5 de junho de 2026

Paris inaugura primeiro cemitério ecológico no meio da cidade

A demanda por produtos, serviços e processos cada vez mais sustentáveis não é novidade. A batalha pela diminuição dos impactos ambientais causados pelas atividades humanas mobilizam pesquisadores e cientistas de todo o mundo para buscar soluções urgentes e palpáveis na preservação do planeta.

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Até mesmo os ritos funerários poderão se tornar ecologicamente corretos, a despeito de tabus e tradições religiosas. Ao menos é o que começou a acontecer em Paris, desde 29 de agosto último, quando a vice-prefeita Pénélope Komitès inaugurou o primeiro espaço ecológico no cemitério Ivry, localizado próximo ao 13º distrito da Cidade Luz.

Por demanda dos próprios cidadãos, a prefeitura local estudou a viabilidade e implantou uma necrópole para sepultamentos considerados sustentáveis, já que o procedimento tradicional e outras técnicas como a cremação são práticas poluentes. A cidade de Paris queria criar um local de lembrança e enterro respeitoso com o meio ambiente para atender o crescente desejo dos munícipes em termos de funerais ecológicos.

De acordo com o estudo encomendado pela Funeral Services Foundation de Paris, um enterro convencional gera 833 quilos de CO2, considerando as estruturas do caixão e manutenção do cemitério. Isso representa cerca de 11% das emissões anuais de CO2 de um cidadão francês.

Como funciona o cemitério ecológico parisiense?

Só poderão ser enterrados os corpos sem nenhum tratamento químico com formol ou outras substâncias químicas usadas por funerárias para conservação temporária. Esse produtos são potencialmente poluentes ao solo, podendo chegar aos lençóis freáticos, além de algumas delas serem comprovadamente cancerígenas.

Os sepultamentos são feitos diretamente na terra e sem a presença de escavadeiras mecânicas ou outros equipamentos com motores a diesel. O enterro é muito semelhante à maioria dos rituais brasileiros em que os coveiros usam as pás e enxadas.

Além disso, os caixões devem ser fabricados em materiais biodegradáveis, sem adornos, almofadas sintéticas ou qualquer tipo de tintas e verniz. A roupa do falecido também deve ser composta por fibras naturais e de fácil decomposição no meio ambiente. Por fim, as placas de identificação das sepulturas são feitas em madeira.

Mudanças culturais na hora da morte

Uma das principais mudanças no conceito de cemitério ecológico é a ausência de mausoléus e jazigos subterrâneos revestidos com cimento e pedras. Essa é uma verdadeira transformação para uma cidade como Paris, que tem uma grande e renomada tradição de arquitetura tumular (o que transformou seus cemitérios em verdadeiros museus a céu aberto).

Uma das mais badaladas e movimentadas atrações turísticas locais é justamente o Cemitério Père-Lachaise. Em seus 45 hectares estão diversos túmulos e mausoléus assinados por artistas renomados.

Estima-se que aproximadamente 3,5 milhões de turistas visitem o local e passeiem entre flores e coroas para velório suntuosas que decoram esculturas e construções impressionantemente belas e refinadas. Neste cemitério repousam celebridades, monarcas, cientistas, poetas e escritores como Oscar Wilde, Allan Kardec, Edith PIaf, Jim Morrison, entre outros, o que acabou transformando a necrópole em um verdadeiro passeio turístico.

A mudança de paradigma na concepção artística e estrutural dos cemitérios não é novidade na França. O primeiro modelo sustentável do país é uma floresta da saudade, na região dos Pirineus, mais precisamente na cidade de Arbas. Ali, os familiares e amigos dos falecidos podem depositar suas cinzas sob o pé de uma árvore dentro de uma urna biodegradável.

Ao que tudo indica, a humanidade começa a repensar a morte biológica e seu papel no ciclo do planeta, reinserindo a fertilidade do corpo humano após à morte de volta ao meio ambiente. Porém o assunto ainda pode ser um grande tabu, contrariando a maioria das tradições religiosas que mantêm o aspecto sagrado e intocável dos corpos.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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