4 de junho de 2026

Os números do Ibope

A pesquisa divulgada na última semana pelo Ibope, relativa à intenção de voto para prefeito de São Paulo não traz grandes novidades em relação ao recente levantamento que o Instituto Datafolha fez sobre o mesmo tema. José Serra (PSDB) lidera as intenções de voto estimuladas, com 31%, seguido por Celso Russomano (PRB), com 16%, Netinho de Paula (PCdoB), com 8%, Soninha Francine (PPS), com 7%, Gabriel Chalita (PMDB), com 6%, Paulinho da Força (PDT), com 5%, Fernando Haddad (PT), com 3%, Carlos Gianazzi (PSOL), com 1% e Luiz Flavio Borges D’Urso (PTB), com 1%.

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O dado mais importante da pesquisa, no entanto, não diz respeito à intenção de voto dos pesquisados, mas sim à enorme quantidade de pessoas que, ao serem perguntadas, para que manifestassem espontaneamente, em quem pretendem votar, não souberam o que responder. De acordo com o Ibope, 60% dos paulistanos ainda não sabem em quem votar ou preferiram não declarar o voto. Ou seja, o paulistano, em sua maioria, ainda não está preocupado com a eleição. É natural que seja assim: ainda faltam seis meses para o pleito, as coligações não foram formalizadas e alguns nomes que circulam hoje podem acabar nem sendo candidatos.

Pesquisas eleitorais neste momento, portanto, acabam sendo mais medições de popularidade do que propriamente de intenções de voto. Nem todo mundo sabe que José Serra, por exemplo, é candidato, mas é enorme a proporção do eleitorado que sabe quem ele é. Daí que é natural que apareça como líder das pesquisas neste momento, e que também apresente um alto índice de rejeição. O raciocínio também serve para os casos de Netinho de Paula e Celso Russomano, personagens televisivas. Já Gabriel Chalita e Fernando Haddad, candidatos de dois partidos grandes e com forte presença no cenário nacional, aparecem com baixos índices de intenção de voto porque provavelmente boa parte dos eleitores nem saiba que seus nomes estarão na urna eletrônica em outubro. Desta forma, ao que tudo indica, terão espaço para crescer nas intenções de voto na medida em que o eleitor tome conhecimento de que estão na disputa (caso de Chalita) ou mesmo quem sejam (no caso de Haddad, que ainda é bastante desconhecido do grande público).

Pesquisas eleitorais feitas a meio ano da eleição servem, também, para balizar, um pouco pelo menos, as articulações para as composições de chapas. Como se sabe, no sistema eleitoral brasileiro as coligações são fundamentais, para todos os partidos. Para os maiores e mais competitivos é importante atrair agremiações menores, não só pela soma de esforços e pela simbologia do apoio político em si como também para a conquista de alguns minutos ou mesmo segundos a mais no tempo de televisão do horário eleitoral. Para os partidos menores, que sabem serem muito remotas as chances de elegerem um prefeito, as coligações são importantes para garantirem desde já a chance de eleger uma bancada razoável de vereadores ou para poderem vender mais caro apoio a este ou àquele lado no 2o. turno. E eleger alguns vereadores é garantir não somente a governabilidade do futuro prefeito junto ao legislativo municipal, como assegurar a sobrevida política de cada um dos eleitos e de suas legendas, através da conquista de nacos na futura gestão ou na aprovação de emendas e recursos que destinarão a suas clientelas eleitorais.

Por ora, as pesquisas ainda podem dizer pouco sobre os humores do eleitorado. Muita articulação ainda vai ocorrer e o processo terá contornos mais fortes a partir de agosto, quando começa o horário eleitoral e a maioria das pessoas terá a oportunidade de conhecer e avaliar melhor os candidatos e suas propostas. Dos três favoritos, não se espera que tenham vida fácil. Serra terá de lidar com o fato de ser um nome desgastado, inclusive dentro de sua própria legenda, que traz um índice de rejeição (35%) próximo do teto que inviabiliza qualquer possibilidade de vitória e com o apoio de um prefeito (Kassab) que é mal-avaliado pela população e de uma legenda (DEM) que não tem frequentado os noticiários por motivos exatamente positivos. Chalita, por sua vez, terá de vencer a tradicional polarização existente em São Paulo entre PSDB e PT, jogar com uma eventual fadiga do paulistano em relação a essa eterna disputa e, além disso, provar que pode ser vitorioso mesmo por um partido que jamais elegeu diretamente um prefeito nesta cidade. Já Haddad terá de fazer-se conhecido da maioria da população, algo que ainda parece longe de ser realidade, e ainda lidar com um persistente índice de rejeição que o seu partido enfrenta desde sempre na maior metrópole do país.

Por outro lado, Serra poderá não apenas desfilar sua experiência de gestor público durante a campanha como contar com o apoio de Alckmin, um governador bem-avaliado e muito afeito ao molde de político que agrada ao eleitorado paulistano. Chalita poderá apresentar-se como o novo, de perfil moderado e capaz de dialogar com as mais diversas forças políticas. Ressalte-se que o grande desafio do peemedebista é qualificar-se para o segundo turno, porque uma vez nele, contra Serra ou contra Haddad, muito provavelmente poderá contar com a maioria dos votos daquele oponente que ficar de fora da rodada final, o que potencializa bastante suas chances de vitória. Neste caso a polarização PT/PSDB, prejudicial a Chalita agora, passaria a contar a seu favor. Haddad, por sua vez, poderá durante a campanha falar mais ao eleitor sobre suas realizações a frente do Ministério da Educação (que foi um dos mais longevos Ministros da Educação de nossa História Republicana), bem como terá em seu palanque um trunfo estratégico, o presidente Lula.

Os dados estão sendo jogados e o cenário está em aberto. Os números do Ibope, embora importantes, mostram um cenário ainda prematuro e somente as novas rodadas de pesquisa poderão descortinar tendências mais consolidadas.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia pela FFLCH-USP e professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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