4 de junho de 2026

Tecnologia e desespero

Há alguns dias teci alguns comentários sobre o filme Ex-Machina http://www.jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/ex-machina-por-fabio-de-oliveira-ribeiro, filme comparado a Blade Runner por Matheus Mans Dametto. Os dois filmes realmente tem algo em comum: o desespero. Os andróides Nexus-6 liderados por Roy querem protelar a morte, Ava quer conseguir sua liberdade.

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Desespero é um sentimento que as inovações tecnologias causam nos seres humanos. Ele é a mola mestra de toca corrida armamentista. É também algo bem conhecido entre os advogados mais velhos, que lutam contra o processo digital porque não conseguem se adaptar às inovações tecnológicas.

Este tema tem sido estudado por vários especialistas, pois “Confusões inumeráveis e um profundo sentimento de desespero emergem invariavelmente nos períodos de grandes transições tecnológicas e culturais.” http://www.psicologia.pt/artigos/imprimir_l.php?codigo=TL0002. Desespero e vício estão intimamente relacionados “Cuidado! Você está se tornando ou já é um escravo da tecnologia. Recente pesquisa realizada na Grã-Bretanha mostrou que pessoas que saem do trabalho e continuam usando smartphones, tablets ounotebooks estão prejudicando a saúde e se tornando verdadeiras ‘escravas’ digitais. A pesquisa, que entrevistou mais de 2 mil pessoas, constatou que 75% continuam trabalhando em casa, em média por mais duas horas, para tentar colocar as tarefas atrasadas em dia.” http://www.acaciapsi.com.br/nao-se-torne-escravo-da-tecnologia/. A reação das pessoas à interrupção do serviço de Whatsapp comprova esta relação http://tecnologia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/12/16/desespero-pela-falta-de-whatsapp-ja-domina-a-rede-veja-memes.htm.

O que chamou a atenção para a questão foi um pequeno incidente que presenciei na agência do Bradesco da Antonio Agu, Centro, Osasco, hoje por volta das 9 horas. Fui pagar algumas contas e enquanto tentava encontrar uma máquina que fizesse a leitura dos códigos de barras, escutei um senhor praguejando. Ele também ia de maquia em máquina falando repetindo “Maldito banco, não consigo fazer meu saque. Maldito banco, é por isto que está tão rico. Fica roubando as pessoas.”

O cidadão em questão era idoso e estava razoavelmente bem vestido. Ele simplesmente não conseguia sacar o dinheiro e, por causa do horário. Presumi se tratar de um aposentado, mas não ousei oferecer-lhe assistência porque ele estava visivelmente alterado. Sai da agência, mas não consegui deixar de imaginar o que ocorreria caso alguém chamasse a PM, cuja violência nestes casos é bem conhecida http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/05/04/video-mostra-policial-agredindo-mulher-pm-diz-que-soldado-foi-exonerado.htm.

Também me chamou a atenção a solidão absoluta que aquele senhor parecia estar sentindo. Ele praguejava, mas as máquinas não eram capazes de lhe dar atenção. Não havia nenhum funcionário na agência para atendê-lo. O Banco Central, órgão regulador das instituições bancárias, está tão distante dos cidadãos que a esmagadora maioria dos brasileiros nem mesmo sabe que podem reclamar do atendimento que recebem ou não recebem nas agências de seus bancos.

O desespero neste caso não tem origem apenas tecnológica. Ele é socialmente programado. Os bancos lucram mais disponibilizando mais caixas eletrônicos e contratando menos funcionários. O Banco Central não faz absolutamente nada porque ninguém sabe que pode reclamar. E os que sabem se resignam. Em Brasília, os políticos fazem de conta que o sistema bancário funciona maravilhosamente, porque eles raramente vão pessoalmente às agências bancárias. Exceto quanto abrem contas no exterior com dinheiro sujo (como ocorreu no caso do presidente da Câmara dos Deputados).

O que fazer? Esta é uma pergunta para a qual não tenho resposta. 

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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