4 de junho de 2026

Quem contratou esse traveco

Nas situações em que somos a maioria, o grupo dominante, gays e cisgêneros (termousado quando há concordância entre identidade de gênero e o sexo biológico)repetem o discurso do opressor.

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Não é absurdo? Gays no começo da sua vida passam por uma dor: descobrir que sentemalgo que o mundo vê como “pecado”, “sujeira”, “safadeza”, “torpeza d’alma” e grande ofensa à masculinidade. “Viado”, “boneca”, “florzinha”… são tantos apelidosvis e cruéis que nem sei por onde começar.  A vida segue e um dia temos a coragem de dar um basta, coragem que precisamos para enfrentar religiões e crenças pessoais.

 

Mas imaginemter que repensar seu conceito de Deus. Que hetero pode entender o que é refazera idéia de Deus, achar que o Papa está errado (ele deveria ser infalível) parapoder seguir na fé. Ou abandonar tudo, como eu fiz. Eu, um jovem líder domovimento Marista em Florianópolis, perdi a fé e tornei-me agnóstico. Claro quea psicanálise, minhas próprias sessões no divã e minha formação na área, meajudaram nessa jornada. Hoje sou feliz com a vida que tive, com a que tenho e coma que espero que terei.

 

Mas existe um grupo especial, que tem muitas diferenças e similaridades entre si,as transexuais do Brasil.

 

Eutento entender a dor, sinto-me como um hetero tentando entender o que é sergay: impossível. Aprendi então a calar a minha boca e ouvir o que elas têm adizer.

 

Osdados são claros, 90% das trans estão na prostituição. Destas, 60% não queriamestar atuando nisso e as demais 40% dizem preferir a prostituição, em grandeparte porque fora dela receberem salários indignos.

 

NoBrasil onde 2/3 dos desempregados são mulheres e negros recebem em média metadedo salário de uma branco, fico pensando o quanto sofre uma transexual, negra epobre. Será temos a capacidade de nos solidarizar?  Ou nos manteremos sempre no deboche, narisada e na piada?

 

DanielaAndrade , militante e trans, me ensina muita coisa e lembro de uma frase delafalando sobre o mercado de trabalho ( no seu caso, tecnologia da informação,TI): “De modo geral, se um homem erra, ‘é apenas umerro’. Se uma mulher erra, ‘tinha que ser mulher’ e se a transmulher erra, afrase vira ‘mas quem contratou esse traveco?’ Fiquei sabendo que usaram essapergunta em relação à mim (Daniela) em uma

determinada empresa. Cansei de, nessa área, ouvir da boca dehomens que ‘mulher na área de informática com talento não existe, elas entram nessa área pra conseguir homem”.

 

É nossa obrigação nos solidarizarmos, lutar pela visibilidade trans, movimento que tem como dia comemorativo todo 29 de janeiro. Temos que lutarpela despatologização (a descaracterização da condição como doença), por maioratendimento no Serviço Único de Saúde, o SUS (a fila para a mudança de sexo hojedura 10 anos) e pela não judicialização (necessidade de ter que entrar najustiça) dos processos de mudança corporal e hormonal. A alteração do nomesocial, por exemplo, deveria ser algo bem simples, feito em cartório somente. Éum direito ser mulher.

 

Mas eu jamais saberei realmente o que é olhar para seu corpo epensar “não sou isso, sou mulher” (ou o contrário).  Seguramente uma pessoa que já enfrentou aprimeira luta, perceber-se gay, sente-se em uma nova batalha dentro do própriomeio homossexual ao “virar mulher”, tendo que enfrentar todo o preconceito quealguns gays têm com “os que são afeminados” ou com mulheres em geral: recaitudo sobre as trans.

 

É um choque para muitos quando um amigo vira amiga. Eu já viviesse susto, com uma que hoje é uma grande amiga. Aliás, tenho diversas amigastrans. E você?

 

Todas, sem exceção, têm um histórico de luta, de sofrimento e devilipendiações. Uma delas é chamada pela mãe pelo nome masculino até hoje,mesmo tendo os documentos já corrigidos.

 

Lembro do olhar de confusão quando falo da minha sexualidadepara alguns, mas não posso imaginar o que é ser olhado e julgado por todos,todo o tempo. Que força essas meninas e meninos devem ter, que garra.

 

Já perdi um ou outro trabalho por causa de preconceituosos, masnão sei o que é a total falta de empregabilidade. Mulheres trans que conheço,absolutamente capazes, inteligentes, articuladas e simpáticas, estão fora domercado do trabalho. Aqui nem o papo de que é através da meritocracia (subirpor esforço e mérito) que se consegue tudo, funciona. Esta não consegue vencer o mais cruel dos preconceitos, aquele que coloca as trans como uma caricatura damulher hetero.

 

Se você não entende nada disso, pergunte a elas. Seguramente tedirão: “Sou mulher”.Aceite. Você nunca saberá a dor do outro, o quanto elalutou para se construir mulher e, sinceramente, isso não vem ao caso aqui, nãoé primordial você tem que saber isso: o que o outro diz sobre si mesmo deveria bastar. Cuide da sua vida e vamos juntos, unidos, fortalecer o movimento LGBT elutar contra TODO e qualquer TIPO de preconceito.

 

Para minhas amigas trans e todas as demais deusas do feminino,meu parabéns pelo seu dia.

 

                                            “As pessoas já exigemo impossível de uma mulher, imagine de uma transexual”.

                                                                                              Lea T – Top-model internacional

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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