Da Globo News – 27/04/2012
Paulo Lins supera ‘doença da meia noite’ e lança novo livro: “Desde que o samba é samba”

Leia aqui trecho do romance
Edney Silvestre: O poeta Edgar Alan Poe descreveu o mal que aflige os escritores diante da página em branco como a ‘doença da meia noite’. Paulo Lins foi acometido por ela. Depois do sucesso estrondoso e repentino do romance “Cidade de Deus”, publicado em 1997, o escritor passou quinze anos sem publicar até que finalmente nasceu “Desde que o samba é samba”. O mais curioso é que a primeira página da história foi escrita há vinte anos.
O fundo da história era o Rio de Janeiro de 1928 e 29, a criação da primeira escola de samba e a cultura popular chegando a um número maior de pessoas. Era esse mesmo o tema?
Paulo Lins: O tema era esse por que eu morei no Estácio.
Edney Silvestre: morou?
Paulo Lins: Morei e quando eu era pequeno, eu passava num bar, tinha um botequim que eu, não podia, a mãe falava assim, não pára ali, não recebe bala de ninguém, não fala com ninguém que ali só tem bandido. Depois eu vim saber, pesquisando, que os bandidos eram Nelson Cavaquinho, Cartola [risos] que tocavam, ficavam muitas prostitutas, ali era um reduto de malandros, como foi, como sempre foi. Aí eu me encantei por isso e pensei escrever esse livro antes do “Cidade de Deus”. Antes de lançar o “Cidade de Deus” eu pensei em escrever um romance sobre o samba, sobre o nascimento do samba porque fiquei encantado com essa história.
Ismael_Silva
Mário de Andrade
Edney Silvestre: mal saiu “Desde que o samba é samba” e já tem uma polêmica, por que você revelou que Ismael Silva era homossexual, assim como Mário de Andrade que todo mundo sabia?
Paulo Lins: é, eu não revelei, era uma coisa que todo mundo sabe, mas não fala. E … agora assim, por que você revelou? e por que não revelar? Por que não revelar, por que não falar nisso? Por que que não se pode falar nisso? Por que o Brasil é homofóbico?
Edney Silvestre: porque samba é coisa de macho?
Paulo Lins: é, não é? O silêncio também é uma coisa … é um preconceito. Por que que eu não vou falar sobre isso, se o livro se passa na zona de prostituição, se se passa na Lapa, se se passa na noite, se se passa num lugar de procura, de afirmação, um lugar cultura, um lugar de música, um lugar de prazer. E o livro, o samba, ele foi … ele foi criado contra o preconceito.
Edney Silvestre: o encontro de Mário de Andrade e Ismael Silva aconteceu mesmo?
Paulo Lins: aconteceu. E os dois se encontraram numa época de mudança. Enquanto a Europa, enquanto o Modernismo tava fugindo, fugindo não, tava tentando descobrir a Europa, redescobrir a Europa, o pessoal do Estácio tava tentando redescobrindo a África, a Bahia, o candomblé.
Edney Silvestre: Brancura que é o personagem que mais ou menos conduz a história, mesmo quando ele desaparece, mas acaba voltando. E é através dele a gente conhece o Estácio, o Rio daquele tempo, o samba, a prostituição, a sacanagem. Brancura existiu?
Paulo Lins: Ele existiu. Ele é o contexto. Ele é a figura histórica. Ele dá o sentido histórico. Ele, ele vive o cotidiano. Então através desse personagem, eu consigo mostrar como o Estácio era. E era compositor. Tinha aquela coisa de roubar samba e tal, da malandragem mas o pessoal, todo mundo, todos os compositores da época, Bide, Marçal, o pessoal, o Mano Rubio, todo mundo, todo mundo reconhece o Brancura como compositor. As casas, as impressoras de partitura, as casas de gravações, todo mundo ganhava dinheiro, só o compositor que não ganhava, ganhava uma mixaria e pronto, acabou. Nem o nome ia pro disco. Isso é terrível. Isso é terrível. Tem muitos livros que falam sobre isso, mas só que são livros de pesquisa, livro que quem só lê é interessado, é estudioso daquilo. Nenhum livro … por isso que eu fiz um, um romance.
Aqui a entrevista completa com Paulo Lins
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Da Folha – 29/04/2012
CRÍTICA ROMANCE
Apesar do título, livro de Paulo Lins tem mais intriga que samba
SÉRGIO CABRAL
ESPECIAL PARA A FOLHA
Em “Desde que o Samba É Samba”, Paulo Lins idealizou um romance com a reunião dos principais segmentos do underground carioca das três primeiras décadas do século 20: o recém-nascido samba de Carnaval (com alguns dos seus principais personagens), a umbanda, a malandragem e a prostituição.
Com esses ingredientes, o cenário da história não poderia deixar de ser o bairro do Estácio de Sá, abrigo da zona do meretrício do Mangue e local de nascimento do samba carnavalesco, além de vizinho do morro de São Carlos.
O autor escolheu o compositor e grande malandro Brancura (Sílvio Fernandes) como o principal personagem das inúmeras histórias que percorrem o livro e que, somadas, se perdem na ausência de uma razoável estrutura orgânica de romance.
Na falta dessa estrutura, Paulo Lins procurou compensar o leitor com muito sexo -é uma relação sexual atrás da outra- e com afirmações polêmicas, como a de que personagens importantes da música popular e da literatura, que nunca aparecem com os seus nomes inteiros, apenas com o nome ou o sobrenome, eram homossexuais.
Ismael Silva é, de fato, autor de todos os sambas citados no livro, mas é sempre chamado apenas de Silva.
Mário, por sua vez, é um intelectual amigo de Manuel (Bandeira), Lúcio Rangel, Drummond, Aníbal Machado e outros, mas nunca é chamado de Mário de Andrade. E Paulo Lins criou um diálogo entre os dois:
“Silva, eu quero ir na Praça Mauá dar um passeio, olhar aquele mundo de perto, participar…”
“Você gosta de homem também, né, querido? [Francisco] Alves me falou que você é homossexual.”
“Não, sou veado mesmo!”
A virtude principal do livro está nas páginas dedicadas à umbanda, uma versão carioca do candomblé, surgida no início do século passado.
Segundo o autor, essa religião surgiu em novembro de 1908, num centro espírita instalado na rua Floriano Peixoto, 30, Neves, São Gonçalo, espalhando-se imediatamente pelos bairros do então Distrito Federal, onde a população passou a conhecer entidades espirituais bem diferentes daquelas que povoam o candomblé.
Louve-se também o esforço do autor em tentar reproduzir o Rio de Janeiro daquela época, apesar de alguns escorregões, como o de fazer o trem parar no Maracanã, uma estação instalada apenas depois da construção do estádio, em 1950.
Apesar do título, a obra de Paulo Lins nada acrescenta à história do samba, até porque os personagens, de um modo geral, apesar de identificados pelos nomes e pelos sambas que compuseram, percorrem as páginas adotando um comportamento que nada tinha a ver com a realidade.
No livro, Ismael Silva, além de homossexual, era cachaceiro e capaz de enfrentar a polícia numa briga (“Silva deu um rabo de arraia numa das autoridades que não gostavam de samba”, escreveu), um retrato facilmente recusado por quem conheceu o grande compositor.
SÉRGIO CABRAL, jornalista e escritor, é autor de “Escolas de Samba do Rio de Janeiro” (Ibep/Nacional) e “Grande Otelo – Uma Biografia” (34), entre outros
Desde que o samba é samba
AUTOR Paulo Lins
EDITORA Planeta
QUANTO R$ 39,90 (336 págs.)
AVALIAÇÃO regular
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