A segurança pública tornou-se uma das principais bandeiras da extrema-direita no Brasil, que instrumentaliza o medo da população diante da violência urbana. Décadas de abandono dessa pauta pelos progressistas abriram espaço para que o bolsonarismo e outros grupos de direita capitalizassem esse medo, influenciando votos e moldando a narrativa política.
Segundo o jurista Lênio Streck, em entrevista à TV GGN [confira abaixo], a saída é clara. O governo federal precisa assumir a questão, engajar a comunidade e mostrar que o Estado protege os cidadãos.
“Nós, progressistas, não cuidamos dessa pauta. Ela foi apropriada e usada politicamente. O crescimento das bancadas de direita foi proporcional ao medo disseminado. Hoje, segurança é uma questão real, porque quem mais sofre com a violência são os pobres, tanto pela polícia quanto pelos grupos criminosos”.
“O presidente precisa mostrar à população: ‘O Estado vai cuidar de você, você tem o direito de não ser assaltado’. É preciso engajar a comunidade e tirar essa pauta do colo da extrema-direita. Segurança virou central para a manutenção da democracia. ‘Segurança, estúpido!'”.
Lições da Lava Jato e dos outsiders
O jurista alerta que o cenário político segue uma lógica darwiniana. Em um ambiente hostil, os mais fortes dominam e os mais fracos precisam criar mecanismos de sobrevivência.
“Basta uma faísca, e o incêndio começa de novo. Isso não é só brasileiro. O México está repetindo o que aconteceu no Brasil em 2013. Ali estava o ovo da serpente: os outsiders entraram na política, demonizaram a política e criaram o ambiente propício para o lavajatismo, que engolfou tudo e se vitaminou ainda mais com o bolsonarismo”.
Streck critica a seletividade do direito penal no Brasil, afirmando que ele atua principalmente contra os “pés de chinelo”, enquanto ignora os crimes praticados por aqueles no andar de cima, onde está o verdadeiro problema.
“O Brasil é especialista em pegar o andar de baixo, mas há solidariedade com o andar de cima. Lava-Jato foi o maior exemplo de como não se faz: violar direitos fundamentais para combater crimes cria mais problema que solução”.
Desafios para a federalização das investigações
Durante o programa, Streck e Nassif ressaltaram que, no contexto do federalismo cooperativo, o combate à violência pode ser comprometido quando alguns governadores se aproximam de organizações criminosas ou adotam medidas de militarização das polícias. Eles citam como exemplo o recente massacre no Rio de Janeiro, que deixou 121 jovens mortos.
A criação de um ministério da segurança pública, ainda que simbólico, poderia ser estratégica, assim como o uso de mecanismos legais para federalizar investigações e replicar modelos de atuação como o do caso Marielle, mas tudo dependeria de vontade política e de um projeto de país.
Para 2026, o jurista defende um projeto de sobrevivência e estratégia de longo prazo, incluindo mobilização social e comunicação eficaz. “Se perder a eleição, tudo o que foi feito e falado não serve para nada. Precisamos de projetos claros, mobilização social e fiscalização cívica contínua”.
Streck rebate também a narrativa da polarização, construída para “justificar a si mesma”. “Tudo o que aconteceu foi resposta ao que foi feito contra a democracia. Houve uma tentativa de golpe de Estado, e isso não pode ser relativizado”.
“Há momentos em que as contingências históricas propiciam o surgimento do primeiro que está à disposição. Bolsonaro apareceu primeiro, e havia um imaginário propício para que alguém assim assumisse protagonismo”.
Assista ao programa completo abaixo:
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