A Castidade de Fachada: Quando o Desejo se Esconde Atrás do Voto
por Luís Delcides
Ou como a direita brasileira vende pureza enquanto sonha com liberdade — e encontra em Cremilda, sua melhor atriz coadjuvante
Convalesço de uma cirurgia recente, o corpo ainda dolorido, mas a mente inquieta não me dá trégua. Entre analgésicos e conversas de hospital, ouço minha amiga de direita defender com convicção seu voto em Flávio Bolsonaro. O argumento: Impostos e o preço do arroz. Enquanto isso, a crise climática devasta plantações e ela prefere culpar o governo pela inflação — como se a seca e as enchentes tivessem cor partidária.
Mas o que realmente me tira do sério não é a incoerência econômica. É a moral seletiva. É a mulher que ataca o feminismo enquanto usa pílula, preservativo e faz “de tudo para evitar gravidez indesejável”. Como se o planejamento familiar não fosse, em si, uma conquista feminista. Como se proteger o próprio corpo não fosse, também, um ato de autonomia. Ela diz: “Não sou a mulher que abre as pernas e depois diz ‘meu corpo, minhas regras'”. Ora, minha cara — você é essa mulher. Só que prefere não admitir.
Cremilda: a Feminista Que Tem Vergonha de Ser Livre
Cremilda é um caso à parte. Diz-se feminista, mas se curva às pautas de Duda Campopiano — a vereadora-prodígio de Praia Grande que transformou conservadorismo em trampolim eleitoral ao conquistar quase 2 milhões de votos para deputada estadual por São Paulo . Duda luta contra o feminismo; Cremilda luta contra si mesma.
O que Cremilda quer, no fundo, não é um companheiro. É um ajudante geral. Alguém que dívida as contas, cuide da mãe idosa e não questione suas contradições. Um utilitarismo à la Stuart Mill, mas sem o brilho intelectual — apenas o cálculo frio de quem busca vantagem disfarçada de tradição.
Ela quer o marido-provedor, mas não quer abrir mão da própria voz. Quer a proteção do patriarcado, mas usufrui das liberdades que o feminismo conquistou. Quer ser respeitada como mulher independente, mas vota em quem a trataria como cidadã de segunda classe.
O Trauma da Direita Precisa de Terapia — Reichiana, de Preferência
Wilhelm Reich dizia que a repressão sexual gera autoritarismo. A direita brasileira é a prova viva disso. Grita “liberdade” enquanto amordaça corpos, criminaliza o prazer e demoniza o desejo. Fala de impostos e alimentos caros, mas fecha os olhos para a crise climática que agrava tudo isso.
A “tradwife até a página 2” — essa figura que posa de casta nas redes sociais, mas esconde seus desejos na vida real — é o sintoma de uma sociedade doente. Uma sociedade que vai à igreja no domingo pedir perdão pelos pecados da semana, mas que no fundo só quer se libertar, sentir prazer, existir sem culpa.
A direita não quer apenas o atraso econômico. Quer o atraso moral. Quer jovens alienados, mulheres submissas, famílias disfuncionais disfarçadas de sagradas.
A Esquerda Liberta — E Isso Assusta
Enquanto a direita amordaça, a esquerda propõe um caminho de renovação. Não é sobre impor uma nova moral, mas sobre libertar das amarras antigas. É sobre entender que ter um companheiro é diferente de ter um empregado doméstico não remunerado. É sobre pensar coletivamente, lutar por democracia, justiça e solidariedade.
Eleger Lula não é apenas tirar o Brasil do fosso econômico. É tirar o Brasil do fosso moral. É dizer não ao entreguismo, não ao cinismo religioso dominical, não à hipocrisia que finge pureza enquanto sonha com liberdade.
Cremilda, minha cara, você não precisa escolher entre ser livre e ser respeitada. Você pode ser as duas coisas. Só precisa parar de votar em quem quer te podar.
Provocação final: A castidade de fachada é o último refúgio de quem tem medo de si mesmo. E enquanto a direita vender pureza, a esquerda continuará vendendo o único produto que realmente importa: a coragem de ser quem você é.
Luís Delcides – advogado e jornalista
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