O conceito de requalificar traz, declaradamente, um processo de mudança. Este pode ser inclusivo e exclusivo, como nos casos de Recife e de Salvador (ver o artigo O centro em disputa). Terá, mesmo quando inclusivo, algum caráter de exclusão. Um dos condicionantes que levam a necessidade de requalificação de uma região é exatamente a sua decadência econômica e consequente deterioração dos imóveis e seu entorno.
O processo de deterioração é lento, principalmente no centro, onde a falta de infraestrutura não é a causa da decadência da região. Há, com o envelhecimento dos imóveis, uma espécie de “requalificação espontânea” do setor de comércio, que passa a ser ocupado por prestadores de serviço que não tem necessidade de imóveis que estejam em ótimo estado de conservação: oficinas mecânicas, vidraçarias, borracharias, lojas de materiais de construção, p.e. O setores que necessitam de melhores instalações, comércio de roupas e tecidos, de calçados, de alimentação, vão aos poucos deixando a região. A resultante é a queda acentuada da circulação de pessoas pois os setores que permanecem na região, atraem um número menor delas.
As moradias também sofrem as consequências do processo descrito em relação ao comércio. A diminuição da infraestrutura de serviços privados básicos (padarias e mercados p.e.), a diminuição do movimento nas ruas durante a noite, geram desconforto, insegurança e fazem com que os imóveis residenciais percam o valor, se deteriorem e deem início às chamadas cabeças de porco ou cortiços. O bairro sofre então uma enorme decadência econômica e a perda da capacidade privada de investimento.
Ora, a requalificação tem portanto que viabilizar economicamente a região para que não haja uma rápida perda do investimento público. Mesmo nos casos em que as tarifas sociais sejam necessárias, devemos prever também a requalificação e amparo aos pequenos comerciantes ou prestadores de serviço e geração de emprego para os que não tem. Uma assessoria do Sebrae para tal pode ser interessante. O melhor da requalificação de regiões centrais é a possibilidade de que a mesma traga também emprego para população remanescente e melhoria de sua renda.
O resgate de uma região deve contar ainda com um acompanhamento constante do Poder Público para os necessários ajustes dos pontos que não tem como ser perfeitamente avaliados através de um bom planejamento, por melhor que ele seja.
Tomemos cuidado também para não confundir com política higienista um projeto de cidade que ofereça uma boa infraestrutura, ruas limpas, bom transporte, segurança, moradias dignas para diversas faixas de renda e ausência de pobreza ou dependentes de qualquer gênero perambulando e não assistidos pelas ruas. O pior tipo de crítica é aquela que não propõe solução outra que não a “inclusão naturalizada” da miséria humana.
Deixe um comentário