Dia dos namorados e eu não sei opinar, por Mariana Nassif

Dia dos namorados e eu não sei opinar, por Mariana Nassif

Dia 12 de Junho, o dia dos namorados, e milhares de fotos e declarações de amor em tudo quanto é rede social, restaurantes lotados, as ruas exalando perfumes e presentes, ah, o amor… Por aqui foi um dia de intensa reflexão, além de algumas garrafas de vinho e, então, resolvi sentar e escrever porque acho que hoje, essa data, tem muito mais significados do que apenas comemorar se você tem um par.

Algumas postagens deram conta de que a data foi comercialmente inventada pelo pai do ex-prefeito (ahahaha!) Dória e, então, aqueles casais estavam afim de boicotar o capitalismo e manter o romance ativo de outras formas que não aderindo ao calendário. Meu amigo Marcelo, aquele do post dos espelhos, escreveu algo assim e completou lindamente com palavras que lembravam também que aquele dia também poderia ser usado para comemorar a liberdade de expressar seu amor pelo Renato, seu marido, e que então a autoria da data era fato menor perto da força que tem ser livre. Aquilo me tocou tão profundamente e como é feliz saber que apesar de inúmeros retrocessos no País do Golpe, o amor persiste, resiste e aparece pra quem se encontrou.

Também na linha da liberdade de amar, dei um mergulho profundo no que diz respeito ao cunho feminista do “estar namorando”. Há alguns anos, nem tantos e nem tão poucos, estar acompanhada era, de certa forma, o futuro social das mulheres – se casariam, teriam filhos, formariam uma família e fim. Parece bizarro pensar que isso era tão recorrente que foi preciso um movimento mundial, queima de sutiãs incluso, para que abríssemos nossos olhos e nos déssemos conta de que não somos acompanhantes sem vida, cujas escolhas teriam ou não sucesso quase que somente se fôssemos a “senhora fulano de tal”.  A liberdade da mulher em ser si mesma é uma conquista ainda sensível perto do que desejamos, e a educação proveniente dos nossos pais, por mais modernos que sejam, ainda se enraízam no machismo literalmente não discutido, não dialogado e, portanto, seguimos contaminadas. Eu, por exemplo, posso ser vista como “uma mulher tão bacana, não entendo como está sozinha”, como se estar acompanhada validasse minhas então qualidades.

Este conceito, analisando em retrospecto, somado aos questionamentos problemáticos de minha auto-percepção e bem-querência, culminaram em uma série de relacionamentos de insucesso, um ou outro verdadeiramente permeados pelo que chamamos de troca justa. Veja, não estou falando do relacionamento idealizado, onde não existem problemas e tempestades – filha de Oyá que sou, não as temo, mergulho mesmo no vendaval. Falo sobre perceber-me perante o outro, fazendo do respeito a pauta máxima e operante, pra dizer o mínimo. Enorme parte dos meus relacionamentos foram abusivos, inclusive de forma física, porque eu simplesmente não me dava conta de que aquelas atitudes eram abusivas, mas sim enxergava, de certa forma, que eu poderia merecer aquilo ou que a vida era assim mesmo, as pessoas não necessariamente estavam sempre num bom dia e que, no mais, quem sabe se eu melhorasse o outro também alteraria seu jeito de ser. Sim, praticamente uma vítima perfeita.

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Não olho para isso com vitimismo, mas com responsabilidade de compreender bordas e limites, além de trabalhar um tanto a questão do merecimento, bases individuais fundamentais que permitem, enfim, a tal da troca saudável. Estar sem um par neste dia dos namorados foi o maior presente que me dei nesta data nos últimos anos, sem pieguice, já sendo piegas. Tive dança, conversa de qualidade, boa comida, garrafas extraordinariamente sem fim de vinho e companhia de quem sem dúvida alguma me gosta (cenário este que, aliás, vem se repetindo deliciosamente nesta contagem regressiva até a data da feitura – viva as despedidas!). Ainda vejo o impacto deste machismo enraizado na criação da Clara, minha filha de 19, mesmo que mais suave. Acho que os olhos dela perante a mãe solo, acompanhando minhas próprias transformações enquanto vivencia e experimenta a vida mais madura e menos infante acaba ensinando preciosidades para nós duas. Baita privilégio mais esta relação.

A liberdade de sermos como somos, quem somos, da forma que somos, é fundamental que exista independentemente de qualquer acompanhamento. É na solidão, afinal de contas, que nos tornamos boas companhias, para nós mesmos e para os outros – se quisermos, quando quisermos e da forma que quisermos.

NOTA DE RODAPÉ: com toda esta opinião e de antemão aos tempos de eu-comigo que pintam por aí, dia 13, o do Santo Antônio, não passou em branco: teve agradecimento em forma de vela de mel pelos bem queres que têm me aparecido e pedido, claro, pela manutenção da permanência de gente cada vez melhor ao meu lado.

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2 comentários

  1. Viver e namorar são

    Viver e namorar são exercícios temporarios de insanidade. Ambos terminam de maneira dolorosa. A diferença entre ambos é sutil. Quem namorou uma vez fica querendo outra dose de loucura. Mas quem morreu foi definitivamente de uma insanidade que possibilitava a outra.

    Isso explica porque Sócrates pediu a um de seus amigos para sacrificar um galo a Asclépio depois que ele tomasse sicuta. Libertado da insanidade temporária que é a vida ele tinha que pagar sua dívida para com o deus da cura.

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