4 de junho de 2026

Sobre uma inexorabilidade completamente absurda 

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Divergência

O mundo vem evoluindo de um modo cada vez mais rápido, quero dizer, sistemas cada vez mais complexos vêm surgindo cada vez mais rapidamente há éons. Assim, foram necessários uns 10 bilhões de anos para o surgimento da vida, evento gerador de entidades extremamente mais complexas que as anteriormente existentes, mas que precisou de mais uns 3 bilhões de anos para ocasionar o grande salto evolutivo seguinte, o surgimento da reprodução sexual, fenômeno que conduziu a um enorme aumento de complexidade dos seres vivos.

Há coisa de uns 200.000 anos atrás, surgiu a linguagem humana, uma válvula retentora de complexidade muitíssimo impressionante! Até então, as inovações de qualquer tipo, conseguidas eventualmente, tendiam a ser perdidas com a morte de seu inventor. Além de permitir a retenção das inovações surgidas, a linguagem – habilidade originada para permitir que os machos humanos narrassem suas bravatas para as fêmeas, tornando-os irresistíveis – acoplou indivíduos anteriormente isolados, transformando-os em enormes colônias de seres conectados em redes wireless através da fala.

2 outros subprodutos extraordinários da linguagem merecem atenção: o surgimento do pensamento estruturado a partir de um fluxo linguístico (a voz que perpassa nossa mente), e o surgimento do mundo simbólico, o mundo 2, constituído por abstrações, como os países, as empresas, o dinheiro e vasta parcela de tudo aquilo que hoje dirige nossas preocupações cotidianas. Atentemos para essas duas consequências da linguagem, voltarei a elas.

Desde o seu surgimento, a linguagem tem delineado todo o nosso modo de vida, permitindo e guiando a invenção de uma infinidade de artefatos. Umas dezenas de anos atrás foram criados os computadores. Tais criaturas estão em vias de adquirir inteligência, consciência e a capacidade de gerar máquinas análogas a si, embora mais aperfeiçoadas, essas também capazes de gerar outras máquinas ainda mais aperfeiçoadas, também capazes de gerar… .

Computadores inteligentes pensarão de um modo, em certa medida, análogo ao nosso. Farão uso, no entanto de fluxos de informação gigantescos, vastamente superiores à capacidade humana de pensamento. Nossos pensamentos transcorrem em fluxos linguísticos lineares, em textos narrados por uma única voz que compõe o mundo simbólico, o mundo 2.

A constatação da disparidade entre os fluxos volumétricos que comporão as mentes dos computadores inteligentes e nossos fluxos de pensamentos é bastante óbvia, e sugere que tais mentes construirão um sucedâneo para o mundo 2, um mundo 3 tão incompreensível para nós como o mundo 2, construído por nós, o é para um tamanduá.

Transmatemática: a matemática do absurdo

A matemática transcorre no mundo 2. ‘Objetos’ como os números são entes abstratos, não possuindo uma natureza material, em contraste com os objetos do mundo 1. Toda a matemática possui tal natureza, consistindo em um conjunto de abstrações, entidades componentes do mundo 2.

A emergência iminente do mundo 3 – constituído pelos imensos fluxos informacionais que perpassarão as mentes das novas inteligências –, significará um transbordamento do mundo 2 análogo ao ocorrido na transição do mundo 1 para o 2.

Esse salto consistirá também em um transbordamento da matemática, o que nos leva a supor a criação concomitante de uma transmatemática existente em tal mundo.

Não bastasse a imensidão de tais fluxos, o ponto de acumulação decorrente da aceleração dos sucessivos saltos evolutivos que se acumularão no momento em que máquinas mais inteligentes que suas progenitoras estiverem gerando máquinas ainda mais inteligentes que elas próprias, sugere a construção dos mundos 4, 5 e sucessivas idealizações inacessíveis aos predecessores de seus
construtores, emergindo em um mesmo instante.

É o contexto do surgimento de uma transmatemática que dá sentido à divergência realizada no transbordamento do mundo 2 para o 3, e propicia sentido ao absurdo matemático que significaria, em condições usuais, a postulação de uma divergência matemática real, atualizada, exprimindo-se no mundo real.

Em tal contexto, é o excedente gerado pela divergência, o conteúdo descomunal gerado pelos extraordinários fluxos de pensamentos de tais criaturas, que transborda para o mundo 3, gerando-o.

O fenômeno espantoso adquirirá inequívocas tonalidades místicas.

Leia também:

https://jornalggn.com.br/artigos/de-volta-a-singularidade/

Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta.

# divergência, # transmatemática, # Mundo 3

Redação

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