Bem vindo à nação mítica: a ditadura militar como discurso fascista de Bolsonaro, por Saulo Barbosa

É característico do fascismo desprezar denúncias incriminatórias e acusar de “conspiracionista” toda e qualquer narrativa que aponte o fracasso do passado que defendem.

Bem vindo à nação mítica: a ditadura militar como discurso fascista de Bolsonaro

por Saulo Barbosa Santiago dos Santos

As contradições e incongruências do fascismo não podem se mostrar à luz da razão, não obstante, buscam na hipocrisia moralista a ferramenta emancipatória. Os fascistas afirmam que, em determinado passado, a sociedade possuía valores e bons costumes que foram perdidos ou corrompidos no curso do tempo e que precisam ser resgatados para a sociedade de sua época e criar uma nação capaz de combater países colonialistas ou aqueles de viés progressista.

O maior problema desta suposta nação que fascistas almejam recriar está no seu passado porque ele simplesmente nunca existiu. Este passado, na verdade, é um mito que serve para criar um sentimento nacionalista e usá-lo para manipular as massas populares com o objetivo de retirar delas o foco na crítica à política. Percebemos facilmente como o sentimento nacionalista é usado, principalmente, nas manifestações brasileiras a partir de 2013. Quase sempre se usa a camisa da seleção brasileira como uma espécie de farda para demonstrar que os manifestantes estão ali lutando pelo Brasil, mas isso não é por acaso, pelo contrário, é um projeto. Todos os partidos fascistas têm alguma farda que simboliza o nacionalismo, por exemplo, o partido britânico fascista (BUF) e fascismo italiano usam camisas pretas, o Solidarité Françaíse usa camisas marrons e o Partido Nacionalista da Islândia usa camisas cinzas e braçadeiras vermelhas com a suástica.

É característico do fascismo desprezar denúncias incriminatórias e acusar de “conspiracionista” toda e qualquer narrativa que aponte o fracasso do passado que defendem. Não só isso, deturpam fatos para construir uma irrealidade, muitas vezes vitimista e revisionista, a fim de revoltar a sociedade e mostrar-lhe a necessidade da liderança ideológica de um homem. Na ausência de algo para mostrar que tem poder, governos fascistas resume-me no “eterno retorno” de Nietzsche: criam um ambiente caótico, se mostram como solução, mas a solução é um problema ainda maior e assim sucessivamente.

Identificar o passado mítico que cada governo fascista traduz na sua estratégia política não é fácil, pois cada país tem seu processo histórico diferente. Por exemplo, Viktor Orbán, primeiro-ministro húngaro, se utiliza dos acontecimentos nos séculos 16 e 17 como referência para construção do passado mítico, já o ex-presidente americano Donald Trump buscou no período de 1930 a base para criar um momento historicamente glorioso que precisa ser retomado. O governo de Bolsonaro, assim como outros governos fascistas, tem seu passado mitológico, resta identificar qual é, mas não é difícil saber.

Bolsonaro está estagnado desde sua adolescência numa ideologia romantizada da ditadura militar. Em diversos momentos dos seus mais de 30 anos na política, o ex-deputado sempre fez questão de defender ações militares do período citado. Por exemplo, no dia 31 de março de 2019, ele autorizou comemorações que marca o aniversário do golpe civil-militar de 64, segundo o presidente, deseja-se que o Brasil volte a ser o Brasil que fora há 50 anos, ou seja, que o Brasil volte a ter uma ditadura e um povo amordaçado.

O presidente eleito sabe que a ditadura é reconhecida como o período mais obscuro e atrasado da história brasileira republicana, porém segue o rito da estratégia fascista, deturpa os fatos e cria uma irrealidade para moldar o passado conforme à conveniência e oportunidade. Ele, por diversas vezes, fez questão de afirmar que não houve golpe, mas sim uma revolução; que o Ato Institucional 5 foi necessário para conter a esquerda que cometia crimes atrozes contra a população, e para piorar, considera como herói brasileiro o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um líder torturador.

A inserção e criação do fascismo dentro de uma sociedade começa no passado da nação, este passado é sagrado e mítico. Sagrado porque segue e aceita argumentos sem questionamentos, mítico porque contraria a realidade dos fatos, foi inventado justamente para enganar as pessoas e fazer com que elas se sintam no direito de viver um época gloriosa tal qual o passado mítico. De fato, para o atual governo, o passado mítico brasileiro é a época da ditadura militar, por isso ela é tão lembrada e moldada conforme às necessidades fascistas para enganar parte da população desavisada sobre a história do país.

Saulo Barbosa Santiago dos Santos – Formado em filosofia e especialista em educação. Guarda Civil especialista em segurança público. Email: [email protected]

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