Sciense Magazine – Mudança climática acelera ciclo da chuva

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saudeciencia/39438-mudanca-climatica-acelera-ciclo-da-chuva.shtml

São Paulo, sexta-feira, 27 de abril de 2012Saúde + Ciência
Saúde + Ciência

Mudança climática acelera ciclo da chuva

Velocidade de evaporação e precipitação pode ficar até 24% maior até o fim deste século, diz pesquisa na ‘Science’
Estimativa vem de mudanças nos níveis de sal do mar; tanto secas quanto enchentes ficariam mais comuns

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE “CIÊNCIA+SAÚDE”

O ciclo natural que faz a água dos rios e oceanos evaporar, formar nuvens e cair na forma de chuva está ficando cada vez mais apressado, revela uma pesquisa feita por cientistas na Austrália e nos Estados Unidos.

A culpa é do aumento da temperatura média do planeta nos últimos anos, causado por ações humanas, como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento.

Uma atmosfera mais quente consegue armazenar e transportar muito mais vapor de água (veja quadro à dir.), o que explica o fenômeno.

Até o fim do século, o ciclo da água pode ficar até um quarto mais rápido, calcula a equipe, coordenada por Paul Durack, do Centro Australiano de Pesquisa do Tempo e do Clima, na Tasmânia.

A mudança ocorrida de 1950 até o ano 2000 é mais modesta: pouco menos de 5% de aceleração no ciclo para cerca de 0,5 grau Celsius de aumento na temperatura média do globo. Até o fim do século, o mais provável é que o aumento de temperatura supere os 2 graus Celsius.

Para chegar a essa conclusão, a equipe tomou como base as alterações na salinidade dos mares nesses 50 anos.

O raciocínio que baseia a medição é relativamente simples: quanto mais rápido o processo de evaporação ou de precipitação (ou seja, chuva), maior deve ser a variação no teor de sal nos mares, os quais, afinal de contas, recebem cerca de 80% da chuva que cai no nosso planeta.

De fato, o que os pesquisadores verificaram é consistente com um efeito apelidado de “os ricos ficam mais ricos”: regiões com mais concentração de sal ficam ainda mais salgadas, enquanto as com menor teor de sal ficam ainda mais “doces”.

Em terra firme, isso significa que áreas secas tendem a receber menos chuva ainda, enquanto regiões úmidas ganham tempestades cada vez mais intensas.

“Seria uma intensificação dos extremos climáticos”, diz o físico Paulo Artaxo, da USP, especialista em mudanças climáticas que analisou o novo estudo a pedido da Folha.

É algo que muita gente já previa em relação ao aquecimento global. “Mas esse talvez seja o primeiro trabalho a mostrar isso claramente nos dados”, diz Artaxo.

Trata-se, obviamente, de uma má notícia para qualquer região do globo que sofra com secas ou enchentes. Mas, levando em conta as mudanças da salinidade dos mares, as repercussões podem ser ainda mais profundas, afirma o físico.

“É importante lembrar que um dos fatores cruciais para o funcionamento das correntes marinhas, além da temperatura da água, é a variação de salinidade”, explica ele.

São correntes marinhas que esquentam a Europa Ocidental ou carregam nutrientes essenciais para a vida marinha rumo à costa do Peru. “Mudanças significativas nelas poderiam levar a colapsos na pesca, entre outras repercussões sociais e econômicas”, afirma Artaxo.

A pesquisa está na edição desta semana da revista americana “Science”.
American Association for the Advancement of Science

http://www.sciencemag.org/content/336/6080/455.abstract?sid=5ef0ad95-6549-4dd9-8476-fde3e6359b43

Paul Durack

Science 27 April 2012:
Vol. 336 no. 6080 pp. 455-458
DOI: 10.1126/science.1212222

    Report

Ocean Salinities Reveal Strong Global Water Cycle Intensification During 1950 to 2000

    Paul J. Durack1,2,3,4,*,
    Susan E. Wijffels1,3,
    Richard J. Matear1,3

+ Author Affiliations

    1Centre for Australian Weather and Climate Research, Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (CSIRO) Marine and Atmospheric Research, General Post Office (GPO) Box 1538, Hobart, Tasmania 7001, Australia.
    2Institute for Marine and Antarctic Studies, University of Tasmania, Private Bag 129, Hobart, Tasmania 7001, Australia.
    3Wealth from Oceans National Research Flagship, CSIRO, GPO Box 1538, Hobart, Tasmania 7001, Australia.
    4Program for Climate Model Diagnosis and Intercomparison, Lawrence Livermore National Laboratory, Mail Code L-103, 7000 East Avenue, Livermore, CA 94550, USA.

    ↵*To whom correspondence should be addressed. E-mail: [email protected]

Abstract

Fundamental thermodynamics and climate models suggest that dry regions will become drier and wet regions will become wetter in response to warming. Efforts to detect this long-term response in sparse surface observations of rainfall and evaporation remain ambiguous. We show that ocean salinity patterns express an identifiable fingerprint of an intensifying water cycle. Our 50-year observed global surface salinity changes, combined with changes from global climate models, present robust evidence of an intensified global water cycle at a rate of 8 ± 5% per degree of surface warming. This rate is double the response projected by current-generation climate models and suggests that a substantial (16 to 24%) intensification of the global water cycle will occur in a future 2° to 3° warmer world.

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