Ira!: os gritos da multidão usam o rock como expressão de luta pela democracia e clamam Lula para presidente do Brasil
por Karolyna Gomes dos Santos
O Ira! é uma banda de rock paulistana que surgiu em um contexto de luta pela democracia. Em 1981, realizou sua primeira apresentação na PUC de São Paulo, a partir da iniciativa de Nasi e Edgard Scandurra. A primeira formação contava com o baterista Fábio Scattone e o baixista Adilson Fajardo.
Influenciado pela cena punk britânica, como The Clash, além de artistas clássicos do rock, como Jimi Hendrix e Led Zeppelin, o Ira! gravou seu primeiro compacto em 1984, com duas faixas: “Gritos na Multidão” e “Pobre Paulista”.

Nasi e Edgard Scandurra no Show do Ira! No Circo Voador. Fonte: a autora.
“Gritos na Multidão” já expressava o compromisso da banda em verbalizar a realidade de seu tempo:“Estou desempregado, estou desgovernado / A fome me faz mal, estou passando mal / Mas vou entrar na luta, eu vou sair na rua / Já vejo a poluição / Já está ficando perto / Esse é o coração da máquina do esperto”.
Esses versos falam sobre o descontentamento de quem vivia nas grandes metrópoles da época. A instabilidade econômica promovida pela ditadura militar era constituída pela dependência externa e por problemas estruturais severos, o que ocasionava desemprego e um sentimento constante de desesperança na população.
Em 1985, o Ira!, após diversas mudanças, passou a contar com a formação clássica: Nasi nos vocais, Edgard Scandurra na guitarra, André Jung na bateria e Ricardo Gaspa no contrabaixo. A banda gravou o LP Mudança de Comportamento, com destaque para duas faixas altamente politizadas: “Sonhar com Quê?” e “Núcleo Base”.
A letra de “Sonhar com Quê?” diz: “Quando escurece/Os jovens se encontram/Conversam sobre o dia/Tristezas, bebidas, noites em vão/Voltam para casa e não tentam fugir/A tv está alta, não conseguem dormir/Trabalho, cansaço, o fim do mês/Revistas, modelos, sonhar com quê?”. Era a juventude oitentista perguntando quais perspectivas restavam em meio ao descaso da elite política com estudantes e trabalhadores.
“Núcleo Base”, por sua vez, foi composta por Edgard Scandurra como um questionamento ao serviço militar obrigatório. Em um contexto de não representação militar, anos de violência contra a sociedade civil, desemprego e instabilidade, a juventude da época se identificou com a música, que se tornou um dos maiores clássicos da carreira do Ira!
Outra canção importante da banda é “É Assim Que Me Querem”, lançada em 1995. Um dos versos da canção diz:
“E me vendem essa droga / E me proíbem essa droga / Para os desavisados poderem pensar que o governo combate / Invadindo a favela / Empunhando fuzis / Juntando dinheiro corrupto para a platina no nariz.” Mesmo após a redemocratização, o Ira! permaneceu com letras de cunho social, reafirmando seu compromisso em refletir e cantar o mundo. A letra fala sobre alienação e sobre como a sociedade é pressionada a acreditar em uma realidade única.

Público grita “Olê, Olê, Olã, Lula”, acompanhados pela banda. Fonte: a autora.
Em 2020, Edgard Scandurra escreveu “Mulheres à Frente da Tropa”, destacando a atuação das mulheres em manifestações e atividades políticas coletivas, em um contexto de descaso com a saúde pública promovido pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro em relação à pandemia da COVID-19, que deixou aproximadamente 700 mil mortos no Brasil.
Além das letras das canções citadas, o vocalista da banda, Nasi, sempre se posicionou a favor da democracia e da luta pelos direitos sociais, sendo filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) desde 2003.
No show realizado no Circo Voador, em 16 de outubro, o Ira! reafirmou seu posicionamento em favor da democracia. Com gritos de “Olê, olê, olá, Lula!”, impulsionados pelo público, a banda se manifestou em favor da eleição do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e demarcou novamente seu espaço na luta pela liberdade.
Em um contexto de crescimento e tentativa de consolidação da extrema direita no Brasil e no mundo, as apresentações ao vivo do Ira! reafirmam o posicionamento que a banda tem desde sua gênese: vocalizar e lutar por um país e por um rock democráticos.
Karolyna Gomes dos Santos
18 de outubro de 2026.
Referências
[1] IRA! Gritos na multidão. Letras.mus.br, [s. d.]. Disponível em: https://www.letras.mus.br/ira/46399/. Acesso em: 18 out. 2026.
[2] IRA! [Título da canção a confirmar]. Letras.mus.br, [s. d.]. Disponível em: https://www.letras.mus.br/ira/404265/. Acesso em: 18 out. 2026.
[3] NASI: a esquerda está muito bunda mole e a direita passa vergonha; veja vídeo. O Estado de S. Paulo, São Paulo, [s. d.]. Disponível em: https://www.estadao.com.br/cultura/musica/nasi-a-esquerda-esta-muito-bunda-mole-e-a- direita-passa-vergonha-veja-video/. Acesso em: 18 out. 2026.
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