Ele não, ele nunca ou das conseqüências do voto sobre o corpo e a sanidade, por Luciane Soares da Silva

O voto decisivo foi dado por este trabalhador, levado ou não por correntes de WhatsApp, levado ou não por crenças na masculinidade a reconquistar, levado ou não pelo desejo de combate a corrupção.

Ele não, ele nunca ou das conseqüências do voto sobre o corpo e a sanidade

por Luciane Soares da Silva

Não foram poucas as análises sobre as razões do voto em Bolsonaro. No momento em que sua popularidade é comprometida com a crise internacional gerada pelas queimadas na Amazônia, é importante compreender as razões para sua eleição e para compreensão da rejeição a ciência no Brasil

 Nós estávamos lá e declamamos com todas as notas possíveis que não seria possível e aceitável eleger um presidente cujo motor de ascensão era o ódio. Marielle havia sido assassinada e por caminhos nada virtuosos, a milícia que cresce no Rio, sem alardes ou comemoração, era apontada como integrante do crime. O crime chegava aos gabinetes. Mas isto não era novidade.  E vimos nas avenidas do país, aquele tipo social jovem, em uma caminhonete grandiosa, fazendo gestos obscenos e agressivos. Nunca vi uma comemoração sem alegria. Mas era um desfile de névoa.

O que era diferente? Como muitos amigos, vivo lendo Theodor Adorno. Não por esporte, mas por desafio. Havia um filme de Ettore Scola, Concorrência Desleal, de 2001. A história de dois comerciantes na Itália de 1930 é contada pelo seu cotidiano. Pessoas vivem juntas, pessoas têm conflitos. Mas como o conflito se transforma em um regime fascista?  E então, descobri um livro: “As estrelas descem à terra”. De Adorno, lançado em 1957. Sim, estava interessada em entender a comunicação de massa materializada na novidade das mensagens virtuais, da mentira compartilhada e dos efeitos das redes sociais sobre o voto. Haveria uma psicologia de massas atuando para que não se levasse a sério o candidato em 2018? Ou o ódio era mesmo um motor tão poderoso para aglutinar aqueles tipos comuns em torno de uma mensagem poderosa? Não seria a primeira vez na história, mas vivemos este tempo, então é dele que nos ocupamos.

Quem eram estes? Certamente não era o “Véio” da Havan, nem artistas de emissoras famosas. Não eram os ruralistas. Nem os freqüentadores de academia ciosos de sua masculinidade. Não eram os religiosos, tomados por em sentimento messiânico. Nem os desiludidos com a esquerda conciliatória…

Quando debatemos o desgaste das formas de participação política e as formas pelas quais os indivíduos adquirem informações para decidir o voto, devíamos ler a pesquisa de Adorno sobre a coluna de astrologia do Los Angeles Times. Entenderíamos o ataque à ciência, a negação do passado (a tortura praticada durante a Ditadura) e o otimismo sobre algo que “vai melhorar em algum momento”.

Este é o leitor que acredita no poder dos astros para emitir opiniões sobre dinheiro, amor, saúde, família e outros assuntos deixados a cargo das estrelas. Sim, repito: a cargo das estrelas. Mais do que isto, me diziam os motoristas de Uber, que votar 17 produziria melhoras no país, quebrado. Mas se algum dado era apresentado, era rapidamente rechaçado com alteração psíquica visível e, em casos lamentáveis, violência e morte. Como Moá do Katendê. Contabilizei no mínimo 10 mortes diretas ou indiretas durante as eleições, inclusive de um menino de 7 anos baleado durante uma festa de comemoração da vitória de Bolsonaro. Qual seria a diferença entre estas adesões e a crença na astrologia? Bem, a astrologia tem sua poética.

O voto decisivo foi dado por este trabalhador, levado ou não por correntes de WhatsApp, levado ou não por crenças na masculinidade a reconquistar, levado ou não pelo desejo de combate a corrupção. Mas, principalmente, tomado pela impotência imposta pelo capitalismo, no qual sua força de trabalho se transforma em exploração contínua. Suas necessidades mínimas não podem ser satisfeitas pelo sistema público de saúde. E cioso de sua condição de indivíduo, esfrega o voto como desejo de morte sobre seus opositores. Dentro deste complexo tabuleiro de estímulos, promoções, demissões e privatizações, este motorista terceirizado é o tipo ideal de revolta sem organização. Ele zela pela moral, ele paga impostos. E acredita que algo como uma eleição ou um golpe de sorte podem alterar a ordem de sua vida cotidiana. Ele não é um fascista (ou ainda não). Sua forma de expressão social é um curto circuito de violência e celebração de memes. E não há dúvida de que se sente ameaçado pelo espaço ocupado por outros grupos (mulheres, gays, nordestinos não subalternos).

A monotonia de um trabalho repetitivo e mal pago é mortificante. A vida moral das famílias e seus preconceitos é mortificante. Mas a desigualdade é insuportável. E a crença na astrologia, assim como a crença em um capitão sem brilho, conferem por alguns meses um transe no qual se pode mergulhar. Quem sabe a vida poderia ser outra, sem crime e desemprego. A crença na saída meritocrática é de mesmo tipo. Como a astrologia, sua validade é absolutamente obscura.

Dedico este texto a cada um dos brasileiros que, com seu voto, nos proporciona esta experiência. Esta distopia que tem produzido dias da mais profunda angústia, com retrocessos em todas as áreas: saúde, soberania nacional, meio ambiente, ciência e educação. 

Luciane Soares da Silva é professora de sociologia da UENF, 2ª vice presidente da ADUENF.

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