3 de junho de 2026

Que pesadelo! O Brasil sem Carnaval, por Ruy Castro

Sim. Todo carnaval tem seu fim. Mas já parou para pensar se ele nem ao menos começasse? Ou, pior, se ele nem existisse? Convidamos os escritores Ruy Castro e Sidney Rocha para narrar como o país seria se uma de nossas festas populares mais amadas nem ao menos estivesse no imaginário dos brasileiros. Responda você também: como resistiríamos sem a alegria dos sambas, das marchinhas, dos confetes e das serpentinas em nossas vidas?

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Revista da Cultura – fevereiro/2014


por Ruy Castro.

Platão não queria poetas em sua República. Na Hollywood de 1914, os primeiros prédios de apartamentos proibiam a entrada de cachorros e atores. Só faltava o Brasil não ter o Carnaval. O que, aliás, não se deve dizer nem de brincadeira. Porque, se fosse assim, o que seria de nós?

Não teríamos O teu cabelo não nega, Cidade maravilhosa, Touradas em Madri, Alá-la-ô, A jardineira, Ó Seu Oscar, Aurora, Dama das camélias. Pirata da perna de pau, Amélia, Chiquita bacana, Balzaquiana, Tomara que chova, Sassaricando, Madureira chorou e centenas de outros sambas e marchinhas que, de 1930 a 1960, inventaram a cultura popular do Brasil. Não teríamos corso, batalha de flores, banho de mar à fantasia, Rei Momo, pierrôs, arlequins e colombinas. Nem bailes com confete, serpentina, lança-perfume, mão-boba e fantasia de árabe (sem cueca por baixo).

Não teríamos os ranchos, como os lendários Ameno Resedá, Flor de Abacate e Mimosas Cravinas, nem o meu favorito, o Flor de Sereno, que faz hoje um lindo Carnaval de 1910. Nem, desde o século 19, as grandes sociedades, como os Democráticos, os Fenianos e os Tenentes do Diabo. Nem os cronistas do Carnaval, como Mauro (“Peru dos pés frios”) de Almeida, Vagalume, K. Noa, K. Peta, K. Rapeta, A. Zul, Jota Efegê, Eneida, Haroldo Costa e Hermínio Bello de Carvalho, criadores de toda uma literatura. Não teríamos o Cacique de Ramos, o Bafo da Onça e o Bloco do Eu Sozinho, com seus Carnavais históricos, nem o indestrutível Bola Preta, que, há alguns anos, sozinho, leva um milhão, talvez dois, à Cinelândia no sábado de Carnaval.


Nem o Simpatia É Quase Amor, o Monobloco, o Que Merda é Essa?, o Céu na Terra, o Carmelitas, o Escravos da Mauá, o Spanta Neném, o Suvaco do Cristo (e seu irmão caçula da Zona Norte, o Virilha de Minhoca) e os outros 450 blocos que saem às ruas aos primeiros clarins de janeiro e arrastam a cidade até a Quarta-Feira de Cinzas ou mesmo depois. Nem a Banda de Ipanema, mãe de todas as bandas. E o baile de gala do Copacabana Palace? Pois não deixe que ele ofusque os bailes da Lapa, do Terreirão, da praça Mauá e de outros mil bairros do Rio. Onde houver um carioca, haverá Carnaval.

Pois é – mas, e se não houvesse o Carnaval? Que pesadelo! Não teríamos o Império Serrano, o Salgueiro, a Portela, a Mangueira, a Beija-Flor, a Imperatriz e todas as demais escolas, sem as quais não seria possível viver – nem a extinta, mas imortal Vizinha Faladeira, que desfila como um fantasma na imaginação deste folião. Nem Ismael Silva, Cartola, Gargalhada, Espinguela, Calça Larga, Pamplona, Fernando Pinto, Arlindo Rodrigues, Joãozinho Trinta, que criaram os seus mandamentos básicos, agora recriados por Rosa Magalhães e Paulo Bastos. Nem Paulo da Portela, Mano Décio, Silas de Oliveira, dona Ivone Lara, Zuzuca e Beto Sem Braço, que escreveram os seus grandes sambas. Nem Delegado e Mocinha, mestre-sala e porta-bandeira que ensinaram ao Brasil a elegância. Como seria a cultura sem heróis?

Não teríamos os surdos de primeira, de segunda e muito menos de terceira, caixas, repiques, cuícas, tamborins, pandeiros, chocalhos, agogôs e reco-recos, que formam as baterias siderúrgicas, sem as quais o Brasil seria um túmulo. E onde estariam os designers, folcloristas, pintores, figurinistas, escultores, costureiras, chapeleiras, bordadeiras, carpinteiros, eletricistas, ferreiros, soldadores e outros artesãos que levam o ano trabalhando nas fantasias e alegorias? De onde viriam os tecidos, plumas, pedrarias, lantejoulas, miçangas, vidrilhos, isopores, madeiras e ferragens, sem os quais a escola não sai? E a cerveja e a feijoada, que rolam em quantidades oceânicas nos barracões? E, sem o chamado tríduo, como ficariam os patrocinadores, as TVs, as agências de propaganda, o comércio – pense na Casa Turuna –, os hotéis, os táxis e os ambulantes?

E as mulatas estratosféricas?

Estou falando do Carnaval carioca, claro. Aquele que, desde 1600, só exigiu de seus praticantes uma condição: a alegria.


Gente de toda parte, aos milhões, vem ao Rio todos os anos para experimentar tal alegria. Apague do Brasil esse Carnaval e, como diria Nelson Rodrigues, vamos todos nos sentar no meio-fio e chorar lágrimas de esguicho.



RUY CASTRO É COLUNISTA DA FOLHA DE S.PAULO E AUTOR DE, ENTRE MUITOS OUTROS, CARNAVAL NO FOGO,MORRER DE PRAZER E LETRA E MÚSICA.


Leia também a crônica O mundo sem momoescrita por Sidney Rocha

 

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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