toda a trajetória narrada no enredo. Para Cunha, esse momento traduz o próprio caminho percorrido por Lula e por parcelas expressivas da sociedade brasileira.

Ele afirma que “a rampa do Planalto é uma subida íngreme, que é a própria trajetória desse nosso herói rumo a dias melhores”, e explica que, a partir desse ponto, o desfile passa a apresentar as políticas públicas como expressão concreta desse percurso, “programas sociais, Minha Casa, Minha Vida, combate à fome, ajudando estudantes a terminar seus cursos… você vai percebendo que o desfile usa o personagem como um exemplo de esperança”.

Nesse mesmo movimento simbólico, o termo “operário”, presente no título do enredo, é deslocado de seu sentido estritamente profissional e passa a assumir uma dimensão ética e humanista. Como define o carnavalesco, não se trata apenas “dos operários que acordam cedo, pegam transporte, batem o ponto”, mas de “um operário da cultura do bem, do valor humano, do humanismo”.

A narrativa também estabelece uma conexão direta entre política e cultura, ao associar a trajetória de Lula ao reconhecimento institucional das manifestações populares. Cunha insere o desfile no contexto da valorização da cultura popular como patrimônio nacional, vinculando a presença das escolas de samba na avenida ao reconhecimento da cultura do povo como elemento estruturante da identidade brasileira.

Na leitura final da Acadêmicos de Niterói, o enredo se consolida como uma interpretação simbólica da própria formação social do país. A figura de Lula funciona como eixo narrativo, mas o sentido do desfile está na coletividade, na experiência histórica compartilhada e na ideia de que trajetórias individuais podem se transformar em projetos nacionais. Como resume Milton Cunha, o desfile começa no menino e termina no líder, mas o que permanece é a a esperança como valor político estruturante.

Leia o samba-enredo completo aqui:

G.R.E.S. Acadêmicos de Niterói – Rio Carnaval 2026
Enredo: “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”
Compositores: Teresa Cristina, André Diniz, Paulo Cesar Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-tem Jr
Intérprete: Emerson Dias

Quanto custa a fome? Quanto importa a vida?
Nosso sobrenome é Brasil da Silva
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo

Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá, Lula! Lula!

Eu vi brilhar a estrela de um país
No choro de Luiz, à luz de Garanhuns
Lugar onde a pobreza e o pranto
Se dividem para tantos
E a riqueza multiplica para alguns

Me via nos olhares dos meus filhos,
Assombrados e vazios, com o peito em pedaços
Parti atrás do amor e dos meus sonhos,
Peguei os meus meninos pelos braços
Brilhou um sol da pátria incessante
Pro destino retirante te levei, Luiz Inácio

Por ironia, treze noites, treze dias
Me guiou Santa Luzia, São José alumou
Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical
À liderança mundial

Vi a esperança crescer e o povo seguir sua voz
Revolucionário é saber escolher os seus heróis
Zuzu Angel, Henfil, Vladimir
Que pagaram o preço da raiva
Nós ainda estamos aqui, no Brasil de Rubens Paiva

Lute pra vencer, aceite se perder
Se o ideal valer, nunca desista
Não é digno fugir, nem tão pouco permitir
Leiloarem isso aqui a prazo, à vista

Tem filho de pobre virando doutor
Comida na mesa do trabalhador
A fome tem pressa, Betinho dizia
Teu legado é espelho das minhas lições
Sem temer tarifas e sanções
Assim que se firma a soberania
Sem mitos falsos, sem anistia

Quanto custa a fome? Quanto importa a vida?
Nosso sobrenome é Brasil da Silva
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo

Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá, Lula! Lula!

Assista ao clipe oficial do samba-enredo da Acadêmicos de Niterói para o carnaval de 2026:

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Carlos

    16 de fevereiro de 2026 2:42 pm

    Pura apelação … Jabá descarado. Não tem desculpa misturar propaganda política com carnaval.

Recomendados para você

Recomendados