De tudo que enfrentaram no Brasil (as cobras peçonhentas, os insetos incômodos, as doenças tropicais desconhecidas, os animais ferozes, a mata opressiva e sem fim, os pântanos cheios de jacarés, os rios infestados de piranhas e candirus, a carência de água potável à mão, etc…), o que mais assombrou o imaginário dos portugueses e dos seus filhos foi o pavor de cair nas mãos dos indígenas devoradores de homens.
O moquém regado a cauim é um tema presente em toda a literatura de viagem produzida pelos cronistas que relataram as coisas da terra brasilis no século XVI e XVII. Aqueles que caíram nas mãos dos temidos canibais e que sobreviveram para contar sua história nos legaram narrativas interessantes sobre os rituais antropofágicos.
Os antropólogos, sociólogos e etnólogos estudam livros como o de Hans Staden para reconstruir e entender os hábitos dos indígenas. O que me interessa aqui é apenas o medo de ser aprisionado e moqueado, que certamente foi transmitido de geração em geração. Ele ainda está presente em nossa sociedade de uma maneira atenuada?
No capítulo 42 de seu livro, Hans Staden narra como dois portugueses cativos dos tupinambás reagiram ao saber que o amigo deles foi morto, assado e devorado e que eles mesmos teriam o mesmo destino:
“…Cada um dos selvagens levou seus prisioneiros para a cabana. Os que tinham ferimentos graves, por sua vez, foram arrastados para a terra e levaram o golpe mortal imediatamente. Depois os Tupinambá repartiram seus corpos como de hábito e assaram a carne. Entre aqueles que foram assados ainda nessa noite encontravam-se também dois mamelucos, ambos cristãos batizados. Um deles era português, chamava-se Jorge Ferreira, filho de um comandante que o tivera com uma selvagem. O outro chamava-se Jerônimo, e o seu captor era um selvagem de nome Paraguá, que dormia na cabana comigo. Ele assou o corpo a alguns passos de mim. Jerônimo, que Deus o tenha, era um parente de sangue de Diogo de Braga.
Como se tratava de bons amigos meus de Bertioga, naquela noite fui à cabana em que os dois irmãos eram mantidos presos. Perguntaram-me se também seriam devorados, e minha resposta foi: ‘Isso cabe à escolha de nosso Pai no céu e seu querido filho Jesus Cristo, que foi crucificado por nossos pecados. Em seu nome fomos batizados até a hora de nossa morte. Também acredito nele, por ter-me protegido durante tanto tempo entre esses selvagens. temos que nos contentar com o que o Todo-Poderoso nos reserva.’
Em seguida, os dois irmãos me perguntaram como estava passando seu primo Jerônimo; eu disse que ele se encontrava assando no fogo naquele momento, e que eu também vira os selvagens comendo um pedaço do filho de Ferreira. Eles choraram, mas consolei-os…” (A verdadeira história dos selvagens, nus e ferozes devoradores de homens, encontrados no Novo Mundo, a América…, Hans Staden, Dantes Editora, Rio de Janeiro, 4a. edição, 2000, p. 103)
A forma vergonhosa como os portugueses reagiam à morte e, principalmente, ao moquém causava espanto aos antropófagos. Eles estavam acostumados às altivas reações de seus inimigos tradicionais que, ao invés de chorar e implorar pela vida prometendo resgate, não se deixavam abater quando eram capturados. Quando se tornavam prisioneiros de guerra os outros índios desafiavam seus captores certos de que seriam vingados pelos seus. Segundo Florestan Fernandes:
“…as expectativas de consumação do massacre ritual se insinuavam com o mesmo vigor tanto nas atitudes e ações do senhor, quanto nas do escravo. Thevet informa que aquele que deixasse de vingar-se de um inimigo, seria considerado um poltrão e fraco do coração; parecia-lhes ‘uma vergonha perdoar os inimigos, aprisionados em combate’. Quanto aos escravos, segundo a mesma fonte, aguardavam ‘inteiramente resignados o dia da morte, que tem em muita glória e honra’. Essa informação é confirmada por várias fontes. Anchieta e Léry, por exemplo, dão as seguintes indicações: ‘Os prisioneiros no entanto julgam ser assim tratados excelentemente e com distinção, e pedem uma morte tão (como eles imaginam) gloriosa; porquanto, dizem que só os medrosos e fracos de animo é que morrem e vão, sepultados, suportar o peso da terra, que eles creem ser gravíssimo’; ‘Embora os selvagens temam a morte natural, os prisioneiros julgam ser felizes por morrerem assim publicamente no meio de seus inimigos, não revelando nunca o mínimo pesar’. E diversos documentos assinalam que aqueles aborígenes não reputavam o tráfico e a servidão ‘um costume digno’ e que preferiam ‘deixar o nome’ através do sacrifício, a serem ‘salvos’ por intermédio dos brancos.” (A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá, Florestan Fernandes, Pioneira Editora, São Paulo, 2a. edição, 1970, p. 255)
A antropofagia deixou de ser uma realidade há muito tempo, mas a elite brasileira seguiu sendo extremamente desconfiada e temerosa. O medo secular do índio irredutível e hostil, o pavor do selvagem traiçoeiro e violento que aprisiona e devora homens, parece ter sido transferido para aqueles que, não sendo “bem nascidos” (eufemismo empregado para designar os descendentes de índios e de negros), podem devorar os privilégios e as riquezas amealhadas de maneira mais ou menos desonesta por diversas gerações. A propriedade é uma extensão do homem que à ela se apega. E nós brasileiros brancos, que vivemos numa sociedade essencialmente patrimonialista desde o século XVI, somos extremamente apegados às nossas coisas, ao nosso dinheiro, ao nosso que é do outro ou do Estado.
Da confusão entre o público e privado (tão comum dentro e fora da política), podemos deduzir uma outra confusão: entre o medo do moquém e o medo do roubo. O ladrão (tema preferido dos programas policiais “datenizados” que amedrontam os “bem nascidos” e seus agregados) é uma espécie de antropófago moderno que deve ser exterminado. Pouco importa o que diz a CF/88. Em cinco séculos a psique nacional avançou muito pouco. “Tupinambá bom é tupinambá morto”, os paulistas continuam a dizer inconscientemente mesmo quando usam outras palavras para se referir às novas formas de antropofagia.
Os operários anarquistas, os comunistas e, mais recentemente em razão das ondas de ódio programadas e propagadas pela imprensa, os petistas são de certa maneira identificados aos temidos Caetés e aos terríveis Tupinambás. Não causa estranhamento a total separação geográfica entre a elite brasileira (encastelada nos seus condomínios de luxo murados e providos de segurança armada) e os “outros brasileiros” (aqueles que vivem na periferia, nas favelas, nos morros, nos mocambos e palafitas). Os “outros”, os “desconhecidos”, “mal nascidos”, “bárbaros” (palavra usada com frequencia nos telejornais para designar manifestações indesejadas), todos aqueles que são considerados “potencialmente perigosos”, evocam o medo-pavor ancestral ao moquém e despertam o desejo de purificação pela agressão preventiva. “Como pode, este petista filho-da-puta, frequentar o mesmo restaurante que eu…” deve ter passado pela cabeça do cidadão que agrediu verbalmente Guido Mantega como se ele fosse um índio.
A caçada ao Lula já começou https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/lula-e-os-neo-bandeirantes-cacadores-de-homens. O virulento anti-petismo difundido pela imprensa ganhou raízes na internet e na sociedade http://www.jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/sobre-o-anti-petismo-e-os-anti-petistas-por-fabio-de-oliveira-ribeiro. Prender o “sapo barbudo” parece ser, neste momento, a solução definitiva para todos os problemas da elite brasileira. O tema foi explorado aqui mesmo no GGN com razoável eloquencia http://www.jornalggn.com.br/blog/sergio-saraiva/a-prisao-de-lula-e-a-solucao-para-o-brasil-por-sergio-saraiva. Todavia, prender Lula é fácil. O que eu quero ver mesmo é o que a elite brasileira fará para se livrar enfim do seu medo secular.
Nos últimos 12 anos Lula e Dilma cometeram o pecado capital de fazer o povo brasileiro “cair para cima”. Quem tomava vinho Natal provou vinho do Porto e, provavelmente, gostou. O tradicional arroz com feijão, ovo e alface deu lugar a pratos mais sofisticados e saborosos. O azeite composto Maria foi substituído nas mesas de milhões de brasileiros pelo azeite virgem de oliva portugues, espanhol ou italiano. O medo do moquém, contudo, não diminuiu. A julgar pelos mini-panelaços que ocorreram ontem o medo dos índios devoradores de homens até aumentou.
“Quando a economia fracassar o que faremos com estes 100 milhões de ‘bárbaros’ que acostumaram a comer churrasco de carne e linguiça regado a caipirinha e cerveja?” – pergunta um brasileiro bem nascido, destes que destilam ódio na internet e batem panela durante os programas do PT.
“Deus do céu. Não quero nem pensar. Vou-me embora para Orlando, nos States, antes que eleitores favelados ‘desta Dilma’ comecem a nos caçar e nos assar enquanto suas mulheres desgrenhadas feias e gordas regurgitam cauim!” – responde um cidadão de meia idade que esfrega impaciente sua pistola 765 pensando numa solução imediata para o problema futuro.
E nós, os “índios imaginários”, o que diremos aos brasileiros que querem derrubar Dilma Rousseff porque, em pleno século XXI, ainda temem o moquém? Esta meus caros é a verdadeira pergunta que iremos responder em breve. De minha parte vou logo avisando: não como carne estragada. Nem vou correr o risco de ser contaminado por bactérias neoliberais e viroses privatizantes ao devorar carne moqueada dos membros da tribo tucana.
O mais interessante de tudo isto é o paradoxo. Os mesmos que temem o moquém (quer este incida ou não apenas na extensão patrimonial de seu ser) desejam o fracasso da economia porque isto ajudará a derrubar o PT e causará a inevitável queda do padrão de vida do povo brasileiro. A possibilidade dos “índios imaginários” se tornarem reais durante uma grave crise econômica e política não ocorre aos homens brancos bem nascidos? Devorados pelo ódio consciente e irracional eles se oferecem inconscientemente como vítimas sacrificiais às suas próprias vítimas. Por um caminho tortuoso o sadismo manifesto se transforma em masoquismo evidente.
Aqueles que batem panelas e querem prender Lula usam uma máscara que esconde a máscara que esconde a máscara que esconde a máscara… O rosto de Lula incomoda justamente por isto. O ex-presidente não precisa de uma máscara para lidar com o povo. Ele é um de nós ou é visto como um de nós. Mesmo que a máscara do Lula seja removida através da prisão ou dentro cárcere isto não irá conferir um rosto popular aqueles que, de tão acostumados à dissimular, já consideram a dissimulação como a única expressão da verdade. E aí é que reside o problema. O povo brasileiro já não consegue moquear esta ideologia. Instintivamente ele resiste a devorar a covardia mascarada e se recusa a engolir o vazio que preenche a existência dos auto-proclamados homens de bem. E esta crise da civilização brasileira, meus caros, não poderá ser resolvida com a prisão do Lula.
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