A esquerda está distante do povo pobre, por Vitor Fernandes

A esquerda está distante do povo pobre, por Vitor Fernandes

A esquerda precisa fazer uma autocrítica. A crítica serve para melhorá-la e dialogar com nossos pares.

A esquerda tem erros recorrentes ao longo de nossa História.

 A esquerda fala para dentro, para si mesma. Os diversos grupos e partidos atacam mais um ao outros que a direita muitas vezes. Se dirigem muito mais aos próprios esquerdistas que à imensa maioria da população, que sequer sabe ao certo o que é “esquerda” e “direita”.

Parece que o tempo todo, os inúmeros grupos de esquerda (além dos partidos) estão querendo “roubar” a militância dos outros partidos de esquerda, em vez de se direcionar a uma massa enorme de pessoas não partidarizadas ou pouco politizadas.

 A esquerda fala difícil. Sim, precisamos reconhecer, que a maioria dos militantes da esquerda, é de classe média, intelectualizada, e falamos difícil demais, usamos palavras que para nós são comuns, mas que os pobres não conhecem muitas vezes. Observo isso nas falas de ícones da esquerda.

O Marcelo Freixo, agora deputado federal e candidato à prefeito do Rio de Janeiro, pelo PSOL, no debate da rede globo, nas eleições de 2016, para prefeito, disse que faria um governo “paritário”, sem explicar o que era. Será que o eleitor médio brasileiro, com nove ou dez anos de estudo sabe o que é “paritário”?

E nesse quesito o Lula é o melhor! Fala simples e muitíssimo bem! Tem um grande mérito por isso. Precisamos aprender com ele.

Existe também uma incompreensão da estrutura de classes no Brasil. Se fala em “classe trabalhadora” ou até “proletariado”, como se isso fosse uma coisa só. Já em meados do século XIX, Marx já identificava na estrutura de classes da Europa uma divisão entre proletários e o que ele chamava de “lúmpem proletários”, aqueles que sequer conseguiam vender sua força de trabalho e ter um emprego, que eram obviamente mais pobres que os proletários.

Dentro da burguesia, identificou a divisão de grande e pequena burguesia, para distinguir, os grandes proprietários dos pequenos e também dos trabalhadores altamente qualificados que tinham bons salários.

Se há 150 anos já havia essa distinção, imagine hoje, com o superfracionamento da classe trabalhadora que temos hoje.

Hoje podemos ter um trabalhador ganhando mais que um pequeno comerciante.

Um trabalhador pode ser empregado formalmente (CLT) e outro, não. Um camelô, não está na mesma condição que um funcionário público que ganhe R$5.000, e tem estabilidade de emprego, proteção social, etc. E boa parte da esquerda falando em “classe trabalhadora” como se fosse única… e não entende porque um cara pobre ou muito pobre não participa dos atos de protesto da esquerda. A maioria de nossas pautas está distante dos mais pobres de verdade.

Somos pouco propositivos. Nos posicionamos contra quase tudo. Fazemos notas de repúdio muito bem escritas, mas não propomos quase nada. Uma parte da esquerda é porque acredita que tudo virá depois da revolução comunista, então tudo depende disso. Aí, obviamente, não se propõe nada para um assunto que exija urgência como a segurança pública, por exemplo.

Outra parte da esquerda, a não-revolucionária, que é a maior, faz críticas constantemente, mas as propostas são vagas, como “segurança pública com cidadania”, e as pessoas querem saber o que vão fazer amanhã! A esquerda não está sabendo lidar com o imediatismo do povo. E esse imediatismo é plenamente compreensível.

Conhecemos pouco do Brasil e sua formação social. Nossa formação acadêmica é de autores europeus em sua maioria. Nos falta Florestan Fernandes! Não entendemos como os pobres votam em seus pastores de direita e alguns preferem chamá-los de “burros” em vez de fazer o esforço intelectual de entender seu complexo contexto.

Não entendemos como parte da população dos subúrbios do Rio de Janeiro, por exemplo, apoia as milícias quando estas “limpam” a área e impõe uma disciplina no local.

A direita se aproveita muito bem do conservadorismo do povo brasileiro e a esquerda, prefere enfrentar isso simplesmente, em vez de tentar entender e se flexibilizar um pouco. Até porque a maioria da militância está longe das periferias. Se concentra mais nas áreas de classe média da cidade. Precisamos estar mais em contato com os realmente pobres.

Quando faço essas críticas não significa necessariamente que eu tenha soluções claras. Mas quero sinalizar para a necessidade de apresentarmos soluções de curto, médio e longo prazo, ou continuaremos a brigar entre nós, feito loucos, enquanto a direita governa sozinha, “passando o rodo” nos nossos direitos sociais conquistado ao longo de décadas.

Lembro de uma palestra na UFF (Universidade Federal Fluminense) em que o palestrante relatava que comunistas brasileiros foram à China nos anos 1960 ou 1970 fazer um curso de formação de revolucionários comunistas e ao final, o presidente Mao Tse Tung foi ao encerramento do curso um deles teve a oportunidade de falar com o Mao. Ele perguntou ao Mao, que lição ele poderia levar para fazer uma revolução no Brasil e Mao, sabiamente, respondeu: “Esqueça tudo que aprendeu aqui. Volte para o Brasil, beba muita caipirinha, coma muita feijoada e encontre o seu caminho”. Precisamos aprender com líderes como Mao Tse Tung.

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