
A lei antimonopólio nos Estados Unidos, de 1912, foi feita especialmente para desmantelar o império de Rockfeller (Standar Oil) sob o fundamento legítimo de proteger a sociedade da exploração monopolista na área do petróleo e de seus derivados. É claro que o monopólio nessa área é muito menos pernicioso do que o monopólio na área da informação e das ideias. “Aqui se trata do monopólio das almas”, disse a Simplício o professor Galileu, enquanto soltava sua pipa na Praia do Flamengo.
– Mas por que o senhor está falando disso?, perguntaram simultaneamente Simplício e Angeline.
– Por causa da Lei de Meios na Argentina que, agora legitimada pela Justiça, começa a desmantelar o império midiático do “Clarín”. Vocês falam da Globo aqui no Brasil. Em termos de monopolização das comunicações, Globo é fichinha perto do gigantesco conglomerado Clarín, que entre jornais, televisão, rádios, revistas, tem centenas de órgãos de comunicação. A Globo fez uma coisa inteligente para mascarar seu monopólio: tem uma rede de tevês associadas, “independentes”. Poucos canais são integralmente dela mesma. Além disso, tem concorrentes na TV aberta. E está perdendo audiência para as TVs por assinatura.
– Mas não seria o caso de se impedir ao menos que dono de jornal fosse ao mesmo tempo dono de televisão a fim de impedir que fizessem conluios midiáticos?, quis saber Angeline.
– Pensei assim no passado. Hoje tenho minhas dúvidas. No passado, o Globo iniciou o processo de destruição do Jornal do Brasil não porque fosse melhor que ele editorialmente (era muito pior), mas porque a televisão lhe dava suporte no anúncio de classificados, que tinha sido tradicionalmente uma fonte segura de receita à vista do JB. Mas olha: hoje o jornal impresso está a caminho do desaparecimento em todo mundo por causa da internet. Ao final das conas, o jornal impresso acaba sendo um peso morto para a televisão.
– Então não dá para fazer nada?, reagiu Angeline revoltada.
– É claro que dá. Na Argentina a reação do Governo foi proporcional ao desafio: o Clarín ocupava praticamente todo o espaço da comunicação e inibia a concorrência, inclusive privada. Aqui é preciso fazer coisa mais soft. Por exemplo, voltar ao esquema de apoio publicitário a meios de comunicação médios e pequenos, no Governo Lula, evitando concentrá-lo nos grandes. Aliás, não entendo por que o Governo dá tanto dinheiro para a Globo se a Globo não perde uma única oportunidade de dar porrada no Governo!
– Acho que o Governo tem medo de tirar o dinheiro dos grandes meios e levar ainda mais porrada, ponderou Angeline, sempre provocativa.
– Ah, não pode ser isso. É impossível dar mais porrada no Governo do que a Globo já dá. Aliás, costuma-se dizer que em política não há espaço vago: diante da incapacidade absoluta dos partidos de oposição oficial fazerem uma crítica consistente ao Governo Dilma, a Globo funciona como partido de oposição. É assim que está lançando Marina como candidata própria à Presidência, na certeza de que, uma vez eleita, a moça, entretida com a Amazônia, deixe a política econômica do sul na mão dos financistas e da grande mídia.
Simplício consultou Angeline e escreveu na agenda vermelha: “Ou tiramos o dinheiro público da grande mídia, ou a grande mídia usará o dinheiro público para derrubar o governo.”
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