Seis meses após primeira morte, pobreza impulsiona pandemia no Brasil

Além de serem os que dependem do trabalho fora de casa para garantir a sobrevivência, os brasileiros mais pobres são também os que menos têm acesso a testes

Foto: Mário Oliveira – SEMCOM
Seis meses após a primeira morte no Brasil, combate à covid esbarra em desigualdades
Do Brasil de Fato
Por Nara Lacerda

Há seis meses, no dia 12 de março, o Brasil registrava a primeira morte causada pela covid-19 em território nacional. Desde então, o total de óbitos no país é superior a 130 mil e tem peso considerável no cenário global da pandemia. Inicialmente confirmada entre pessoas de classe média que viajaram para o exterior, rapidamente a infecção pelo coronavírus se espalhou entre os mais pobres, impulsionada por desigualdades históricas.

Na semana em que o país completa um semestre de números crescentes de casos fatais, o distanciamento social está cada vez mais enfraquecido. No segunda-feira, feriado de 7 de setembro, imagens de estradas lotadas, praias e outras regiões com grandes aglomerações tomaram conta dos veículos de imprensa e das redes sociais. Mas a impossibilidade de distanciamento no Brasil está longe de ter relação apenas com a busca por lazer e está diretamente ligada à necessidade de trabalho.

“Há estudos que mostram que mais de 40% da população brasileira economicamente ativa são pessoas que precisam sair de de casa para conseguir o dinheiro do dia e da semana. Não têm carteira assinada, trabalham em trabalhos informais. A depender da região, esses números pioram. Mais da metade de população teve pouca opção de poder ficar em casa, de poder se cuidar.”, afirma o médico de família Aristóteles Cardona, da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, no podcast A Covid-19 na Semana.

Ainda no início de maio, especialistas alertavam que as condições de moradia, trabalho e deslocamento das populações mais pobres teriam peso significativo no avanço do coronavírus. Um levantamento geográfico feito pelo urbanista Bernardo Loureiro, publicado no Núcleo, mapeou o percentual de domicílios com mais de dois moradores por dormitório e evidenciou um padrão de disparidade entre centro e periferia. A conclusão foi de que o isolamento fica impossibilitado nesse cenário.

Dois meses depois, uma pesquisa encomendada pelo Ministério da Saúde confirmava que o alerta estava certo: a população mais pobre tem o dobro de chances de ser infectada. O estudo, feito em parceria com a Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), indicou que 26% dos participantes disseram sair de casa todos os dias e mais de 54% relataram ir para a rua para atividades essenciais.

Além de serem os que mais dependem do trabalho fora de casa para garantir a sobrevivência, os brasileiros mais pobres são também os que menos têm acesso a testes para saber se estão ou não infectados pelo coronavírus. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia  e Estatística (IBGE), até julho 13,3 milhões de brasileiros fizeram algum tipo de exame para o coronavírus. Apenas 3,5% dos que ganham menos fizeram o exame. Já entre os que têm maior renda, o índice sobe para 14%.

A covid também mata mais entre a população que depende do transporte público. Na cidade de São Paulo, a maior parte dos casos fatais está entre pessoas que vivem em regiões periféricas e não têm acesso a veículo particular. Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) indicou que os moradores dos distritos mais pobres, que não puderam se isolar e continuaram precisando usar o sistema coletivo de deslocamento são as vítimas mais frequentes.

Segundo o IBGE, mais de 80% da população que teve sintomas da covid-19 e buscou ajuda, procurou o Sistema Único de Saúde (SUS). Para Aristóteles Cardona, esse é mais um dado que reforça a importância da atuação do poder público. “Voltou com força essa ideia de que o estado é ineficiente, de que a solução está no setor privado. Essa pandemia serviu para gente ver a importância de saber que determinados investimentos não vão partir do setor privado, dependem, essencialmente, de investimento público.”

relatório Poder, Lucros e Pandemia, produzido pela organização Oxfam e divulgado nesta semana, mostrou que a pandemia aumentou a fortuna dos 42 únicos bilionários brasileiros em US$ 34 bilhões (mais de R$ 180 bilhões). Para uma comparação simples, o valor gasto pelo governo federal com auxílio emergencial até julho é de R$ 166,9 bilhões. Ou seja, o valor acumulado super ricos do país é suficiente para pagar auxílio um mês de benefício para toda a população brasileira.

 

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