É preciso gritar!, por Francisco Celso Calmon

O movimento bolsonarista (governo, parte majoritária do Congresso e apoiadores, fardados, civis e de togas) é uma onda de retrocesso jamais vista no país.

É preciso gritar!

por Francisco Celso Calmon

Não podemos perder a capacidade de indignação, de nojo, de rebeldia, de revolta, a tudo que o governo bolsonarista vem fazendo aos direitos humanos, desde o mais elementar e primígeno, o direito à vida, até as medidas atentatórias aos direitos sociais e trabalhistas.

O movimento bolsonarista (governo, parte majoritária do Congresso e apoiadores, fardados, civis e de togas) é uma onda de retrocesso jamais vista no país. E sem legitimidade, porque não foi esse programa que foi apresentado pelo presidente miliciano quando candidato. Agrega à deslegitimidade, muitas medidas ao arrepio da lei e das normas constitucionais.

A PEC emergencial congela salários dos servidores e veda contratações e concursos, são medidas draconianas que ferem direito dos servidores e podem emperrar a máquina.

O projeto de lei, aprovado pela Câmara, desviando recursos do FUNDEB para escolas privadas ligadas a igrejas, constitui desvio de finalidade e se não houver muita pressão no Senado, pode passar mais esse atentado, entre outros, às verbas públicas por interesses particulares.

O ano de 2020 deve encerrar com trágicos números da crise sanitária e social: aproximadamente 200 ml óbitos e 30 milhões entre desempregados, desalentados e subocupados.

Delações e arapongagem do sistema de informações institucional e particular do bolsonarismo, tanto do presidente miliciano como do seu ministro da fazendo (lista de detratores), dois genocidas, que em breve serão julgados, por tribunais republicanos, populares e pela história.

Mas até lá é necessário abrir as janelas, encher os pulmões de ar, e as mentes e corações de indignação e revolta, e gritar bem alto FORA Bolsonaro; Abaixo o bolsonarismo; VACINAS PARA TODOS JÁ.

Dia 13 de dezembro de 1968 é um dia de triste lembrança, quando foi instituído o Ato Institucional número 5 – AI5. Um monstrengo jurídico, parido do ventre de outro monstro político: o golpe de 1964, com tentáculos em todos os setores da sociedade e instituições da República.

O mês de dezembro de 1968 não foi o mês de Boas Festas, foi o mês mais cruel para a história dos Direitos Humanos no Brasil. Destruíram o Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, símbolo da resistência cultural à ditadura; a Imprensa passou a sofrer censura prévia. Prisões e cassações de políticos, jornalistas, intelectuais e militantes opositores à ditadura ocorreram no mesmo dia, inclusive a do ex-presidente, Juscelino Kubistchek, retirado do teatro municipal e levado à Vila Militar. Com o AI5 cassaram 104 parlamentares, 3 ministros do STF, e até o próprio corvo do golpe militar, o ex-governador Carlos Lacerda.

O Estado ditatorial virou um Estado terrorista, com licença para matar, sequestrar, encarcerar, torturar, banir, fechar Congresso, cassar parlamentares, e caçar os que combatiam a ditadura com as armas das críticas e as críticas das armas.

Fui caçado em janeiro de 1969 no meu trabalho, escapei passando de um edifício para um outro pela cobertura que unia os dois, em fevereiro no casamento de minha irmã escapei pela sacristia nos fundos da igreja. Em 4 novembro conseguiram me sequestrar, junto com mais duas companheiras, sem chance de resistência. Encarcerado, torturado, algumas vezes ameaçado de morte, sobrevivi para continuar a luta até hoje.

O AI5 durou 10 anos e 18 meses, durante esse tempo o Brasil esteve sob um imenso pau-de-arara.

Mesmo sob a guilhotina do AI5 e da Lei de Segurança, nós combatemos à ditadura. Custou muito, mas a democracia venceu.

Ao não extirpar por completo as raízes daquela ditadura, através da aplicação da Justiça de Transição, voltamos a um Estado de exceção com o golpe de 2016.

Se o povo não se rebelar, corremos o risco do atual Estado policial, de natureza ideológica nazifascista, caminhar para um Estado terrorista. As promessas e as ações de avanços e recuos já deram evidências soberbas que, se reeleito, Bolsonaro radicalizará em sua vocação ditatorial.

Ninguém deve se calar. É preciso gritar, reagir, avançar na consciência e organização antifascista e de defesa da democracia. Enquanto é tempo e os resultados do governo são negativos, na economia e na pandemia.

Dezembro de 2020 não podendo ser de boas festas, que seja de boas lutas.

Francisco Celso Calmon, ex-coordenador nacional da Rede Brasil Memória, Verdade e Justiça, membro da coordenação do canal resistência carbonária

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