Da trágica e patética banalidade da vaidade humana, por Eduardo Ramos

A vaidade e o narcisismo tosco, arrogante, fazem a pessoa perder o bom senso e cair no ridículo, às vezes um ridículo "caro", desses que mancham ainda mais a biografia do homem público que já enlameou a sua história.

Da trágica e patética banalidade da vaidade humana, por Eduardo Ramos

(sobre o texto aqui no GGN, “Bolsonaro homenageia desembargador que impediu liberdade de Lula”, por Jornal GGN)

Parafraseando Hannah Arendt, eu diria que não é só o mal que pode se tornar “banal”. A vaidade e o narcisismo tosco, arrogante, fazem a pessoa perder o bom senso e cair no ridículo, às vezes um ridículo “caro”, desses que mancham ainda mais a biografia do homem público que já enlameou a sua história.

O desembargador Thompson Flores torna-se um exemplo vivo dessa estultícia tão comum. É tão interessante: age como se fosse um “Mefistófeles de si mesmo” – o cara que, mesmo tendo atingido seu objetivo concreto – manter Lula preso e ser leal aos seus amigos de toga, classe social e ideologia – não se contenta em ter seguido seus maus instintos, ser injusto, cínico, indigno…. o tolo ainda faz questão de PROPAGAR sua miséria moral, de “receber uma medalha” como prêmio por sua sordidez. É quase inacreditável!

Me remete a Joaquim Barbosa, coitado, sorridente entre Anastasia e Aécio Neves ao receber uma alta condecoração mineira – no auge do julgamento do mensalão, onde blindava os tucanos e massacrava com perversa crueldade aos petistas e outros, mesmo os claramente inocentes de quaisquer atos, como José Genoíno. A cegueira era tanta que nem percebeu o quanto endossava a tese de que suas decisões eram tomadas por ideologia, ódios pessoais e o desejo de agradar à Casa Grande: o menino pobre e negro compensando, talvez, os recalques do passado e as rejeições obviamente a ele impostas por uma sociedade altamente racista.

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Alguns atos jamais devem ser cometidos. Se cedemos por falta de caráter ou medo do julgamento dos nossos pares e seguimos ao furor da turba em tempos enfermos e histéricos, a única e mínima REDENÇÃO que pode haver é a pessoa ter um certo pudor, uma certa vergonha, agir “como quem sabe que está cometendo um erro”… – Sei que parece um paradoxo, que a maioria achará tal pensamento um “polianismo para lá de ingênuo”, mas isso acontece, a vida é dialética, paradoxal, até inimigos nossos podem ter momentos de dignidade, como teve Gilmar Mendes ao ligar para Lula e chorar com o ex-presidente ao telefone comovido pela perda do seu neto, o Arthur. Redime o Gilmar de todas as suas maldades? Evidente que não. Mas revela uma faceta humana e resquícios de dignidade pessoal.

Pessoas como Moro, Joaquim Barbosa, Dalagnoll, Carmen Lúcia e suas medalhas e prêmios vindos da Globo, de gente como Dória Jr., Aécio e Bolsonaro, revelam não só sua miséria moral, mas é mais triste ainda: desnudam-se, de um modo absurdamente vergonhoso, mostrando a todos o quanto são carentes da aprovação das elites sociais, o quanto são vazios, medíocres, o quanto são manipuláveis, fracos, o quanto necessitam desesperadamente das migalhas dos holofotes da mídia, das instituições, de um “premiozinho”, como um afago tosco por um “serviço prestado”.

Não se permitem sequer um último reduto de vergonha e dignidade: o pudor e a descrição, um certo constrangimento, de quem sabe que está agindo de modo errado, quebrando as leis éticas da própria consciência.

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Nem essa “pouca honra” se permitem!

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1 comentário

  1. “Não se permitem sequer um último reduto de vergonha e dignidade: o pudor e a descrição, um certo constrangimento, de quem sabe que está agindo de modo errado, quebrando as leis éticas da própria consciência.”

    Mas que constrangimento? Não se engane: A moral da nossa elite é elástica o suficiente para permitir ‘certas’ digressões, sem um mínimo qualquer de pudor.

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