4 de junho de 2026

(Porque) Dilma se aproxima da vitória

Muito apropriado o texto do economista Enéas de Souza. Segue

Dilma se aproxima da vitória

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Enéas de Souza*

As pesquisas estão mostrando: Dilma se aproxima da vitória. E os seus adversários, depois de meses de ataque, devem estar perguntando por quê? Pois é isso que é preciso mostrar. Vamos dar apenas 10 razões por que Dilma avançou, recuperou o terreno perdido e agora está pronta para cruzar a reta de chegada em primeiro lugar. Trata-se de um indicativo da vitória final? Será que ela já pode ganhar agora no dia 5 de outubro? Eis as razões.

1) Dilma continuou com êxito a política econômica e social de Lula. O que significa que deu prosseguimento à recuperação econômica do país, depois do desastre de Fernando Henrique Cardoso, ao praticar uma política neoliberal.

2) No mesmo processo, Dilma sustentou o pacto político estrutural entre o capital e o trabalho, armado pelo Estado, no curso da estratégia econômica de Lula. E qual foi esse pacto? Fez parte dele, em primeiro lugar, dar liberdade às finanças para desenvolverem os seus mercados. Porém, com uma restrição. O Estado impediu que a dívida pública fosse usada em benefício do capital financeiro, desestabilizando as finanças do próprio Estado, como tinha ocorrido no período de FHC. Foi um pequeno e decisivo avanço, mas foi avanço. Com essa posição, no médio prazo, o Brasil conseguiu livrar-se da tutela do FMI. (Para se avaliar o êxito dessa manobra, pode-se afirmar que não foi assim em toda parte do mundo ocidental. No decorrer da crise planetária, observou-se que as finanças internacionais usaram a dívida pública dos Estados Unidos e da Europa para encontrar a saída de sua falência e para tentar recuperar a sua posição econômica.)

A grande novidade do pacto social acima descrito foi a construção, ao longo do tempo, de uma política pública coerente, coesa e ampla para os trabalhadores, iniciada no governo Lula. Aí tudo é conhecido. Esse conjunto de políticas se baseou no aumento real de salário mínimo ano após ano e se desdobrou no famoso “Bolsa Família”, no “Minha Casa, Minha Vida”, no “Luz para Todos”. E, principalmente, abriu uma perspectiva de futuro no campo da educação via Prouni, Fies, Pronatec e na multiplicação de universidades. No dorso dessas atividades e na resistência à crise mundial singrou uma política de crédito – com substancial ação do BB e da Caixa – para o acesso da sociedade ao consumo. O lance conjugado deu resposta tanto às questões de modificação das condições dos trabalhadores como aos efeitos da perturbação da crise financeira de 2007/2008. Todas essas medidas alargaram, com efeito social evidente, as trajetórias dos grupos que ascenderam socialmente. Desta forma, o pacto implícito e estrutural trouxe resultados espetaculares igualmente no tema da pobreza absoluta e na promoção de milhões de pessoas ao mercado de bens de consumo duráveis e não duráveis. Uma renovação da sociedade brasileira.

3) Pode-se dizer que Dilma seguiu Lula, promovendo e desenvolvendo, portanto, a articulação de uma estratégia política, de uma estratégia econômica, de uma política econômica e de uma política social no seu primeiro mandato. Uma concepção vigorosamente englobante. Assim, além de continuar a ação governamental de seu antecessor, cumpria, em continuidade, uma política de combate à crise mundial, esticando ao máximo possível – e aí está um dos seus grandes méritos – a duração dessa resposta.

4) Simultaneamente, no subterrâneo da referida política e dos efeitos da crise internacional, Dilma estabeleceu um projeto de inserção da economia brasileira num novo padrão de desenvolvimento econômico mundial, que vai se estabelecendo e que alguns chamam de 3ª Revolução Industrial.

5) A presidenta percebeu claramente que a questão energética, embora fosse importante seja pelo lado econômico, seja pelo lado tecnológico, seja pelo lado ecológico, tinha características peculiares significativas. A transição do petróleo para outra energia hegemônica, quem sabe o hidrogênio, passaria por um mix energético, onde o petróleo certamente exerceria papel expressivo. A questão ficou muito clara, ela não se resolve nem imediatamente, nem no curto prazo, tem vida longa. E o petróleo, pensou DIlma, continuaria sendo uma presença decisiva. Dessa forma, ela posicionou a Petrobras – e isso já era feito no tempo do Lula, mas agora cada vez mais – para avançar fortemente no campo petrolífero. E a descoberta do pré-sal carregou as possibilidades imensas de o Brasil aparecer como um grande produtor da área no mundo. Jogar nesse plano, essa cartada, foi entender, sem preconceitos, a plasticidade inerente à dinâmica da questão energética.

(E, vejam só, a Booz Allen, em priscas eras, foi contratada para estudar e verificar a existência de petróleo no Brasil. E sabem qual foi o seu parecer? Que não havia possibilidade de haver petróleo no nosso subsolo! Oh! Maravilha de consultoria! KKKKKKKK)

6) Embora outras energias sejam importantes no longo prazo, Dilma não provocou uma fartura de investimento nelas, para não pulverizar os recursos financeiros, não dispersar os investimentos e não e fragmentar as apostas do financiamento. Todavia, pode-se perceber no Brasil uma diversificação, ainda que discreta, no tratamento da energia eólica, da energia solar, da energia marítima, etc… Algumas em fase efetiva de produção e outras em fases de pesquisa exploratória.

7) A estratégia de substancial apoio à energia do petróleo permitiu o enlace da cadeia global de valor da Petrobras com a cadeia de valor da indústria naval, sobretudo trazendo parte dessas cadeias para o Brasil, seja envolvendo empresas internacionais, seja apoiando empresas nativas. Aqui a solução foi aguda. Principalmente pela definição da política de conteúdo nacional. O efeito se deu num espetacular incremento dos dois setores, da indústria do petróleo e da indústria naval. Com isso, vai se formando lenta, mas decisivamente, uma nova concepção de política industrial para a economia instalada no Brasil. E a contemporaneidade dessa proposição é grande e fértil, uma vez que hoje não se articula mais essa política por setor, e sim pela inserção de empresas produtivas nas múltiplas cadeias globais de valor.

8) A economia agrícola brasileira tem nas suas articulações econômicas e no seu desenvolvimento funções que passam pelo fornecimento de seus produtos para a sociedade brasileira e para a sociedade mundial. Numa economia mundializada, a grande questão para o Brasil é como articular tanto o agrobusiness quanto a agricultura familiar para atender as duas realidades mercantis. O leitor arguto compreende que estamos integrados na base da 3ª Revolução Industrial, vindo pelo lado da energia e comparecendo pelo lado agrícola. E que no sólido amparo desta última área há requerimentos de muitos aspectos que o governo tem estado presente. É fundamental ter estratégia e política e atender múltiplos fatores: crédito, especificações tributárias, desenvolvimento logístico para o escoamento da safra, canais comerciais, etc. Novas obras na área de infraestrutura, como portos, rodovias, armazéns, etc., virão sustentar a amplitude do desempenho e da rentabilidade da agroindústria e da agricultura em geral.

9) No desenvolvimento econômico atual, todos os macrossetores se transformaram muito, porém a expansão do setor serviços, ligado a todos os outros setores da economia, passou a ter uma preponderância forte e efetiva. E com isso, ocorreu uma mudança estrutural na sociedade brasileira, onde o desenvolvimento industrial teve uma presença mais moderada, principalmente no tema do emprego. Essa consideração permite compreender que a sociedade da indústria e do operário deu lugar a um outro tipo de organização, onde os operários são em muito menor número do que os trabalhadores do setor serviço. Assim, a estratégia da luta social, obviamente tem que ser distinta e diferente daquela de grande parte do século XX. No entanto, esta sociedade não pode abdicar das conquistas sociais profundas como aquelas da CLT, dos direitos trabalhistas, etc… E esse é um compromisso do presente governo da Dilma. Tal visão nos conduz a pensar que a produtividade da sociedade não pode ser baseada na diminuição das rendas e dos direitos dos trabalhadores, seja da classe C ou mesmo da classe média, do setor privado como do setor público. É preciso transformar o capitalismo selvagem, que, muitas vezes, ressurge no país, num capitalismo cuja produtividade para as empresas venha, no presente estágio, do próprio capital, sobretudo através das inovações e da tecnologia.

10) O grande êxito da política de Lula e de Dilma vai se dando com a produção já iniciada do pré-sal. Esse está se encaminhado para conseguir recursos visando à metamorfose da sociedade brasileira no nível da educação – no sentido lato, da cultura. Ou seja, os volumes espetaculares de recursos financeiros a serem gerados pelo pré-sal estarão aptos para se traduzir numa revolução educacional. E como também para reformular a área da saúde. E preparar o país para um novo estágio de civilização. A sociedade será outra, não só pelos progressos de políticas sociais, mas porque ela terá nova fisionomia, nova cara, já que a liderança tem o nome de novas tecnologias de comunicação e de informação. A época será do desenvolvimento de objetos eletrônicos, de bens e processos oriundos da biotecnologia, das ciências médicas, da nanotecnologia, etc. Isso significa que a sociedade brasileira está sendo preparada para essa profunda transformação, que veio vindo desde os anos 80 do século passado e que está explodindo agora. Uma sociedade com projetos diferentes, com mercadorias e instrumentos distintos, com relações sociais novas e relações econômicas abertas para horizontes futuros e inovadores.

Conclusão: o leitor pode ver que a sociedade brasileira está obviamente em transição. Cabe começar a desdobrar um novo projeto para o Brasil, uma nova política econômica, uma nova política externa, uma nova estratégia econômica, uma nova estratégia social, uma nova estratégia histórica para o Brasil. E a próxima etapa da metamorfose do país vai se tornar visível através das múltiplas obras de infraestrutura. Sistema de transportes, mobilidade urbana, portos e aeroportos, etc. E nisso, os leitores são capazes de sentir o impulso, porque, através desses 10 itens que salientamos aqui, se apresenta a ideia de que a Dilma, sofrendo um dos maiores ataques e inúmeras tentativas de desconstrução do seu governo, resistiu bravamente. E no seu combate social contra, sobretudo, a mídia conservadora e as forças nacionais e internacionais do liberalismo, conseguiu reverter o quadro eleitoral que parecia totalmente adverso. Não será por isso que ela está se aproximando da vitória? Parece que está ficando nítido, cristalino, evidente, óbvio, que é nela que está se materializando a busca de mudança do Brasil.

* Economista

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