
Durante a Ditadura Militar, o maior problema jornalístico e político brasileiro era a censura. Naquele período, o consenso era fabricado com exclusão burocrática (e as vezes violenta) das opiniões consideradas perigosas, divergentes, inadequadas ou descartáveis. Quando não podiam ganhar versões consideradas aceitáveis para os padrões da época, as notícias eram simplesmente suprimidas dos jornais e dos telejornais. A ignorância e a fragilização da sociedade civil brasileira permitiu aos tiranos fardados impor um modelo econômico concentrador de renda que acabou sendo estraçalhado pelo endividamento externo decorrente da crise do petróleo em 1973.
Quando a ditadura chegou ao fim, a liberdade vigiada pela transição “lenta, gradual e segura” foi comemorada. Nesse período, os pensadores brasileiros começaram a discutir quais seriam os problemas da imprensa no futuro. Um deles afirmou que:
“…a liberalização da divulgação em nada implica, necessariamente, na ampliação de alternativas. Elas podem ser geradas e geridas por pequenos grupos econômicos e políticos, difusos mas concretos na sociedade. A democratização dos meios de comunicação em massa insere-se no contexto da democratização da própria sociedade. Um subsistema não tem obviamente condições de transformar sozinho todo o sistema. O caráter dialogal da democracia apenas incluirá a mídia no seu conjunto. Basta que se observem as etapas e graus de mediação perpassando as fibras sociais: interesses de anunciantes e eleitores, com frequência articulados por agências de publicidade, interligam-se conforme os níveis econômicos e preferenciais políticas. As relativamente pequenas tiragens de diários e semanários demonstram sua tendência concentradora da classe média para cima.” (Brasil, sociedade e democracia, Hélio Jaguaribe e outros autores, José Olímpio editora, Rio de Janeiro, 1985, p. 391, texto de Vamireh Chacon)
Um pouco adiante, o mesmo autor afirma que:
“O sentido democrático do diálogo só pode ocorrer num quadro geral, a imprensa e os mídia eletrônicos se correlacionando no jogo de forças da sociedade. Sem isto implicar exclusão de outros meios de comunicação, mais antigos.” (Brasil, sociedade e democracia, Hélio Jaguaribe e outros autores, José Olímpio editora, Rio de Janeiro, 1985, p. 391, texto de Vamireh Chacon)
Fruto de intenso debate, a CF/88 consagrou diversas regras que tutelam a liberdade de imprensa (pluralismo político, art. 1º, V; construção de uma sociedade livre, art. 3º, I; prevalência dos direitos humanos e, portanto, garantia do direito à informação, art. 4º, II; liberdade de imprensa, proibição da censura, restrição da propaganda de tabaco, bebidas, agrotóxicos, medicamentos e terapias, limitações à propriedade de meios de comunicação, preferência da programação educativa, artística, cultural e informativa nas emissoras de rádio e televisão, etc…; arts. 220 e seguintes da CF/88). A Constituição também proibiu monopólios na área de comunicação (art. 220, § 5º), mas essa regra nunca chegou a entrar em vigor.
Durante as décadas que se seguiram à promulgação da CF/88 e antecederam a explosão da internet no Brasil, três fenômenos corromperam os princípios constitucionais da comunicação social idealizado pelos constituintes. O primeiro já foi mencionado (a preservação da concentração dos meios de comunicação nas mãos de algumas famílias), o segundo foi a colonização do rádio pelos evangélicos e o terceiro foi a expansão do que podemos chamar de “populismo policial jornalístico” nas redes de TV, cuja principal característica é a superficialidade https://www5.usp.br/35688/jornalismo-policial-na-tv-aborda-violencia-superficialmente/ e até a bestialidade https://jornalggn.com.br/midia/mpf-entra-com-acao-civil-por-violacoes-de-direitos-no-programa-cidade-alerta/.
Ao que parece, a esquerda acreditou que a internet conseguiria reorganizar o campo jornalístico e político de duas maneiras: reduzindo o poder econômico e simbólico das empresas de comunicação; possibilitando a diversificação do mercado de opiniões. De maneira geral, podemos dizer que essas duas coisas realmente aconteceram. Algo mais, porém, também ocorreu. A união editorial das empresas de comunicação para derrubar Dilma Rousseff e a subsequente eleição de Jair Bolsonaro demonstraram que os fundamentos do jogo democrático foram reformulados de uma maneira que não foi antecipada ou compreendida pela esquerda.
Num mundo em que “verdades alternativas” podem ser construídas e reproduzidas à exaustão até ganhar mais e mais adeptos dentro das bolhas virtuais que são ignoradas pelos jornalistas, o debate em torno da liberdade de imprensa e da democratização dos meios se tornou irrelevante. A distorção da realidade em razão do compartilhamento de pós-verdades e Fake News na internet tem o poder de provocar tragédias (movimento antivacina, automutilação de adolescentes, etc..) e até resultados eleitorais (eleição de Donald Trump nos EUA e de Jair Bolsonaro no Brasil).
Se duranta a Ditadura Militar o problema era censura (que delimitava o campo político mediante a exclusão de notícias e opiniões indesejadas), o problema que nós estamos vivendo no momento é outro: a difusão descontrolada de opiniões que podem ser consideradas perigosas, inadequadas, descartáveis e até criminosas. Acusado de estupro, o jogador Neymar não tive dúvidas: ele divulgou fotos íntimas da suposta vítima. A reação dele foi considerada potencialmente lesiva https://extra.globo.com/esporte/neymar-sera-investigado-por-divulgar-fotos-intimas-de-mulher-que-acusa-de-estupro-23712716.html.
A inexistência de qualquer barreira entre a minha consciência (no momento em que estou digitando este texto) e as consciências dos leitores que irão ler e eventualmente compartilhar o respectivo link me permite dizer qualquer coisa. Sendo assim, a questão que se coloca para mim não é diferente daquela que se apresenta diante de qualquer usuário de internet: O que eu devo fazer? Devo pesquisar o assunto que me interessou ou basta escrever qualquer bobagem para agradar o respeitável público?
Não seria melhor substituir a expressão respeitável público por outra? No mundo em que fomos mergulhados o público pode ser e de fato é deliberadamente desrespeitado na internet, inclusive e principalmente por empresas de Big Tech e por políticos que fazem campanhas massivas de Fake News para evitar o debate racional durante as eleições.
Desrespeitável público, cuidado! Estamos todos embriagados com a suposta liberdade que a internet nos proporcionou. Ninguém pode dirigir bêbado. Quem resolve nadar embriagado corre o risco de morrer afogado. A internet tem o poder de embotar nossos sentimentos, reduzir nossa empatia e obliterar nossa capacidade de raciocinar. Entretanto, ninguém precisa desligar o computador.
O cansaço precoce da civilização conectada às redes de computadores pode ser explicado “…como uma consequência natural dos modelos extrativistas de dados adotados pelos provedores das plataformas: eles que projetaram os sistemas para nos distrair o máximo, pois é assim que maximizam a quantidade de vezes que clicamos nos sites – e, portanto, fornecemos nossos dados, Eles continuam escavando a nossa psique tal como as empresas de petróleo escavam o solo; e os dados seguem jorrando de nossos reservatórios emocionais.” (Big Tech – A ascensão dos dados e a morte da política, Evgeny Morozov, Ubu Editora, São Paulo, 2018, p. 166)
O que nós precisamos fazer é desligar o automatismo quando mergulhamos nas redes sociais. Nossas reações no mundo real geralmente são moduladas pela empatia, calculadas de maneira pragmática, orientadas pela ciência e limitadas pelo temor de suportar consequências indesejadas decorrentes da violação das regras da convivência pacífica. Tudo aquilo que nos proporciona vidas tranquilas fora da internet pode tornar nossa experiência virtual mais agradável, produtiva e benéfica.
Aos jornalistas um pedido. Mergulhem fundo nas bolhas virtuais, não para participar delas ou alimentá-las e sim para revelar ao desrespeitável público o perigo verdadeiro que elas representam. As Fake News e pós-verdades não devem ser ignoradas, pois elas “… circulam mais em meio digital porque se adequam muito bem aos modelos de negócio baseados em cliques que foram aperfeiçoados pelos gigantes extrativistas de dados.” (Big Tech – A ascensão dos dados e a morte da política, Evgeny Morozov, Ubu Editora, São Paulo, 2018, p. 169).
Verdades factuais que eram sólidas em 1989 estão desmanchando velozmente na internet em 2019. O mundo em que nós vivemos está sendo reorganizado por empresas como o Facebook, Google, Twitter, etc…
O suicídio do MC Reaça sugere que não estamos vivendo num mundo melhor. Assim que foi noticiada, a morte dele produziu uma avalanche de lamentações e recriminações. Entretanto, ninguém se deu ao trabalho de investigar as redes sociais para responder uma pergunta importante: Como o Facebook, Google, Twitter etc… ajudaram o MC Reaça a se tornar um discípulo do clã Bolsonaro e a tirar a própria vida?
“Enquanto a narrativa cultural dominante considerar a tecnologia como a arma dos fracos e dos pobres, e não como a arma apontada aos fracos e pobres, há pouca esperança de que fenômenos como o extrativismo de dados sejam realmente levados em conta.” (Big Tech – A ascensão dos dados e a morte da política, Evgeny Morozov, Ubu Editora, São Paulo, 2018, p. 173)
Os espaços que foram colonizados pela religião e pela violência policial no rádio e na TV devem ser disputados, questionados, deslegitimados e no limite combatidos no Judiciário. Caso contrário, a única força política capaz de orientar o curso de uma sociedade brasileira cada vez mais fragmentada e fragilizada por causa da internet será aquela concentrada nas mãos do pastor da esquina, do bispo do Estado e do dono da trademark evangélica no Brasil.
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