13 de junho de 2026

Polêmica: A Quem Serve O Coletivo Fora do Eixo

Fora do eixo

 

 

O LADO DE FORA

 

 

Ex-integrantes da entidade controladora do Midia Ninja falam com exclusividade para CartaCapital e condenam práticas da organização.

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Na esteira dos protestos de junho, a Mídia Ninja emergiu como uma novidade instigante, um novo modelo de jornalismo. A concepção é simples e barata: por meio de celulares, os repórteres ninjas transmitem pela internet as imagens dos acontecimentos. Não há texto nem edição, apenas os vídeos em estado bruto em transmissões que facilmente duram seis horas. Na página do grupo no Facebook, há ainda fotos dos atos.

O sucesso repentino tornou-se, porém, uma fonte de dor-de-cabeça. Tudo começou com a presença de dois de seus expoentes no Roda Viva, programa de entrevistas da TV Cultura, em 5 de agosto. O jornalista paulistano Bruno Torturra, até então, era a única face do Mídia Ninja, acrônimo de “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”. A novidade foi a presença de Pablo Capilé, criador do coletivo Fora do Eixo, guru de uma nova forma de ativismo. Ficou clara a ligação umbilical dos dois (Ninja e Fora do Eixo), antes praticamente desconhecida.

Por que essa relação virou alvo de tantas críticas? Em pequenos círculos, não é de hoje, corriam acusações contra o movimento. A exposição de Capilé amplificou as acusações nas redes sociais, espaço de excelência do grupo. Nos últimos dias, CartaCapital ouviu oito ex-integrantes e debruçou-se sobre a estrutura organizacional do coletivo. Metade deixou-se identificar. Os demais preferiram não ter seus nomes citados, por medo de represálias, mas confirmam as informações dos ex-colegas. Emergem da apuração um aglomerado controverso, acusações de estelionato, dominação psicológica e ameaças.

Nas casas, os integrantes dividem quartos, dinheiro, comida e roupas. E estão submetidos ao “processo” do Fora do Eixo. “Primeiro te isolam. Proíbem de sair na rua ´sem motivo´, impedem de encontrar amigos ou estabelecer qualquer contato com pessoas de fora. Depois, vem a apropriação de toda a sua produção. O cara sai sem grana, sem portfólio e distante dos amigos antigos. Sem apoio psicológico ou da família vai demorar a se restabelecer social e profissionalmente”, diz o fotógrafo Rafael  Rolim, 29 anos, 3 deles na organização, em contato direto com Capilé. Rolim e os demais integrantes ouvidos pela revista endossam o depoimento da ex-integrante Laís Bellini, postado nas redes sociais.

Seigner foi a primeira a criticar o coletivo. Em texto postado no Facebook dois dias após o Roda Viva, diz, entre outros pontos, que o Fora do Eixo rompeu acordos e não lhe pagou por exibições de seu filme. Escreveu ainda sobre o volume de trabalho dos integrantes, que não teriam direito à vida pessoal ou diversão. Se disse ainda impressionada com a devoção à figura de Capilé. E comentou a repercussão: “Chegaram centenas de mensagens de coletivos e artistas do Brasil todo agradecendo o desmonte da rede. Estou aliviada.”

No dia seguinte foi a vez de Laís Bellini. Primeira ex-integrante a se manifestar, seu longo relato é considerado por outros ex-membros o mais completo e fiel retrato do dia-a-dia do coletivo. Laís descreve uma estrutura radicalmente rígida e verticalizada, baseada em forte dominação psicológica. Para exemplificar, revela que foi afastada de um amigo antigo que vivia sob o mesmo teto – “Disseram: ´Laís, o Gabriel era seu amigo lá em Bauru. Aqui vocês não têm que ficar de conversa. Aqui dentro vocês não são amigos”; Laís revelou ainda o “choque-pesadelo”, prática que consiste em por uma pessoa na sala e “quebrá-la” moralmente, aos berros; a moça narrou ainda que a cúpula controla horários e saídas à rua e que o trabalho é extenuante e sem folga nem aos domingos. São vigiados até bate-papos no Facebook ou Gtalk. Laís está em meio a uma longa viagem pela América Latina, sem data pra voltar. A distância, diz, lhe deu coragem para falar. “Quando postei, tirei toneladas do ombro e comecei a chorar. Tomei coragem para dizer o que muitos têm medo mas que todos sabem que é verdade”.

Um dos pontos levantados pelos entrevistados é o uso dos integrantes como uma espécie de isca sexual, o chamado Catar e Cooptar. “Há reuniões na cúpula para definir quem vai dar em cima de você e te fisgar pra dentro da rede”, afirma Laís. O designer Alejandro Vargas, que morou por 3 anos na Casa Fortaleza, dá mais detalhes: “Numa viagem rolou um papo que ´deveria ficar ali´, sobre ´fazer a entrega para a rede´. Diziam: ´tem o cara ou menina mais feios, mas que trampam muito´ e tem aqueles com “mais chances de ter relações”. Tem que fazer a entrega para alimentar o estímulo de quem é menos provido de beleza, inclusive de fora da rede, para trazer para dentro”.

Rolim acrescenta: “Catar e Cooptar’ é o termo usado pelo Pablo, com todas as letras e constantemente. Eu mesmo fui proibido por ele de me aproximar de uma pessoa com quem tinha afinidade porque, ‘para o processo’, eu deveria estar solteiro, eu era uma boa ‘isca’. Relações espontâneas entre dois integrantes, por amor, também não são bem vistas. Casais assim são pressionados a desmanchar, e é proibido ter relações com pessoas de fora da rede, a não ser por ordem superior. Capilé nega a prática. “As relações afetivas não são determinadas por regras do movimento, mas construídas por cada indivíduo, a partir dos desejos de cada um.”

O Fora do Eixo nasceu em 2005, e seu nome faz menção ao fato de a iniciativa ter começado em centros distantes de São Paulo e do Rio. Capile é de Cuiabá. Do Mato Grosso, o coletivo expandiu-se para Uberlândia (MG) e Rio Branco (AC), e dali para outras cidades. A relação com os artistas funciona assim: uma banda iniciante entra na programação de eventos culturais do grupo e faz shows em algumas cidades. Não paga passagem, hospedagem e alimentação (fica nas casas Fora do Eixo). Em contrapartida, não recebe cachê. O dinheiro arrecadado com suas apresentações financia o movimento.

Capilé e seus apoiadores calculam 2000 integrantes, mas o Fora do Eixo se resume a sete casas (São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Belém e Porto Velho), onde vivem em média 10 ativistas, ou seja, cerca de 70 no total. Há ainda algumas casas de coletivos parceiros, como em Bauru e São Carlos. Quando se soma os agregados, na estimativa mais otimista, a organização tem hoje 200 participantes.

Oficialmente, o financiamento é baseado em shows e editais do governo ou de empresas estatais e privadas. Existe, no entanto, uma terceira fonte significativa: a apropriação de dinheiro e bens particulares de colaboradores. “Solicitaram um cartão de crédito que eu tinha em conjunto com meus pais para comprar passagens. Como a confiança era total, fui induzido a compartilhar a senha. Em um mês e meio gastaram 21 mil reais no meu cartão. Compraram um Macbook Pro novo para o Capilé, o que só soube quando a fatura chegou”, lamenta Rolim.

Vargas acrescenta: “É prática cotidiana a utilização dos cartões de quem mora nas casas. E como não tínhamos salário, logo a dívida do cartão entrou no SPC e na Serasa, e até hoje tenho o nome sujo”. Laís, por sua vez, saiu com uma dívida de 5 mil reais. O FdE nega a prática de apropriação, mas reconhece o uso de dinheiro e automóveis dos integrantes. “A destinação de seus bens para o uso do processo é um ato livre. Se você tem um carro e vem para uma casa, é natural que este carro seja usado. Se você tem um cartão de credito e quer disponibilizá-lo para ações da rede, a mesma coisa”. Na última segunda-feira dia 12 o coletivo lançou um “portal de transparência”, mas não menciona o uso sistemático do dinheiro e bens dos integrantes.

O livro de cabeceira de Capilé é uma pista para entender como ele comanda o grupo. “48 Leis do Poder”, lançado em 2000 no Brasil pela editora Rocco, é direcionado a empresários e traz dicas como “faça com que as pessoas venham até você: use uma isca, se necessário” e “faça com que os outros trabalhem para você, mas leve sempre o crédito”. Outra pista, esta fornecida por Laís, é a proibição de se assistir nas casas o vídeo “Controle Mental – Como se Tornar um Líder de Culto.”

Capilé criou um reino particular a partir de “simulacros” do mundo real. A contabilidade virou “Banco FdE”. Eventos com debates formam uma “Universidade FdE”. Viagens viram “colunas”. O lobby político é o “Partido da Cultura”. E a comunicação tornou-se “Mídia Ninja”.

Aos 34 anos, Capilé dedica-se intensamente ao movimento. Dorme pouco, alimenta-se mal e fuma muito. Viaja tanto que, não raro, cumpre agenda em três cidades em um mesmo dia. Está sempre desconfiado e conectado, e com baterias reservas. E é dono de uma retórica eloquente e messiânica.

Há um claro projeto político, e o coletivo não deixa de exercer sua influência. O Fora do Eixo teve peso na indicação, entre outros, do secretário municipal de cultura de São Paulo, Juca Ferreira, do subsecretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul, Jéferson Assumção, do secretário estadual de educação do Acre, Daniel Zen, e de três dos secretários municipais de Porto Velho.

A organização não discrimina espectro ideológico. Sua ampliação em Cuiabá se deu sob as asas do PSDB, quando ganhou verbas públicas na gestão de Wilson Santos na prefeitura. Nas eleições do ano passado, apoiaram o petista Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo e Mauro Zariff, atual prefeito de Porto Velho, do PSB. O senador mais próximo do grupo é Randolfe Rodrigues, do Psol. A respeito, o FdE disse não acreditar em política de governo, mas “em políticas de estado.”

A nova aposta é a Rede de Marina Silva. O coletivo esteve no lançamento da legenda em Brasília, e Torturra afirmou no Roda Viva ser marinista. Caso o partido consiga registro no Tribunal Superior Eleitoral, o plano de Capilé é lançar Torturra candidato a deputado federal pela Rede em 2014. “Ele é o nosso homem com rejeição zero”, afirmou o cuiabano em mais de uma ocasião.

A relação do Fora do Eixo com parte da esquerda e dos movimentos sociais tem sido atribulada, desde antes da criação da Mídia Ninja. Alguns grupos fazem duras críticas aos ativistas por despolitizar manifestações, ao trocar causas concretas por slogans genéricos. Entre os grupos que tiveram embates com o Fora do Eixo estão Mães de Maio, o Movimento Passe Livre, o Desentorpecendo a Razão, os moradores da Favela do Moinho e o Cordão da Mentira.

Capilé costuma negar que o coletivo e a Midia Ninja sejam a mesma coisa, mas quem esteve nas casas reafirma os laços entre os dois. “O projeto nasce e vive no Fora do Eixo, segue a mesma estrutura, tem as mesmas hierarquias e cargos. Mas tem outro nome, para evitar a rejeição que o FdE provoca. Mas quem dá o ok são as mesmas pessoas que dão ok em tudo no Fora do Eixo, e quem vai para rua cobrir são moradores das casas ou colaboradores do FdE”, esclarece Gabriel Zambon, coordenador do Ninja em Belo Horizonte até maio último.

Mesmo antes da recente leva de críticas, estava em curso um esforço para desvincular os dois. Capilé segue, contudo, confiante no poder de sedução de sua retórica e do mundo que criou. E vive a repetir: “para cada um que sai do Fora do Eixo tem 10 querendo entrar”.

 

Outro lado

 

O LADO DE DENTRO

 

Fora do Eixo: “Ninguém precisa ter medo de nada”

  

 

 

A CartaCapital, Pablo Capilé responde as declarações de ex-integrantes do coletivo Fora do Eixo. Bruno Torturra, da comunicação do grupo (Mídia Ninja), se recusou a responder

 

 

Na apuração para reportagem publicada na edição 762 deCartaCapital, que chegou às bancas nesta sexta-feira 16, a reportagem verificou que diversos ex-integrantes do coletivo Fora do Eixo tinham medo de se manifestar contra o grupo. Diante disso, em resposta a perguntas de CartaCapital, Pablo Capilé disse que “ninguém precisa ter medo de nada”. CartaCapital procurou o líder do coletivo para que ele se pronunciasse sobre as acusações de ex-integrantes das casas Fora do Eixo. Por e-mail, Capilé respondeu sobre aapropriação de bens dos integrantes e as críticas de movimentos sociais. Em seu e-mail, apesar de usar a primeira pessoa durante o texto (“mim”), diz que “essa entrevista foi respondida coletivamente, por vários integrantes do Fora do Eixo.” 

A reportagem da CartaCapital também procurou Bruno Torturra, líder da Mídia Ninja, como é chamado o braço de comunicação do Fora do Eixo. Ao contrário de Capilé, que trata as duas coisas como uma só, o jornalista preferiu fazer a diferenciação e se recusou a responder todas as perguntas, inclusive as feitas sobre a Mídia Ninja. “Não sou do Fora do Eixo. Meu trabalho é com a Mídia Ninja, que foi gestada dentro do FdE e que hoje é composta de muita gente e muitos grupos autônomos. Não confunda as coisas.”

 

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

CartaCapital: Dos oito ex-integrantes do Fora do Eixo que a CartaCapital ouviu, quatro aceitaram ser identificados. Os demais se sentiram intimidados e têm medo de retaliações por parte de membros do Fora do Eixo. A que vocês atribuem o medo que essas pessoas sentem? O que vocês diriam para esses e outros ex-integrantes?

 

Fora do Eixo: Diríamos que ninguém precisa ter medo de nada, e que muito nos espanta este tipo de declaração. Inclusive, chega a ser estranho esta reação sendo que todas as pessoas que passaram pela rede sempre puderam colocar estas angústias quando estavam dentro dela. A rede não pratica intimidação, até mesmo porque, o que poderíamos fazer? São 10 anos de trabalho sem nenhum histórico de violência ou perseguição para que as pessoas não se identifiquem. Isso é muito sensacionalismo. O que as pessoas não colocam em perspectiva é que estas pessoas que hoje estão fora viram no FDE uma possibilidade de realizar as atividades que desejam e se posicionar profissionalmente. Não dar a cara é justamente mais do que evidenciar uma possível perseguição ao FDE, é ter que revelar também o que elas ganharam com esta convivência. Elas participaram de um processo consentindo com a forma como ele se organiza, utilizaram-se das relações que estabeleceram ali dentro, e de repente têm medo de retaliação. Estranho. Uma prova de que esse questionamento é improcedente é que a maioria das pessoas que saem do FDE vão trabalhar com outros parceiros da rede, ou grupos que mantêm diálogo conosco, como o próprio caso da Laís [Bellini], que saiu da Casa SP, e foi trabalhar com o [portal de notícias] Outras Palavras, que ela conheceu justamente como membro do FdE. E posso te dar diversos exemplos como esse. Para mim, levantar estas questões de forma difamatória, sem citar as pessoas e os casos de perseguição não é a melhor forma de se abordar a questão. Que retaliação ou perseguição poderíamos fazer? Emitir nossa opinião sobre o que achamos destas pessoas se perguntados? Isso está todo mundo fazendo, sem nem conhecer o FdE, e não vimos pergunta alguma questionando se o FDE estaria se sentindo perseguido. Por quê?

 

CartaCapital: Além da bilheteria e dos editais, há diversas pessoas que tiveram os bens apropriados pelo Fora do Eixo. Segundo ex-integrantes, o uso do cartão de crédito e a apropriação de bens como computadores ou automóveis são práticas usuais. Isso é uma prática sistemática da organização e apoiada por vocês?

 

FdE: Não, isso não é uma prática nossa. Muito nos impressiona que todas as perguntas e questionamentos que têm chegado não exploram a nossa forma de se organizar, mas buscam enquadrá-la e criminalizá-la como se fosse um modelo convencional de empresa. Primeiro,  como é um processo coletivo, esta pessoa que chega já tem acesso a uma série de coisas que já existem. A destinação de seus bens para o uso do processo é um ato livre. Se você tem um carro e vem para uma casa, é natural que este carro seja usado, até porque já tem muita gente emprestando coisas para que o processo exista e se realize. Se você tem um cartão de crédito e quer disponibiliza-lo pra ações da rede, a mesma coisa. Não tem uma prática de apropriação, tem um processo que gera consensos e consentimentos livres e esclarecidos. Da mesma forma que muita gente chega sem ter nada e, a partir da construção coletiva e colaborativa, bens materiais são disponibilizados para esta pessoa desempenhar suas atividades. É importante ficar claro, o Fora do Eixo trabalha com a perspectiva de propriedade coletiva e compartilhada, com definições claras para o acesso pessoal. A chave para entender isso não está numa leitura maniqueísta ou na abordagem que tenta ver o Fora do Eixo como uma empresa capitalista. É muito desonesto, principalmente para pessoas que participaram deste processo e fizeram suas escolhas, partirem pra uma criminalização depois que se desapontam com uma experiência. Não existe sequestro compulsório de bens e é um absurdo a CartaCapital afirmar em uma pergunta que “há diversas pessoas que tiveram os bens apropriados pelo Fora do Eixo”. Não existe apropriação nenhuma desses itens. Obviamente, as pessoas que saem do FdE levam o que é de sua propriedade: sejam cartões, computadores ou automóveis. Se nos apropriássemos estaríamos com estes itens até hoje.

CC: O FdE começou a receber dinheiro público durante a gestão do tucano Wilson Santos em Cuiabá. O que mudou para o coletivo hoje em dia descartar o apoio do PSDB?

 

FdE: As politicas públicas não são partidárias. Não acreditamos em política de governo, acreditamos em políticas de Estado. A pergunta está muito mal feita e descontextualizada. O Estado não é o PT e muito menos o PSDB! Alguns partidos estão abertos ao diálogo e outros não, mas as políticas publicas independem deles.

CC: CartaCapital colheu diversos relatos do uso sexual de mulheres para atrair novos integrantes ou parceiros para o FdE. E, em menor número, de homens. Seria proibido pela direção não apenas namorar pessoas de fora da casa, mas também namorar alguém “de dentro” de forma espontânea, já que seriam relações que “não trazem ativos” para a rede –sempre de acordo com relatos de ex-integrantes. A cúpula do FdE decide quem deve namorar quem, como parte de uma estratégia de crescimento interno? A prática, que teria até nome (“catar e cooptar”) faz parte da estratégia da rede?

FdE: Estas acusações são gravíssimas e quem as coloca tem que estar preparado para provar. Temos plena convicção que isso, além de ser uma grande mentira, é um ato gravíssimo de calúnia e difamação, e muito nos espanta uma revista como aCartaCapital, que inclusive tem jornalistas que já estiveram muito próximos à rede, trazer a tona uma calúnia, sem provas. As relações afetivas não são determinadas por regras do movimento, mas construídas por cada indivíduo, a partir dos desejos de cada um. Sem o nome de “várias” não é jornalismo. É baixaria. E as garotas que vivem nas casas Fora do Eixo estão sendo absolutamente desrespeitadas com este tipo de especulação. Isso sim que é de um machismo intolerável.

CC: MPL, DAR, MH2O, Mães de Maio, moradores da Favela do Moinho, o Cordão da Mentira e outros movimentos sociais já fizeram críticas ao FdE. Recentemente, um integrante da Mídia Ninja foi expulso da favela do Moinho e outros já haviam sido hostilizados em protestos. Ao que vocês atribuem a hostilidade de diversos movimentos sociais ao FdE e suas iniciativas, como a Mídia Ninja?

 

FdE: Ao mesmo tempo somos parceiros e temos recebido diversas moções de apoio e solidariedade de vários outros movimentos como o MST, a CUFA, o Afroreggae, a Agencia de Redes pra Juventude, o Movimento Nacional dos Direitos Humanos, o Movimento Ação Griô, o Movimento de Povos de terreiro, a UJS, e vários movimentos ambientais, sociais e culturais. Existe algum ponto de consenso nos movimentos sociais? O que existe, no nosso entendimento, é um espaço enorme de diversidade e de disputa de narrativas e alinhamentos a partir dos valores e interesses dos movimentos. Acho complicado mais uma vez transformar dissenso, que é algo natural das sociedades democráticas, em uma questão moral que distorce a realidade. Primeiro que nunca nenhum integrante do Mídia Ninja foi expulso de lugar nenhum, muito menos da Favela do Moinho. Esses mesmos movimentos citados criticam vários outros movimentos, e criticas fazem parte do processo de debate em uma sociedade democrática. Não conhecemos nenhum movimento que seja um consenso absoluto dentro das lutas sociais que são realizadas no Brasil e no Mundo, e isso deveria ser visto como algo natural, sem alarme e tanto alarde.

CC: Ao que vocês acham que se deve a proliferação de depoimentos contra o FdE na última semana?

 

FdE: Vivemos num momento de grandes mudanças. As jornadas de junho no Brasil, alinhadas a diversos movimentos que correm o mundo todo hoje, mais as mudanças tecnológicas vividas recentemente nos colocam no olho do furacão, neste processo de mudanças sociais dramáticas, trazidas pelo digital. Somos um laboratório de experiência de rede digital único no Brasil e talvez único em todo o mundo. Trabalhamos fortemente nos últimos 10 anos dentro do circuito cultural e a pelo menos três anos estamos num diálogo constante com diversos setores da sociedade brasileira. Fazemos tudo isso de forma aberta e transparente entendendo que somos Beta, e que estamos em processo permanente de atualização. E pra completar tivemos uma enorme visibilidade nos últimos dias com o sucesso e quantidade de questionamentos que a Mídia Ninja teve e trouxe. Como movimento fortemente enraizado nas redes sociais, também recebemos os ônus e bônus de tudo que acontece ali. Ou seja, natural que um movimento que questiona sistemas de representatividade na rede, receba primeiramente os resultados disso. Pra gente essa é uma oportunidade grande de aprendizado para melhorarmos nossos processos. Não temos problema algum em receber a primeira ação tão ostensiva das redes sociais, como gostaríamos que outras entidades, estados e empresas estivessem recebendo, e realmente esperamos que esta experiência possa servir para que avancemos na construção das novas formas de participação e controle social trazidos pelo digital. Somos o pretexto pra um grande debate que precisa ser travado, e apesar da dor da injustiça, seguimos firmes acreditando que debate vai ganhar a profundidade necessária para que o Brasil encontre seus novos caminhos.

http://www.cartacapital.com.br/autores/lino-bochini

 

 DESCULPE A MINHA CARTA – por BRUNO TORTURRA – DO MIDIA NINJA-FORA DO EIXO


Ando, e avisei que estaria, distante do Facebook. Além de muito trabalho a ser feito, mais do que me é possível, prefiro não me implicar emocionalmente em uma discussão que me parece ainda longe de ser racional, suficientemente informada e produtiva sobre a Mídia NInja.

Mas hoje, com a publicação do texto da Carta Capital, ficou impossível ignorar o assunto. Ou não me implicar emocionalmente. Foi um amigo de longa data que escreveu.

Eu poderia dar uma resposta. Rebater as mentiras e as injustiças que ele escreveu a meu respeito. Entupir um texto de exemplos arbitrários e enviezados de nossa vida pessoal para descredibilizá-lo. Mas prefiro usar a oportunidade para dizer algo que me tranquiliza nesse furação todo.

Descobri que enquanto a agressão é pública, a solidariedade é privada. Melhor assim. E há uma lição poderosa nisso.

Estou passando por uma crise difícil, mas muito didática. Me obrigando a examinar com muito cuidado os princípios, as intenções que me fizeram praticamente largar minha estável carreira privada para arriscar uma vida mais pública e, na medida do possível, mais coletivista.

Nesse processo de recolhimento, reflexão e muita conversa, cada vez mais encontro conforto e propósito na essência da minha formação política. Confesso… as experiências psicodélicas.

Foi com o LSD, a ayahuasca, os cogumelos, a mescalina e sobretudo com o amor dos amigos que seguiram juntos nessa exploração que aprendi certas coisas:

– Não vemos o mundo como ele é, mas como nós somos. Tão clichê quanto real. Nossas ações e ideologias são frutos disso. A atenção e a transformação do mundo pressupõe atenção e transformação internas. Constante.

– É preciso oferecer mais do que se demanda. Dar mais do se pede em troca. Construir mais do que destruir. Essa é a única conta que realmente interessa na esfera pública e no caminho espiritual. Para mim, é a chave da evolução pessoal e coletiva. 

– Não há porque sentir raiva, não há porque dar o troco. Não há prato algum para se comer frio. Essa talvez seja a mais difícil de recordar em momentos como esse. Mas o verdadeiro carma é instantâneo: o agressor já está punido sendo quem ele é. E, por isso, nesse caso, sigo me considerando seu amigo e de sua ótima família.

Dito isso, bola pra frente. As únicas coisas que tento levar para o lado pessoal são o carinho e o apoio de tanta gente que, por trás desse nevoeiro, entende o que está em jogo. Não me deixa sozinho. 

E me fazem entender, cada vez mais, que honestidade, amizade, confiança, generosidade, trabalho e elegância não são apenas mais importantes do que mídia e política. Deveriam também ser a base dela. 

E lamento ter que entrar em detalhes, mas esclarecendo a matéria mentirosa da Carta Capital:

– Não. Não sou porta voz de ninguém. As únicas ordens que sigo são as da minha consciência. Minha autonomia não é negociável.

– Não. Não sou candidato. Nem serei. Mesmo. 

– Não tenho agenda secreta alguma. Não tenho a menor ideia de como funciona as entranhas da política institucional. Não tenho qualquer interesse em fazer parte do jogo partidário. 

– Não. Não sou “Marinista”. Assinei a fundação da Rede porque acredito que será um partido importante e, tomara, trará a pauta ambiental mais forte nas eleições. O que, independente de Marina, é o assunto mais importante de todos. Acordem.

– Lamento que a política nacional seja tão tóxica e apodrecida que uma pessoa que, como eu, não abre mão da felicidade, se sinta repellida pela mera possibilidade de um cargo político.

– O repórter nunca me telefonou, apesar de ser meu amigo, para checar, me escutar, me perguntar sobre as graves acusações que me faz pessoalmente. Isso não é jornalismo.

Alguma dúvida?

Boa sexta.

Carta à Carta

 

A Carta Capital acaba de publicar em sua edição semanal (16/08) matéria com o titulo “Fora do Eixo – Ex integrantes contam como funciona o movimento”

A matéria é co-assinada por Lino Bocchini, ex-parceiro do Fora do Eixo que saiu rompido com a rede. Justamente, por ocasião de sua demissão como Redator Chefe da Revista Trip, quando havia uma possibilidade para um  maior envolvimento e dedicação por parte de Bocchini ao projeto de criação da Mídia Ninja.

Por mais de um ano, Lino havia sido um dos mais assíduos, presentes e cruciais envolvidos na criação e desenvolvimento da PósTV e no laboratório do próprio NINJA. No tempo em que trabalhamos em conjunto demos amplo apoio a Bocchini, no caso Folha X Falha. Foram dezenas de programas ao vivo co-produzidos e realizados pela equipe da Casa Fora Do Eixo, dando visibilidade ao tema.

Ignoramos alertas de dezenas de pessoas que recomendavam distância de Lino. Diziam que iríamos despertar a antipatia da Folha de S. Paulo comprando uma briga que não era nossa. Nunca nos pautamos por isso. Sempre entendemos sua causa como justa e fundamental na luta por real liberdade de expressão. E nos solidarizamos com ele  em um momento onde o jornalista tinha sua reputação colocada em risco

De forma oportunista, o atual gerente de mídias on line de Carta Capital, que apurou e também assina a matéria, está pessoalmente implicado na questão e utiliza o espaço jornalístico valendo-o como lugar de poder para desqualificar o nosso trabalho.

A matéria dá continuidade ao linchamento simbólico e amplia acusações de forma anônima ou não, visando desqualificar lideranças que trabalham no Fora do Eixo com o propósito claro, diante da nulidade jurídica das mesmas, de atingir a reputação da rede e de seus participantes.

A chamada de capa já aponta seu caráter tendencioso. Entendemos que é anti ético apurar, visando traçar o perfil de uma rede com milhares de membros ativos, partindo apenas de depoimentos de pessoas que saíram da rede, com um foco claro em suas insatisfações. O texto colhe exceções e tenta forjar uma regra.

A matéria é nitidamente construída para  requentar denúncias surgidas nas redes sociais na última semana que já foram esclarecidas pelo Fora do Eixo em nota oficial e com o lançamento do Portal de Transparência (acessível em www.foradoeixo.org.br)

Sobre a matéria, devemos destacar:

NÚMEROS DO FORA DO EIXO

A Matéria insiste em uma tese mentirosa lançada nas redes por Beatriz Seigner: Que o Fora do Eixo aumenta os seus números. Para defender seu ponto de vista, a Carta Capital desconsidera todos os coletivos para além das Casas  de Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza e Belém e afirma de forma desonesta que a rede conta com no máximo 70 pessoas.

O próprio texto da Carta Capital cai em contradição quando acusa, falsamente, a atuação da rede em relação a indicação de secretários em estados como Acre e Rondônia, onde o FdE possui um histórico efetivo  de construções e atividades.

Levantamentos que estão sendo atualizados permanentemente somam 18 Casas, 91 Coletivos e 650 coletivos Parceiros. Eventos como o festival Grito Rock foram realizados de forma integrada em mais de 200 cidades de todo o mundo e a Rede Brasil de Festivais tem mais de 130 eventos em todo o país.

INDICAÇÕES DE SECRETÁRIOS

A matéria desqualifica de forma leviana a militância pelas políticas públicas da cultura e a legitimidade da sociedade civil que busca ampliar seu espectro da participação política, taxando a prática de lobby.  Nenhum dos nomes citados pela revista atingiram seus cargos através de indicações da rede. Um Ex-Ministro, como Juca Ferreira, não precisa de indicação de ninguém, a reportagem especula e mente. É normal e legítimo, pelo seu destaque na atuação local, que eventuais membros do Fora do Eixo sejam convidados para cargos de gestão pública. Entendemos que para aceitar essa possibilidade o indivíduo deve se desligar da rede, não fazendo mais parte mais do caixa coletivo local e se afastando das esferas de decisão em âmbito estadual e nacional.

FORA DO EIXO E MÍDIA NINJA

Lino Bocchini e Pietro Locatelli tentam criar uma tese de que a Mídia Ninja seja um nome fantasia para driblar supostos desgastes do FDE com outros movimentos sociais. O fato é contestado pelas diversas manifestações de apoio que o Fora do Eixo tem recebido de vários movimentos representativos  como o MST,  Movimento Nacional de Direitos Humanos e de várias  organizações Latino Americanas, mostrando claramente que não temos necessidade de criar nenhum artifício para livrar o Fora do Eixo de qualquer desgaste.

Ainda, nunca houve por parte do Fora do Eixo ou da Mídia NINJA nenhuma tentativa ou esforço de omitir ou desvincular as duas iniciativas, pelo contrário.

Publicamente sempre ressaltamos a relação orgânica dos dois projetos entendendo a Mídia Ninja como uma rede incubada – lógica própria do movimento de Economia Solidária – a partir do Fora Do Eixo. Hoje, dezenas de indivíduos e alguns coletivos trabalham como Ninjas e se sentem, ainda bem, também donos da rede.

MACHISMO E SEXISMO NA REDE

Estas acusações são gravíssimas e quem as coloca tem que estar preparado para prová-las. Colocações nesse campo, além de serem desrespeitosas, constituem atos de calúnia e difamação. Nos espanta uma revista como a Carta Capital, que conta com jornalistas que já estiveram muito próximos a rede do Fora do Eixo, convivendo livremente com homens e mulheres, traga a tona essas questões. As relações afetivas não são determinadas por regras do movimento, mas construídas por cada indivíduo, a partir dos desejos de cada um. Diálogos sobre relacionamentos acontecem em qualquer campo da sociedade.

Da forma como a matéria as expõe, todas as pessoas e principalmente as mulheres do  Fora do Eixo estão sendo absolutamente desrespeitadas, com conteúdo fruto de especulação. Ao nosso ver, isso sim,  é de um machismo intolerável.

RELAÇÃO COM PARTIDOS

As Políticas Públicas não são partidárias. Não acreditamos em política de governo, acreditamos em políticas de estado. O Estado não é o PT e muito menos o PSDB! Alguns partidos estão abertos ao dialogo e outros não, mas as políticas publicas independem deles.

Tentar criar uma relação entre Fora do Eixo e PSDB nesse momento é uma tentativa clara de minar as nossas articulações em campos de movimentos de esquerda. Militantes sérios que estão acompanhando o debate sabem que o Fora do Eixo está em disputa direta com o PSDB seja pelas respostas dadas sobre o tema no próprio Roda Viva ou pela ofensiva judicial que está sendo armada pelo Senador Aloysio Nunes contra a nossa rede.

APROPRIAÇÃO DE BENS

Essa não é uma prática do Fora do Eixo. A abordagem da matéria é caluniosa.

Primeiro, como é um processo coletivo, qualquer pessoa que chega tem acesso a uma série de bens coletivos. A destinação de seus pertences para o uso de todos enquanto se está em uma Casa é um ato livre. Além disso, muitas pessoas chegam sem nada e, a partir do envolvimento na dinâmica colaborativa, recebem bens materiais e equipamentos para desempenhar suas atividades.

Um sinal que expõe claramente que os acordos são feitos com o consentimento de quem faz investimentos de bens ou valores, e que as acusações são oportunistas e visam mais a difamação do que a justiça, é que esses acusadores preferiram tornar a história pública através da imprensa em um momento de alta visibilidade do Fora do Eixo, ao invés de terem nos processado tão logo se desligaram.

VIOLÊNCIA E INTIMIDAÇÃO

A rede não pratica nenhum tipo de violência ou intimidação, até mesmo porque não identificamos nada que poderíamos fazer contra integridade física ou emocional de nenhuma pessoa. São dez  anos de trabalho sem nenhum histórico ou caso registrado de agressão, perseguição ou ameaça. A produção de notícias que façam essas acusações sem provas ou sem serem encaminhadas junto a orgão competentes constituem mais calúnias e contribuem apenas para a alimentar uma narrativa de criminalização dos movimentos sociais.

LIVROS E FILMES

A reportagem mente mais uma vez quando cita o livro “48 leis do Poder” como referência da ação politica do Fora do Eixo, sendo que este não faz parte de nossos repertórios e nem de nossas pesquisas. Especula e mente novamente ao dar destaque ao filme citado por Lais Belini que assim como o livro acima nunca fez parte do debates da rede e nem teve sua veiculação proibida.

Lamentamos que uma revista como a Carta Capital perca a oportunidade de debater de forma mais responsável temas relativos a rede e as práticas do Fora do Eixo como economia solidária, ativismo e trabalho, dinâmicas das redes e de movimentos sociais, politicas culturais, etc.

Como fizemos durante toda a semana continuaremos no desenvolvimento do nosso portal de transparência e disponíveis para debates públicos sobre todos os temas da rede.

Vivemos num momento de grandes mudanças. As jornadas de Junho no Brasil, alinhadas a diversos movimentos que correm o Mundo todo hoje, mais as mudanças tecnologicas vividas recentemente nos colocam no olho do furacão, neste processo de mudanças sociais dramáticas, trazidas pelo Digital.

Somos um laboratório de experiência de rede digital único no Brasil e talvez único em todo o mundo. Trabalhamos fortemente nos últimos dez  anos dentro do circuito cultural e a pelo menos três anos estamos num diálogo constante com diversos setores da sociedade brasileira. Fazemos tudo isso de forma aberta e transparente entendendo que somos Beta, e que estamos em processo permanente de atualização. E pra completar tivemos uma enorme visibilidade nos últimos dias com o sucesso e quantidade de questionamentos que a Midia Ninja teve e trouxe.

Como movimento fortemente enraizado nas redes sociais, também recebemos os ônus e bônus de tudo que acontece ali. Ou seja, natural que um movimento que questiona sistemas de representatividade na rede, receba primeiramente os resultados disso. Para nós  essa é uma oportunidade grande de aprendizado para melhorarmos nossos processos. Não temos problema algum em receber a primeira ação tão ostensiva das redes sociais, como gostaríamos que outras entidades, estados e empresas estivessem recebendo, e realmente esperamos que esta experiência possa servir para que avancemos na construção das novas formas de participação e controle social trazidos pelo Digital.

Somos o pretexto pra um grande debate que precisava ser travado, estamos felizes de poder ajudar a levantar temas e discussões tão importantes para sociedade. Seguimos firmes e acreditando que, com esse processo, avançamos para aprofundar entendimentos e ajudar que o Brasil encontre novos caminhos.

Integra das Respostas a Carta Capital publicada em 15/08/2013

Concluindo nosso posicionamento sobre a matéria publicada hoje na Carta Capital. segue abaixo  as nossas respostas  na íntegra para as perguntas enviadas pela revista que não identifica Lino Bocchini, autor da matéria e gerente de midia on line da Carta Capital, como ex-colaborador do Fora do Eixo o que consideramos anti-ético por parte da Revista.

Recebemos as perguntas longas, genéricas e poucas horas antes do fechamento da edição. Além de Pablo Capilé, nenhum membro ativo da rede citado no texto foi procurado pela reportagem, ficando claro o aspecto tendencioso que direcionou a escrita do texto de Lino Bocchini e Piero Locatelli

USO DE DENUNCIAS SEM IDENTIFICAR A FONTE, VIOLÊNCIA E INTIMIDAÇÃO

Diríamos que ninguém precisa ter medo de nada, e que muito nos espanta este tipo de declaração. Inclusive, chega a ser estranho esta reação sendo que todas as pessoas que passaram pela rede sempre puderam colocar estas angustias quando estavam dentro dela. A rede não pratica intimidação, até mesmo porque, o que poderiamos fazer? São 10 anos de trabalho sem nenhum histórico de violência ou perseguição para que as pessoas não se identifiquem. Isso é muito sensacionalismo.

O que as pessoas não colocam em perspectiva é que estas pessoas que hoje estão fora, viram no FDE uma possibilidade de realizar as atividades que desejam e se posicionar profissionalmente. Não dar a cara, é justamente mais do que evidenciar uma possível perseguição ao FDE é ter que revelar também o que elas ganharam com esta convivência. Elas participaram de um processo consentindo com a forma como ele se organiza, utilizou-se das relações que estabeleceu ali dentro, e de repente tem medo de retaliação. Estranho.

Uma prova de que esse questionamento é improcedente é que a maioria das pessoas que saem do FDE vão trabalhar com outros parceiros da rede, ou grupos que mantém dialogo conosco, como o próprio caso da Lais, que saiu da CASA SP, e foi trabalhar com o Outras Palavras, que ela conheceu justamente como membro do FDE. E posso te dar diversos exemplos como esse. Pra mim, levantar estas questões de forma difamatória, sem citar as pessoas e os casos de perseguição não é a melhor forma de se abordar a questão.

Que retaliação ou perseguição poderiamos fazer? Emitir nossa opinião sobre o que achamos destas pessoas se perguntados? Isso tá todo mundo fazendo, sem nem conhecer o FDE, e não vimos pergunta alguma questionando se o FDE estaria se sentindo perseguido. Porque?

“APROPRIAÇÃO DE BENS” DOS MORADORES DAS CASAS COLETIVAS

Não, isso não é uma prática nossa. Muito nos impressiona, que todas as perguntas e questionamentos que tem chegado não exploram a nossa forma de se organizar, mas buscam enquadra-la e criminaliza-la como se fosse um modelo convencional de empresa. Primeiro, como é um processo coletivo, esta pessoa que chega já tem acesso a uma série de coisas que já existem.

A destinação de seus bens para o uso do processo é um ato livre. Se vc tem um carro e vem para uma casa, é natural que este carro seja usado, até porque ja tem muita gente empresta coisas para que o processo exista e se realize. Se vc tem um cartão de credito e quer disponibilizá-lo pra ações da rede a mesma coisa. Não tem uma pratica  de apropriação, tem um processo que gera consensos e consentimentos livres e esclarecidos.

Da mesma forma que muita gente chega sem ter nada e a partir da construção coletiva e colaborativa bens materiais são disponibilizados para esta pessoa desempenhar suas atividades.

É importante ficar claro, o Fora do Eixo trabalha com a perspectiva de propriedade coletiva e compartilhada, com definições claras para o acesso pessoal. A chave para entender isso não está numa leitura maniqueista ou na abordagem que tenta ver o fora do eixo como uma empresa capitalista. É muito desonesto, principalmente para pessoas que participaram deste processo e fizeram suas escolhas, partirem pra uma criminalização depois que se desapontam com uma experiência.

Não existe sequestro compulsorio de bens e é um absurdo a Carta Capital afirmar em uma pergunta que “há diversas pessoas que tiveram os bens apropriados pelo Fora do Eixo”. Não existe apropriação nenhuma desses itens.Obviamente as pessoas que saem do FDE levam o que é de sua propriedade: sejam cartões, computadores ou automóveis. Se nos apropriássemos estaríamos com estes itens até hoje.

RELAÇÃO COM PARTIDOS

As Politicas Publicas não são partidárias. Não acreditamos em política de governo, acreditamos em políticas de estado. A pergunta ta muito mal feita e descontextualizada. O Estado não é o PT e muito menos o PSDB! Alguns partidos estão abertos ao dialogo e outros não, mas as politicas publicas independem deles.

MACHISMO E SEXISMO NA REDE

Estas acusações são gravíssimas e quem as coloca tem que estar preparado para provar. Temos plena convicção que isso, além de ser uma grande mentira, é um ato gravissimo de calunia e difamação, e muito nos espanta uma revista como a carta capital, que inclusive tem jornalistas que já estiveram muito proximos a rede, trazer a tona uma calunia, sem provas.

As relações afetivas não são determinadas por regras do movimento, mas construídas por cada individuo, a partir dos desejos de cada um. Sem o nome de “várias” não é jornalismo. É baixaria. E as garotas que vivem nas casas Fora do Eixo estão sendo absolutamente desrespeitadas com este tipo de especulação. Isso sim que é de um machismo intolerável.

DINÂMICAS COM OUTROS MOVIMENTOS SOCIAIS.

Ao mesmo tempo somos parceiros e temos recebido diversas moções de apoio e solidariedade de vários outros movimentos como o MST, a CUFA, o Afroreggae, a Agencia de Redes pra Juventude, O Movimento Nacional dos Direitos Humanos, o Movimento Ação Griô, o Movimento de Povos de terreiro, a UJS, e vários movimentos Ambientais, Sociais e Culturais.

Existe algum ponto de consenso nos movimentos sociais? O que existe, no nosso entendimento, é um espaço enorme de diversidade e de disputa de narrativas e alinhamentos a partir dos valores e interesses dos movimentos. Acho complicado mais uma vez transformar disenso, que é algo natural das sociedades democráticas, em uma questão moral que distorce a realidade.

Primeiro que NUNCA nenhum integrante do Midia Ninja foi expulso de lugar nenhum, muito menos da Favela do Moinho. Esses mesmos movimentos citados criticam vários outros movimentos, e criticas fazem parte do processo de debate em uma sociedade democrática.  Não conhecemos nenhum movimento que seja um consenso absoluto dentro das lutas sociais que são realizadas no Brasil e no Mundo, e isso deveria ser visto como algo natural, sem alarme e tanto alarde.

REPERCUSSÃO E TEMAS LEVANTADOS

Vivemos num momento de grandes mudanças. As jornadas de Junho no Brasil, alinhadas a diversos movimentos que correm o Mundo todo hoje, mais as mudanças tecnologicas vividas recentemente nos colocam no olho do furacão, neste processo de mudanças sociais dramáticas, trazidas pelo Digital.

Somos um laboratório de experiência de rede digital único no Brasil e talvez único em todo o mundo. Trabalhamos fortemente nos últimos 10 anos dentro do circuito cultural e a pelo menos 3 anos estamos num diálogo constante com diversos setores da sociedade brasileira. Fazemos tudo isso de forma aberta e transparente entendendo que somos Beta, e que estamos em processo permanente de atualização. E pra completar tivemos uma enorme visibilidade nos últimos dias com o sucesso e quantidade de questionamentos que a Midia Ninja teve e trouxe.

Como movimento fortemente enraizado nas redes sociais, também recebemos os ônus e bônus de tudo que acontece ali. Ou seja, natural que um movimento que questiona sistemas de representatividade na rede, receba primeiramente os resultados disso. Pra gente essa é uma oportunidade grande de aprendizado para melhorarmos nossos processos.

Não temos problema algum em receber a primeira ação tão ostensiva das redes sociais, como gostaríamos que outras entidades, estados e empresas estivessem recebendo, e realmente esperamos que esta experiência possa servir para que avancemos na construção das novas formas de participação e controle social trazidos pelo Digital. Somos o pretexto pra um grande debate que precisa ser travado, e apesar da dor da injustiça, seguimos firmes acreditando que debate vai ganhar a profundidade necessária para que o Brasil encontre seus novos caminhos.

http://foradoeixo.org.br/2013/08/16/carta-a-carta/

 


 

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