Nos anos 1990 aprendi a apreciar os livros adultos de Saint-Exupéry, especialmente Terra de Homens, Voo Noturno e Piloto de Guerra e Correio Sul. Em 2000, as circunstâncias mal esclarecidas da morte do escritor francês durante a II Guerra Mundial me inspiraram a escrever um pequeno conto. Não sobre ele, mas sobre o piloto alemão desconhecido que o abateu. Meu pequeno exercício literário estava condenado a ficar inédito. Resolvi publicá-lo em virtude da solução do mistério http://seuhistory.com/noticias/alemao-confessa-depois-de-64-anos-eu-derrubei-o-aviao-de-saint-exupery. Abaixo o conto de minha autoria.
NOVO RETORNO A CALAIS
– Combustível acabando. Nenhuma atividade significativa no canal. Farei a volta e retornarei a base. Esperem…
Silenciado o rádio, Hans abriu completamente a mistura de combustível, apontou o caça para sul sudeste, desceu até 1.500 pés e iniciou a perseguição ao inimigo. Em quase dois anos de serviço, ele já havia perdido a conta do número de aviões que abatera desde que foi enviado para Calais. Conhecia melhor do que ninguém as manobras evasivas mais empregadas pelos ases da RAF, por isto ficou intrigado com a conduta do piloto daquele Spitfire. Mesmo depois de avistá-lo, o inimigo não alterou sua rota. Continuou a seguir diretamente para St. Lô, como se estivesse fazendo apenas um vôo comercial em tempo de paz. Sem dificuldade, Hans colocou seu caça em posição de ataque e… Hesitou, diante da passividade do inimigo. Isto nunca tinha acontecido antes. Pela primeira vez desde o início da guerra, uma reflexão evitou que o dedão do piloto alemão despedaçasse um avião aliado.
Lembrando-se de Convenção de Genebra, Hans reduziu a mistura de combustível, estabilizou o caça atras do avião inimigo e aguardou pacientemente sua rendição. Porém, o mosquito apenas manteve seu curso para St. Lô, não abaixando o trem de pouso. Demorou um pouco, mas ao final de uma breve trégua, Hans tentou comunicar-se pelo rádio com o inimigo, exigindo dele a conduta adequada. Como não obteve resposta, irritado aumentou a mistura de combustível, desviou o caça que pilotava do Spitfire e passou ao lado de sua asa direita, disparando ruidosamente as metralhadoras no ar. Algumas revoluções depois, o Messerschmitt ME 109 G novamente estava posicionado no rabo do mosquito e… Hans, novamente hesitou. Nunca havia abatido um avião em situação semelhante. A ausência de reação desarmou completamente o alemão e ele reduziu outra vez a mistura de combustível.
Durante alguns minutos, ou talvez segundos, não se sabe ao certo, os dois aviões seguiram juntos para St. Lô. A própria guerra duvidou. Mas logo cedeu às evidências, reconhecendo que algo inusitado estava acontecendo naquele momento. Afinal, no auge do conflito, em dezembro de 1941, não era sempre que um poderoso Messerschmitt ME 109 G escoltava ruidosa e pacificamente um Spitfire nos céus do canal da mancha.
De olho no marcador de combustível, Hans comunicou-se com a torre de Calais.
– Torre de Calais. Torre de Calais. Abati mais um inimigo, estou retornando a base.
Acreditando que o dito ficaria pelo não dito, que qualquer outro poderia fazer aquilo que ele não teve coragem de fazer, Hans acelerou o motor do Messerschmitt ME 109 G e passou pela segunda vez ao lado da asa direita do Spitfire, acenando para o companheiro. Porém, assim que tomou-lhe a dianteira rumando para noroeste e ganhando altura, seu caça passou a ser perseguido pelo outro avião.
Sorrindo aliviado, Hans finalmente entrou novamente em combate. Sem piscar os olhos, o “barão”, como era carinhosamente chamado pelos companheiros de esquadrilha, mergulhou ruidosamente seu caça, rumou para o norte durante alguns segundos, contornou a toda velocidade a sul sudoeste e surgiu novamente no rabo do Spitfire acompanhando-o em sua escalada para 2.000 pés. O inimigo balançava na alça de mira, quando Hans acionou as metralhadoras. Porém, antes de ser literalmente recortado pela saraivada de projéteis, o mosquito literalmente parou no ar, caiu sobre sua asa esquerda, ficou de cabeça para baixo e iniciou uma manobra pouco usual, obtendo novamente vantagem sobre Messerschmitt ME 109 G.
Finalmente Hans havia encontrado um piloto a sua altura. De revolução em revolução, de manobra evasiva em manobra evasiva, os ases da RAF e da Luftwaffe teceram nos céus canal da mancha a mais bela tapeçaria da segunda guerra mundial. Cada ponto da trama, era o resultado de uma manobra perfeita, cada arremate uma evasiva corretamente executada e cada adereço um dos projéteis disparados inutilmente no ar.
Hans não poupou esforços para abater Spitfire. Lançou mão de todo seu arsenal de recursos e habilidades aéreas. Mas, foi tudo em vão. Naquela tarde, o “barão” não conseguiu atingir a mesma eficiência do passado. O inglês era bom, muito bom. A cada investida, surpreendia-o com uma manobra evasiva espetacular. Em pelos menos três oportunidades, o Messerschmitt ME 109 G pilotado pelo alemão ficou vários segundos em posição de ser abatido pelo inimigo. Entretanto, sempre que se dava por vencido, aguardando o xeque-mate final, ele era humilhado pelo desconhecido. No instante fatal, as metralhadoras do Spitfire calavam-se, dando esperança e fôlego ao oficial alemão. A atitude do inimigo no calor da batalha, gerou um misto de ódio e admiração no “barão”. Era impossível, mas parecia que aquele piloto da RAF voava como ele próprio, apenas pelo prazer de voar.
A batalha durou quase doze minutos. Uma eternidade em termos de aviação militar. No final, foi o combustível nos tanques do Messerschmitt ME 109 G que venceram Hans, e o alemão decidiu retornar a Calais. Frustrado pelo fato de ter abandonado o combate mais emocionante de sua carreira militar daquela maneira, o “barão” seguiu para Calais protegido por uma imensa tempestade que avançava para o canal vindo da normandia.
Seu caça, não havia se distanciado muito do local da batalha, quando Hans lembrou-se de que o Messerschmitt ME 109 G que pilotava não estava com o tanque standard. A dois dias, o caça havia recebido um tanque maior de combustível. Vôos de reconhecimento sobre o canal da mancha, como o que estava fazendo antes de avistar o Spitfire, exigiam maior autonomia. Rapidamente, Hans aumentou a mistura fez meia volta, retomando o curso para St. Lô. Exatamente às 15:04 minutos, avistou o mosquito. Ciente do perigo, o piloto da RAF não hostilizou o inimigo, apenas corrigiu o curso, ganhando um pouco de altura quando a costa cresceu no horizonte. Porém, desta vez não houve hesitação. Girando sobre o próprio eixo, o Messerschmitt ME 109 G posicionou-se atras do Spitfire, disparando uma saraivada de tiros de metralhadora. O ataque foi preciso e mortal.
Leme danificado, asa esquerda em chamas, o Spitfire perdeu rapidamente altura descrevendo uma espiral que aumentava à medida que se aproximava da água. A cena toda, mentalmente gravada da cabina do Messerschmitt ME 109 G pelo vitorioso piloto alemão, não demorou a ter o desfecho previsível. O canal da mancha recebeu friamente os destroços do avião e o corpo do às da RAF. Emocionado, o alemão deu uma razante sobre a sepultura do inglês, disparou alguns tiros de metralhadora em sinal de pesar, depois apontou o nariz do Messerschmitt ME 109 G para Calais, retornando à base.
Quatro anos depois, a guerra chegou ao fim. Em janeiro de 1943, abatido durante uma missão na costa da Inglaterra, Hans foi feito prisioneiro e tratado de maneira exemplar pelos inimigos. Torturado e humilhado psicologicamente por três meses, acabou revelando alguns segredos militares e foi deixado em paz em sua cela, recebendo diariamente uma ração exígua de pão velho, batatas e água.
Um ano depois do final da guerra, o “barão” foi libertado, retornando a Leipzig, sua cidade natal. A Alemanha estava destruída, Hans também. Deprimido, durante algum tempo, ele apenas perambulou pelas ruas de Leipzig, perguntando-se porque tudo aquilo havia acontecido. A guerra é assim mesmo, primeiro dilacera a humanidade dos soldados, depois recruta-os para outra tarefa inglória, buscando alguma explicação.
Durante os anos da reconstrução, Hans trabalhou como mecânico e eletricista de aviões. Na verdade, ele não teve dificuldades para adaptar-se à nova vida. Antes mesmo de alistar-se, ele já era obcecado por tudo relacionado a mecânica e aviação.
Aos doze anos, em um velho quadriplano de propriedade do pai, Hans aprendeu a voar. Aos dezesseis, já montava e desmontava aquela relíquia como se estivesse brincando. Aos dezenove, foi admitido na Luftwaffe. Aos vinte e dois, concluiu com distinção todas as matérias da academia, sendo transferido para a base aérea de Frankfurt. Pilotando um caça bombardeiro de mergulho Junker JU 87 B1, participou da campanha alemã na Espanha, sendo laureado com uma cruz de ferro por mérito em combate. Antes de ser abatido, ele recebeu muitas, muitas outras condecorações. Porém, a guerra acabou, as medalhas se perderam em algum porão e o tempo foi transformando em pó todas as glórias e estórias do “barão”.
Em janeiro de 1955, a Alemanha já não era tão Alemanha, nem os alemães tão alemães. Deprimido, agora o “barão” era somente o mecânico Hans. Um ex-oficial da Lufthwaffe profundamente arrependido. Arrependido por ter abatido covardemente um avião que não esboçou qualquer reação. Dia após dia, noite após noite, o alemão foi destruindo sua intimidade consigo e afundando no alcoolismo. Ele sofria por acreditar que tudo poderia ter ocorrido de forma diferente, mas sabia que não haveria um novo retorno a Calais em 12 de dezembro de 1941.
No ápice de uma crise de depressão, quando já estava amaldiçoando até mesmo o primeiro dia em que levantou vôo com um avião, em razão de uma feliz coincidência, Hans veio a conhecer a obra prima de Raimond Spencer Jr., um escritor inglês que ajudou-o a encarar a guerra e a vida de outra maneira. No livro, cujo nome pode ser literalmente traduzido como “Trabalhadores do Ar”, o escritor/personagem, aliás, também exímio aviador, definia a vida como um vôo solitário feito as cegas. A cada homem, o autor atribuía um avião, a cada avião infinitas rotas e apenas duas opções: voar com ou sem ansiedade e temor. O vôo e a vida seriam apenas alegorias da suprema diversão, em que cada segundo deve ser e é apenas uma celebração.
O pouco de humanidade que restava àquele homem alquebrado pela guerra, massacrado pelo presente, sem perspectiva de futuro e prestes a cometer o suicídio, identificou-se de tal forma com idéias do autor e com maneira inusitada empregada por ele para expressá-las, que não tardou para que o livro de Raimond ocupasse a cabeceira da cama de Hans.
“Trabalhadores do ar” era um livro absolutamente despretensioso. Composta de vinte e nove estórias engraçadas, estranhas ou simplesmente absurdas, que não guardavam nenhuma relação causal entre si, a obra conduzia o leitor pelos inexplicáveis labirintos da psique humana. Ao longo da narrativa, os personagens apareciam, desapareciam e ressurgiam aqui e ali, sempre vestidos com novas mascaras, como se fossem apenas figuras caricatas interpretando outras caricaturas. Acontecimentos corriqueiros, comuns acabavam tendo os desdobramentos mais inesperados e incomuns.
Ao longo do livro, o novo amigo do alemão demonstrou-lhe que o passado, o presente e o futuro simplesmente não existem. Dependem exclusivamente da explicação que damos para certos fatos, delimitando nossa imaginação acerca de como, onde e por que estamos levando, levamos ou levaremos nosso avião.
Numa das estórias mais intrigantes do livro, Tod desafia a um só tempo a lógica e a ilusão. Conduzindo o vôo 234, de Londres para Washington, em pleno Atlântico Norte, o piloto da Pan Air resolve abandonar tudo, apenas para ressurgir nos céus londrinos batendo os braços durante uma parada militar. Apavorados, os tripulantes e passageiros do avião são incapazes de compreender a atitude do rapaz, tentando em vão convencê-lo a não abandonar o comando da aeronave. Mas, era tarde demais. Enquanto todos falam, Tod vai desaparecendo. Há muito já havia aprendido que nesta vida somente tem valor o que se faz por si com alegria e prazer. Ao fim de algum tempo, diante da multidão estupefata, flexionando poderosamente os braços no ar, Tod reaparece voando serenamente nos céus de Londres exatamente como queria, durante uma parada militar. Porém, antes de pousar, o homem-pássaro é abatido a tiros por um jovem soldado que ainda não aprendeu que viver e sonhar são a mesma coisa que abraçar o mundo ou simplesmente… voar. Como um meteoro, em uma fração de segundos, Tod atinge ruidosamente o solo. Quando a multidão se aproxima para olhar seu cadáver, ele se levanta sorri e fala no ouvido do soldado que acreditou-se capaz de o matar:
“- Não. Não dê tréguas ao pesar. A liberdade é mais necessária e poderosa que o próprio ar. O ar sempre se contém em seus limites, faz o avião levantar vôo, manobrar e pousar, mas também destroe o recipiente se a pressão aumentar e esmaga a aeronave se o leme não funcionar. É muito bom ser livre, respeitando a própria liberdade meu rapaz. Foi tudo magnífico. Eu experimentei minha liberdade de voar e você a sua de atirar. Na ante sala da eternidade, ainda tomaremos juntos o chá. Até lá…”
Dizendo estas palavras, Tod desaparece silenciosamente sob o olhar curioso da multidão e retorna ao comando de seu avião.
Através de sua obra, por caminhos tortuosos, Raimond Spencer Jr. ensinou novamente a Hans que ele era livre e não fizera outra coisa na vida inteira senão… voar. Que sua humanidade poderia desaparecer neste, mas também poderia ressurgir em qualquer outro lugar. Que ele sempre foi exatamente o que quis ser e se não estava satisfeito, bastava mudar a rota de seu avião ou a maneira de o pilotar. Com isto, em pouco tempo o “barão” sentiu-se jovem novamente. Jovem o bastante para ousar. Primeiro venceu a depressão, depois o alcoolismo. Com paciência, economia e dedicação no início dos anos 60, Hans mudou-se para o Brasil e conseguiu voltar a voar. Voar pelo simples prazer de voar.
Pilotando um velho bimotor, durante quase oito anos, Hans cruzou em todas as direções os céus da Amazônia, transportando os sonhos e os devaneios dos seus passageiros. Naquele período, o mais feliz de sua breve existência, o avião foi seu quarto, o céu sua residência, a floresta sua sala de estar e os homens rudes, garimpeiros, índios e funcionários públicos os companheiros de viagem. A liberdade entrou novamente em ação, irrigando totalmente a vida do ex-às da Luftwaffe.
Ao cabo de sua jornada, depois de voar durante uma noite inteira sob forte tempestade, finalmente Hans foi abatido por uma pane elétrica ao nascer do sol. Sem temor ou ansiedade, ele voou serenamente para a morte. A floresta recebeu calorosamente seu corpo. A terra sepultou os restos de seu avião. No derradeiro instante, chamuscadas e envoltas pela fumaça, as folhas do livro que mudaram a vida do ex-oficial alemão foram espalhadas pelo vento iluminadas pelo clarão da explosão.
Enfim, o destino construído por ambos havia se cumprido, unindo-os e separando-os duas vezes, apenas para colocá-los novamente face a face diante do grande mistério na ante sala da criação. Em 12 de dezembro de 1941, Hans reverenciou com tiros o sepultamento inimigo desconhecido; em novembro de 1972, Raimond encerrou com palavras o cortejo fúnebre do amigo que nunca chegou a conhecer . O às inglês e o “barão” alemão estavam finalmente em paz. O primeiro não queria chegar e não chegou a St. Lô, o segundo conseguiu um novo retorno a Calais.
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