Ainda sobre gozo e escravismo no Brasil, por Noêmia Crespo

Enviado por Walter Serralheiro

Ainda sobre gozo e escravismo no Brasil

por Noêmia Crespo

Quando foram libertos os escravos no Brasil, o escravismo já estava superado mundialmente pelo trabalho assalariado, mais produtivo e lucrativo.

O caso Visconde de Mauá é emblemático na demostração dessa tese, para o contexto brasileiro.

Contudo, os senhores de escravos no Brasil resistiram fortemente às pressões em prol da Abolição – tanto que fomos o último país ocidental a conquistá-la.

Nossa elite sempre foi uma “vanguarda do atraso”.

 

Os donos de escravos tinham investido capital na compra da escravaria. Abrir mão do escravismo significaria consentir na perda desse investimento, e rearranjar todo o processo produtivo.

Quase todos eles preferiram não trocar o certo, o já sabido, pelo duvidoso.

Perderam, no entanto, muito mais dinheiro com essa recusa à perda. Condenaram-se à decadência e à ruína, derrotados na competição nacional e internacional pelos empresários que já empregavam trabalho assalariado.

Historiadores encontrarão explicações “racionais” para essa recusa coletiva à mudança por parte dos senhores de escravos brasileiros.

Mas um psicanalista não pode deixar de interrogar um elemento irredutível aos paradigmas da racionalidade clássica: a questão do gozo em causa.

O que mais se encontra na clínica? Sujeitos que resistem a abandonar um regime de gozo que os conduz à ruína. Mesmo, em alguns casos, sabendo que é disso que se trata, e que é insustentável.

As chamadas adicções são um bom exemplo disso.

 

Hoje, vemos os ricos e instruídos brasileiros declararem intenção majoritária de voto num candidato fascista – cuja indigência cognitiva, desequilíbrio mental e bestialidade são auto-evidentes.

Esses ricos e instruídos parecem adictos à desigualdade abjeta que, em nosso país, sucedeu o cativeiro escravista pós Abolição. Parecem preferir qualquer coisa à abolição do cativeiro social.

Mesmo que essa “qualquer coisa” seja a própria ruína.

Os ricos e instruídos brasileiros parecem viciados na fartura de criadagem barata, servil, disponível.

(Isso pode acontecer também com alguns brasileiros não tão ricos e instruídos).

Vêem na sujeição coletiva de outros menos ricos e instruídos um patrimônio inalienável.

Parecem considerar como seu bem mais precioso a existência de um degrau inferior na pirâmide de renda e riqueza, mais extenso que o seu próprio degrau; qualquer redução na distância que separa esses degraus um do outro é vivida como ameaça à ordem do mundo – uma expropriação violenta.

Suportaram um período de amenização ao cativeiro social enquanto tiveram compensações: toda uma década de bonança econômica. Os lucros e o consumo durante esses bons tempos teriam funcionado como droga substitutiva; teriam anestesiado o mal-estar dos ricos e menos pobres com o “empoderamento” dos subalternos

Mas o primeiro sinal de crise, a primeira experiência de desaceleração nos lucros, e pronto: os adictos em criadagem barata e servil estavam prontos para demonizar o modelo de desenvolvimento inclusivo.

Aquilo não podia ser saudável. Só podia estar baseado em roubalheira!

Não foi difícil, para a mídia hegemônica, vender então a narrativa de que “os políticos” promotores de inclusão social eram ladrões, todos eles. Inventores, monopolistas ou campeões em corrupção!

E eram ladrões, de fato! Ladrões de privilégios, distinção e exclusividade.

Ladrões da prerrogativa de manter todo um estrato social, os degraus inferiores da pirâmide, na condição permanente de objeto. Como os escravos de ontem. “Livres do açoite da senzala/ Presos à miséria da favela”!

 

O poder, a distinção, a “superioridade”, são excelentes vestimentas fálicas para encobrir nossa castração, nossa miséria, nosso desamparo fundamental.

Dispor de mucamas e mucamos que nos olhem e tratem como senhores, ratifiquem nossa excelência e fidalguia, nossa excepcionalidade – como abrir mão dessa droga alucinógena?

Ora, se é este o caso, trata-se de algo muito difícil de admitir. Como diria Fernando Pessoa, “Quem há neste largo mundo que me confesse que um dia foi vil?”

Quem seria capaz de enunciar, em primeira pessoa, sua fixação libidinal em manter seres humanos à disposição, na condição permanente de objetos, para fins de mais de gozar?

 

Ora, para extrair satisfação desse “feliz estado de coisas”, nem é preciso que se tenha vocação para o sadismo em versões desinibidas. Nem é preciso gostar de humilhar e vilipendiar mulheres nuas em público, ao modo do proprietário do bordel Bahamas – um verdadeiro patriota e Homem de Bem.

Pode-se extrair mais de gozar tomando os subalternos como objetos de tutela, caridade, até amor. E mesmo sentir alegria verdadeira quando alguns deles se afirmam como sujeitos de mesmo “nível”, pela ascensão social.

Afinal, tais exceções são fundamentais para sustentar o mito estratégico da meritocracia.

Se alguns (desde que sejam segura minoria) se libertam do cativeiro social exclusivamente em função dos próprios méritos, daí se infere – numa evidente falácia lógica – que os demais são os únicos responsáveis pelo próprio fracasso… “merecendo” ser mantidos na condição permanente de objetos.

Que conveniente, esta ordem do mundo!

Nada melhor para legitimar o vício em privilégios e desigualdade.

Nada melhor para racionalizar a fixação libidinal em dispor de multidões de seres humanos, na condição permanente de objetos, para fins de mais de gozar.

 

Em 2016, sofremos um Golpe de Estado no Brasil.

A demolição do Estado Democrático de Direito, a restauração brutal das desigualdades, a precarização do trabalho, o desemprego renitente, trouxeram de volta a boa e velha fartura de mucamas e mucamos baratos e docilizados – para uso e abuso. Como é eficiente o aguilhão da fome para reconduzir insubmissos a seu Devido Lugar!

Mas o Golpe também trouxe deterioração da economia, violência galopante e miséria feia espalhada pelas ruas. A concentração de renda e riqueza empobrece quase todos, em favor de muito poucos.

Vários empobrecidos se felicitam com a restauração do cativeiro social, mas não conseguem mais prosperar como antes. Creditam a estagnação econômica aos governos pré-Golpe (que teriam “destruído a economia”).

Cansados de esperar uma recuperação econômica que não chega, decidem trocar o Brasil por países mais pujantes e civilizados.

No estrangeiro, encontram segurança e paz. Mas resistem a abandonar sua prerrogativa de tratar os outros como objeto.

Muitos são grosseiros com funcionários e garçons; furam filas; trapaceiam. Cometem pequenas ilicitudes; exibem falta de “civilidade”, um “comportamento predatório”.

Mudam-se para o exterior alegando não suportar mais a violência e a “corrupção” do Brasil… como se não fossem parte do problema.

Têm dificuldade em abandonar a arrogância dos que podem “mais” e não precisam se submeter aos limites da lei tanto quanto os outros.

Querem as vantagens de viver numa comunidade civilizada… sem abrir mão de circuitos primitivos de gozo fixados ao modelo escravista, predatório por essência.

Querem o impossível. Não o terão – nem aqui, nem alhures.

Noêmia Crespo – psicanalista, Doutorado em Psicologia (Psicologia Clínica) pela PUC Rio, Professor Adjunto da UFES

 

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3 comentários

  1. Sinhas e sinhôs

    Esse assunto é um dos mais debatidos nas rodas sociais quando se fala de politica e dos rumos do Pais. Mas parece que apesar da maioria concordar, essa mesma maioria se acostumou com esses mimos e privilégios… na costas de um Pais empobrecido e violento enquanto assim continuar sua existência.

  2. bom post.

    Muito bem resumido o mpmento atual. Muito claro para quem sabe pensar.

    Nunca vamos superar a herança maldita? Já houve momentos, durnate o governo Lula,  que acreditei qe era possivel.

    Sonho numa noite de verão.

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