3 de junho de 2026

Precisamos de novas formas de ingresso ao ensino superior

Por que o Brasil resiste em criar uma forma de avaliação global do estudante para o acesso ao ensino superior, como os americanos fazem, e em eliminar o tradicional e conservador vestibular? Ainda criou mais uma prova para deixar os adolescentes tensos, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).  É preciso traçar um breve histórico para entender as razões pelas quais as provas e o sistema de “pseudomeritocracia” são tão arraigados no país.

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Até o início do século XX, as universidades brasileiras eram ocupadas por estudantes de colégios tradicionais, como o Pedro II, no Rio de Janeiro. Com o aumento da procura, que ultrapassou o número de vagas, o então governo instituiu o vestibular, em 1911. O termo “vestibular” refere-se a “vestíbulo” e significa “átrio”, a entrada de um edifício, de acordo com o dicionário Aurélio.

Para as camadas populares, ele era uma espécie de porta de entrada para o “sonho brasileiro” (fazer uma universidade),o que significava a chance de “mudar de vida” ou virar “doutor”; já para classe média era uma forma de manter ou aumentar seu padrão de vida; e para os mais abastados uma obrigação.

Mas, na realidade do país, o vestibular representa uma porta quase fechada, já que a imensa maioria dos candidatos não é aprovada através dele, dado que podemos verificar facilmente nos índices de reprovação anuais.

orando

Foi essa distorção que com o tempo corrompeu todo o processo de ensino brasileiro. A educação do país deixou de lado muitos dos aspectos de suas diretrizes e bases ao virar um preparatório para as provas de vestibular. A escola começou a entrar num conflito se tinha o papel de apenas ensinar (as matérias como português e matemática) ou também educar (dar uma formação global, criar um cidadão).

Com o surgimento dos cursinhos e a crescente busca pelo sonho universitário, isso se intensificou: as escolas perderam a compreensão de que seu grande valor sempre foi incutir nos alunos a capacidade de refletir, pensar, desenvolver, elaborar e construir. O conteúdo ensinado é tão extenso que é impossível realmente aprender tudo e nosso modelo educacional, totalmente pautado em provas beirando o método punitivo e estimulando que os alunos decorem os dados, pouco tem de prazeroso ou agradável. O vestibular continuava cada vez mais conteudista, com uma estrutura conservadora.

enem

Eis que surge a brecha para o surgimento do  ENEM em 1998, como uma alternativa para estimular os estudantes a pensar, já que seria uma prova interdisciplinar e contextualizada que estimularia o “saber como fazer” e não a memória e “decoreba” de fatos e fórmulas.

Seu objetivo inicial era avaliar como estava a qualidade do ensino no país, mas em 2009 mudou de perfil, aumentou o número de questões e passou a ser usado como critério de seleção para a entrada nas universidades. Estas têm autonomia para decidir como usarão os resultados no exame no acesso às vagas oferecidas: como fase única, através do Sistema de Seleção Unificada (SiSu, ao qual aliás tenho sérias críticas, como você pode ler aqui ), como primeira fase do vestibular (ou combinado com ele), como forma de preencher as vagas ociosas do exame tradicional ou ainda através de um processo interno próprio de seleção, sem usar o SiSu.

Apesar da iniciativa, o ENEM (que, segundo matéria do jornal Folha de São Paulo no portal UOL, está com “cara” de vestibular tradicional) representa na prática mais sofrimento para os adolescentes; muitos deles acabam com as caixas de lenços de papel no meu consultório falando do assunto.

Não precisa acreditar no que digo, basta pesquisar na internet sobre o ENEM e rapidamente você acha relatos e mais relatos de estudantes passando mal ou desmaiando por causa da tensão do exame, em crises de choro porque chegaram atrasados ou mesmo situações mais bizarras, como a da moradora de rua que foi ao cabeleireiro para estar bonita no exame e perdeu a prova , do menino que caiu e bateu a cabeça ao correr para chegar ao local de avaliação, foi levado pra dentro e aplaudido (ao invés de para um hospital) e da mãe que levou a criança de quatro meses para a prova porque estava amamentando.

 

A diferença, no acesso ao ensino superior, do Brasil em relação aos outros países é gritante. Nos Estados Unidos, já na escola os alunos têm atividades extracurriculares, laboratório, aulas de empreendedorismo, marcenaria, esportes e diversas disciplinas eletivas. A entrada nas universidades, como mencionei no começo do texto, é feita por uma avaliação global: o estudante passa por uma prova (SAT, que pode ser feita diversas vezes), mas são levados em conta (e tem bastante peso) o perfil do aluno, as entrevistas que são feitas com ele, as cartas de recomendação de professores, as notas das antigas escolas, seu desempenho nas mencionadas atividades extracurriculares, etc.

Já na Finlândia, segundo uma matéria da Revista Educação  os alunos falam 80% do tempo e o aprendizado vem através da prática.

finlandia

Na Argentina mesmo, aqui ao lado, o ensino médio tem um ano a mais, com disciplinas como cidadania, direitos, empreendedorismo, orientação para o trabalho e outros. Quem opta por um curso técnico (que pode ser feito em paralelo ao ensino médio ou apenas depois, como no Brasil) terá as disciplinas que cursar validadas na mesma área no ensino superior, terminando a faculdade antes do tempo (ao contrário de como funciona no Brasil, onde o aluno revê muito conteúdo do técnico).

Para que o aluno entre na universidade pública,  foi criado o Ciclo Básico Comum (CBC), um período intermediário entre o ensino médio e o universitário (ministrado já dentro do campus)  com uma série de disciplinas ligadas ao curso pretendido (matemática e física para quem fazer arquitetura, por exemplo) e outras que preparam para a carreira e a vida (filosofia, pensamento científico, sociedade e estado). O aluno frequenta o CBC por um período mínimo de um ano, que se estende até que esteja preparado para entrar  efetivamente na universidade  (e suas notas mostrem isso, já que só as mais altas entram). Mesmo em crise, o país consegue ter universidade pública de qualidade para todos.

Mas como mudar a educação brasileira e adequá-la ao novo milênio?

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que formou em 2013 sua primeira turma do Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS), talvez indique um caminho.

Ligeiramente similar ao modelo argentino, o método paulista é, na prática, um ciclo básico com duração de dois anos (ou até três) que inclui disciplinas das áreas de ciências humanas, biológicas, exatas e tecnológicas, como Economia, Planeta Terra, Primeiros Socorros, Juventude, Cidadania e Psicologia, Evolução, dentre outras, ministradas em período integral.

Há uma matéria, inclusive, sobre profissões, que segundo a ementa seriam “Seminários sobre as atividades e campos de atuação das profissões associadas aos cursos de graduação oferecidos pela Unicamp”.

Ao final do ProFIS, este aluno, já em torno dos 20 anos (mais maduro e seguro para escolher sua carreira do que quando tem 17, 18 anos e está numa idade de muita crise) pode escolher uma vaga na Unicamp, sem vestibular.

Mas o programa, apesar de ser apontado como uma alternativa à pressão que o exame tradicional exerce sobre os estudantes, não é o que considero ideal e a meu ver ainda tem sérias falhas: nem todos os cursos da Unicamp oferecem vagas por ele (61, de um total de 67; e assim mesmo nos que oferecem são pouquíssimas as vagas disponíveis) e somente alunos com as notas mais altas no ENEM participam (o que mantém a exigência de provas desde o início; aliás, pra que usar o ENEM como funil de um curso que prepara para a universidade?) Outro ponto que considero inadequado: no fim do ProFIS os alunos escolhem as vagas na universidade de acordo com seu coeficiente de rendimento nas disciplinas obrigatórias. (quem tem rendimento melhor escolhe primeiro), o que, junto à utilização do ENEM já citada, mantém a (detestável) “pseudomeritocracia” como fator relevante.

Mesmo assim, a iniciativa da Unicamp tem seus méritos por ser a primeira vez que vejo o país discutir outra hipótese de acesso direto ao ensino superior que não envolva o vestibular; e isso, acredito, aponta o caminho para a (necessária) mudança na educação brasileira.

Uma universidade deve ser fácil de entrar e difícil de sair; nós vivemos o inverso. Como resultado, temos um inchaço de conteúdos que serão esquecidos e profissionais que, em muitas das vezes, concluem o curso frágeis, com pouca profundidade teórica e zero prática. Não à toa, os empresários reclamam dessa “geração diploma” sem experiência, como mostrou recente matéria da BBC.

Só com mudanças reais dessa magnitude poderemos sonhar com uma escola que deixe as provas pra trás e realmente se torne um espaço de aprendizado significativo e prazeroso, no qual os professores possam ser criativos e dinâmicos. Tudo para que criemos um Brasil que verdadeiramente tenha uma boa relação com o conhecimento, a capacidade de profissionalização e a inventividade.

                                          ”Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social,  quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”

Paulo Freire

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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