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Lula 4, a missão: o quarto mandato começa agora, por Benedito Tadeu César
No primeiro artigo da série Lula 4, a missão, Benedito Tadeu César analisa por que o quarto mandato começa politicamente antes da posse de 2027. O texto aborda a participação popular, as conquistas já aprovadas, os desafios no Congresso e duas propostas para a construção de uma estratégia nacional de desenvolvimento.
A vitória nas urnas abre uma oportunidade que não pode esperar por janeiro: renovar o diálogo com a sociedade, cumprir compromissos eleitorais e começar a construir um projeto nacional de desenvolvimento democrático, soberano e socialmente inclusivo.
Artigo 1 da série “Lula 4, a missão”
O quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva começa politicamente agora, não em janeiro de 2027. A vitória nas urnas oferece ao presidente uma oportunidade que não deve ser desperdiçada: transformar a legitimidade renovada pelo voto em iniciativa política, mobilização social e preparação de um novo ciclo de desenvolvimento nacional.
Não se trata de antecipar formalmente o próximo governo, mas de aproveitar os últimos meses de 2026 para consolidar conquistas já aprovadas, concluir negociações legislativas, preparar a implementação dos compromissos eleitorais e iniciar a construção coletiva de uma estratégia de desenvolvimento para o país.
A vitória sobre Flávio Bolsonaro representou, além disso, mais do que a conquista de um quarto mandato. Impediu o retorno ao poder de um projeto político de características autoritárias e neofascistas, acompanhado de riscos de subordinação das instituições públicas a interesses privados.
Esses riscos não se limitavam à eventual interferência em investigações. Envolviam a possibilidade de captura do Estado por meio da instrumentalização de ministérios, empresas estatais, bancos públicos e órgãos de fiscalização por grupos políticos e econômicos com relações controversas com pessoas investigadas por atividades criminosas.
Conquistada após uma disputa acirrada, a vitória reafirmou a capacidade de mobilização popular de Lula e adquiriu uma dimensão internacional expressiva.
Nas Américas, na Europa, na Ásia e em outras regiões, lideranças políticas e movimentos democráticos acompanharam a eleição brasileira como parte de uma disputa que ultrapassava nossas fronteiras. Para esses setores, o resultado demonstrou que o avanço internacional da extrema direita pode ser barrado.
A repercussão ultrapassou os pronunciamentos oficiais. O gesto de formar a letra L com os dedos, símbolo da campanha de Lula, apareceu em manifestações no exterior, acompanhado de músicas e palavras de ordem associadas à mobilização brasileira. Em diferentes contextos, tornou-se também expressão de resistência democrática e esperança.
O prestígio internacional de Lula, associado à defesa do multilateralismo, da soberania dos povos e da solução pacífica dos conflitos, alimentou expectativas de uma atuação brasileira mais influente na promoção da paz.
A derrota do bolsonarismo representou ainda um revés político para Donald Trump, seu principal aliado internacional. Poucos dias depois, as eleições legislativas norte-americanas de 3 de novembro acrescentaram dificuldades ao presidente dos Estados Unidos. Embora tenham dinâmicas próprias, os dois resultados contribuíram para modificar o ambiente político internacional.
Entretanto, o reconhecimento externo e a legitimidade conquistada nas urnas não garantem, por si, a realização de um projeto de governo. A oportunidade aberta pela vitória dependerá da capacidade de transformá-la em participação social, iniciativa política e conquistas concretas.
É precisamente por isso que o quarto mandato precisa começar desde já: não apenas nos gabinetes e nas negociações parlamentares, mas no diálogo com a sociedade brasileira.
Reconstruir o diálogo com a sociedade brasileira
Uma das principais tarefas será preservar e ampliar os canais de comunicação direta com a população, fortalecidos durante a campanha, especialmente pela mobilização do Exército de Lula e de outras iniciativas da sociedade civil.
Isso exigirá superar uma das limitações do terceiro mandato. Apesar de sua intensa atuação internacional, o governo frequentemente pareceu distante da interlocução cotidiana com a sociedade, concentrando suas iniciativas no Palácio do Planalto e nas negociações institucionais.
O quarto mandato poderá combinar o protagonismo internacional do presidente com uma presença permanente no debate público brasileiro. Não apenas para informar e defender políticas governamentais, mas para ouvir demandas, reconhecer divergências e incorporar contribuições da população às decisões.
Essa aproximação exige compreender que a sociedade brasileira mudou profundamente.
Aos trabalhadores assalariados com vínculos formais somam-se milhões de microempreendedores individuais, autônomos, profissionais liberais, trabalhadores de plataformas digitais, prestadores de serviços e pequenos comerciantes. Embora suas experiências sejam diferentes, muitos compartilham dificuldades semelhantes: endividamento, renda insuficiente, jornadas prolongadas, instabilidade econômica e proteção social limitada.
Não basta adaptar a linguagem da comunicação governamental. É necessário reconhecer essas transformações nas políticas públicas, articulando direitos trabalhistas, proteção previdenciária, crédito, apoio aos pequenos negócios e segurança econômica.
A participação popular também precisa acompanhar essa realidade. Além das organizações tradicionais, será importante ouvir associações, coletivos, redes comunitárias e cidadãos que não participam de entidades constituídas.
Consultas públicas amplas, mecanismos digitais acessíveis e experiências de orçamento participativo podem aproximar o Estado da população, desde que assegurem transparência, inclusão e retorno público sobre as contribuições recebidas.
A sociedade precisa participar não apenas da escolha dos governantes, mas também da elaboração e avaliação das políticas públicas.
A oportunidade no Congresso: transformar interesses em reformas
Os últimos meses de 2026 oferecem uma circunstância parlamentar incomum.
Os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, têm interesse em preservar suas posições de influência. Ao mesmo tempo, parlamentares derrotados nas urnas podem estar mais dispostos a modificar regras que favorecem os atuais detentores de mandatos.
Muitos experimentaram diretamente as desigualdades no acesso aos fundos eleitorais, às emendas parlamentares e às estruturas políticas consolidadas. Essa experiência pode produzir convergências circunstanciais em torno de mudanças que normalmente encontrariam resistências maiores.
A reforma eleitoral é um exemplo. A discussão sobre o sistema distrital misto oferece uma oportunidade para enfrentar problemas históricos da representação política brasileira.
O modelo proporcional de lista aberta estimula campanhas personalistas, disputas entre candidatos do mesmo partido e gastos elevados. Uma alternativa seria o sistema distrital misto proporcional, combinando representantes eleitos em distritos territoriais com outros escolhidos por listas partidárias, preservando a proporcionalidade.
Sua implantação exigiria critérios independentes para delimitar os distritos e mecanismos que possibilitassem o equilíbrio da representação sem provocar o crescimento excessivo da Câmara. O chamado distritão, por sua vez, agravaria problemas existentes ao privilegiar candidaturas individuais e ampliar a influência do poder econômico.
A reforma deveria contemplar também a distribuição dos fundos eleitorais, as vantagens dos detentores de mandatos e a fiscalização das campanhas, inclusive nas plataformas digitais.
A capacidade de identificar interesses convergentes e construir maiorias específicas poderá abrir caminhos que tendem a se estreitar com a posse da nova legislatura.
Até dezembro: consolidar conquistas e preparar o quarto mandato
A vitória oferece a Lula a oportunidade de antecipar o encaminhamento de compromissos assumidos durante a campanha, sem esperar pela posse do novo governo.
Parte importante dos compromissos de Lula já foi aprovada ou está em fase de implementação. O desafio dos últimos meses de 2026, portanto, não é simplesmente apresentar novas propostas, mas consolidar conquistas, assegurar sua aplicação e concluir as iniciativas que ainda dependem do Congresso.
Entre os avanços mais significativos está o fim da escala 6×1. A Emenda Constitucional 141/2026 estabeleceu dois dias de descanso semanal remunerado e a redução gradual da jornada de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial. A transição começa em dezembro, com jornada máxima de 42 horas, chegando a 40 horas após um ano. O desafio agora é assegurar o cumprimento das novas regras e sua adaptação aos diferentes setores econômicos.
Também houve avanços na proteção aos microempreendedores individuais. O Prospera MEI, sancionado em outubro, prevê o perdão de dívidas tributárias federais, a ampliação do limite de faturamento e melhores condições para os pequenos negócios. Parte das medidas entrará em vigor em 2027, exigindo acompanhamento de sua implementação.
No enfrentamento do endividamento familiar, o governo instituiu o Desenrola Brasil 3.0, que oferece condições especiais para a renegociação de dívidas antigas. A medida já está em vigor, mas ainda depende de aprovação definitiva pelo Congresso.
Na saúde, o SUS e a Farmácia Popular receberam medidas de modernização e ampliação. A nova regulamentação da Farmácia Popular busca expandir o atendimento, enquanto a política nacional de saúde digital pretende melhorar a integração das informações e o acesso aos serviços. O desafio é transformar essas iniciativas em melhorias efetivamente percebidas pela população.
O Pé-de-Meia Universitário permanece em preparação, com previsão de implantação em 2027, oferecendo apoio financeiro a estudantes de famílias vulneráveis para que possam permanecer na universidade e concluir seus cursos.
A gratuidade do transporte público nos fins de semana e feriados também avançou para a discussão legislativa. Uma proposta de emenda constitucional prevê destinar parte das emendas parlamentares impositivas ao financiamento da tarifa zero, ampliando o acesso ao lazer, à cultura e à circulação nas cidades, especialmente para as famílias de menor renda.
Outra iniciativa importante foi a edição da medida provisória que proibiu as bets. A proibição está em vigor, mas depende de confirmação pelo Congresso e enfrenta questionamentos no Supremo Tribunal Federal. Sua consolidação exigirá também o combate às plataformas clandestinas, à lavagem de dinheiro e aos danos sociais associados ao jogo, além de enfrentar a dependência financeira dos clubes de futebol em relação aos patrocínios das empresas de apostas.
Na segurança pública, a PEC encaminhada pelo governo concluiu sua votação no Congresso em 3 de novembro. A proposta fortalece a coordenação entre as instituições policiais, amplia os instrumentos de enfrentamento das organizações criminosas e reforça os mecanismos de financiamento da segurança. Após a promulgação, será necessário assegurar sua implementação, com recursos, fiscalização e respeito aos direitos fundamentais.
A elaboração do orçamento de 2027 será outra decisão fundamental. Com votação prevista para dezembro, será necessário garantir recursos para as políticas aprovadas e os novos compromissos, enfrentando a fragmentação orçamentária provocada pelas emendas parlamentares e ampliando a transparência na distribuição dos recursos públicos.
Esses avanços demonstram que a passagem do terceiro para o quarto mandato não precisa representar uma interrupção da iniciativa governamental. Ao contrário, oferece a oportunidade de concluir negociações, regulamentar medidas, preparar sua execução e estabelecer prioridades para 2027.
Ao lado dessas tarefas, duas iniciativas estratégicas poderiam começar imediatamente: a organização de uma Assessoria Econômica Presidencial e a elaboração participativa de um Plano Nacional de Metas de Desenvolvimento.
Uma Assessoria Econômica para ampliar a capacidade de decisão
Entre as iniciativas que poderiam contribuir para a preparação do quarto mandato, merece discussão a possibilidade de criar uma Assessoria Econômica diretamente vinculada à Presidência da República. Sua finalidade seria ampliar as alternativas de formulação estratégica à disposição de Lula, oferecendo diferentes perspectivas sobre os desafios econômicos e os caminhos para o desenvolvimento nacional.
A proposta encontra inspiração em experiências anteriores da administração brasileira e poderia ser examinada à luz das necessidades atuais, sem pressupor mudanças na estrutura ou nas atribuições dos órgãos responsáveis pela política econômica.
Em 1951, Getúlio Vargas organizou a Assessoria Econômica da Presidência, dirigida por Rômulo de Almeida e integrada por intelectuais como Ignácio Rangel e Jesus Soares Pereira. A equipe contribuiu para projetos estratégicos de industrialização e infraestrutura, especialmente os relacionados à Petrobras e à futura Eletrobras.
Lula já conta, na política internacional, com a contribuição estratégica do embaixador Celso Amorim. Na área econômica, poderia organizar uma estrutura semelhante, convidando André Lara Resende, Luiz Gonzaga Belluzzo ou outro economista de reconhecida autoridade intelectual para coordenar uma equipe plural.
Sua finalidade seria ampliar a capacidade de formulação da Presidência, examinando alternativas para a política monetária, a administração da dívida pública, a tributação, o financiamento do investimento, a industrialização e a inovação tecnológica.
A assessoria não substituiria a Fazenda, o Planejamento ou o Banco Central. Ofereceria análises estratégicas e alternativas de política econômica, com interlocução permanente com universidades, centros de pesquisa, trabalhadores e setores produtivos.
O debate provocado por André Lara Resende evidencia a importância dessa iniciativa. Ao questionar a interpretação que atribui os problemas das contas públicas principalmente ao excesso de gastos governamentais, o economista recolocou em discussão o peso dos juros elevados sobre a dívida pública, o crédito, o investimento e o crescimento.
Sua proposta de maior coordenação entre as políticas fiscal e monetária encontrou resistência no Ministério da Fazenda, enquanto José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de reeleição de Lula, manifestou apoio a essa orientação.
A divergência merece um debate público substantivo. A estabilidade dos preços é indispensável, mas emprego, investimento, crescimento, distribuição de renda e sustentabilidade da dívida também precisam integrar a avaliação das decisões econômicas.
Uma Assessoria Econômica Presidencial poderia contribuir para esse debate e fortalecer a capacidade de Lula de formular uma estratégia nacional de desenvolvimento, sem restringir suas alternativas às posições predominantes no mercado financeiro.
Um Plano Nacional de Metas para orientar o desenvolvimento
Outra proposta que merece ser debatida é a elaboração participativa de um Plano Nacional de Metas de Desenvolvimento. A ideia seria construir, por meio de ampla discussão com a sociedade, um conjunto de objetivos nacionais de médio e longo prazo, acompanhado de prioridades, indicadores e instrumentos de acompanhamento.
Mais do que apresentar um programa previamente definido, a iniciativa buscaria reunir diferentes setores sociais, econômicos e institucionais na discussão dos caminhos para o desenvolvimento brasileiro, respeitando a diversidade de interesses e perspectivas existentes no país.
Sua construção poderia começar ainda em 2026, reunindo especialistas, trabalhadores e suas novas formas de organização, empresários, universidades, instituições científicas, movimentos sociais e governos estaduais e municipais.
A fase preparatória seria seguida de consultas públicas e negociações nos primeiros meses de 2027, com calendário transparente e prazo para conclusão.
O plano contemplaria metas de crescimento econômico, reindustrialização, inovação tecnológica, transição energética, sustentabilidade ambiental, emprego, educação, saúde, cultura, infraestrutura e redução das desigualdades sociais e regionais.
Para evitar que se transformasse em uma declaração de intenções, cada objetivo deveria estar associado a indicadores, fontes de financiamento, órgãos responsáveis e mecanismos públicos de acompanhamento.
A Assessoria Econômica Presidencial poderia contribuir para sua elaboração, em articulação com os ministérios e instituições de planejamento. O plano serviria como referência para os orçamentos anuais e plurianuais, aproximando as prioridades nacionais da efetiva distribuição dos recursos públicos.
Mais do que apresentar um programa de governo, a proposta seria construir com a sociedade uma estratégia de desenvolvimento capaz de orientar as decisões do quarto mandato.
A partir de 2027: uma agenda de transformações a construir coletivamente
As iniciativas encaminhadas ainda em 2026 seriam apenas o ponto de partida.
O quarto mandato abrirá espaço para discutir reformas econômicas, sociais e institucionais destinadas a enfrentar problemas estruturais do Brasil. Sua formulação, entretanto, não pode ser tratada como um conjunto fechado de soluções previamente definidas.
Entre as questões que merecem discussão estão a coordenação das políticas fiscal e monetária, a reforma tributária e a distribuição da riqueza, o financiamento do desenvolvimento, a reindustrialização, a soberania tecnológica, a transição energética e a proteção ambiental.
Também deverão integrar essa agenda a valorização do trabalho em suas diferentes modalidades, a ampliação da proteção social, o fortalecimento dos serviços públicos, a democratização da comunicação e das plataformas digitais, a segurança pública e o aperfeiçoamento das instituições democráticas.
Um desafio transversal será ampliar a participação popular nas decisões do Estado, recuperando experiências bem-sucedidas e desenvolvendo novas formas de consulta e deliberação adequadas às transformações sociais e tecnológicas.
Essas questões exigirão debate público, avaliação de alternativas, negociação política e participação efetiva da sociedade civil. Serão aprofundadas nos próximos artigos desta série, como contribuição à discussão coletiva sobre os caminhos do país.
Lula inicia seu quarto mandato com legitimidade renovada, reconhecimento internacional e uma oportunidade política significativa. Encontrará, entretanto, um Congresso conservador, forte influência do mercado financeiro sobre as decisões econômicas, resistências de setores empresariais e uma extrema direita que continuará organizada.
A vitória nas urnas não elimina esses obstáculos. Mas oferece condições para enfrentá-los por meio da iniciativa política, do diálogo social e da construção de compromissos em torno de objetivos nacionais.
O desafio é transformar a esperança mobilizada durante a campanha em participação democrática, desenvolvimento econômico e melhoria concreta das condições de vida da população.
O quarto mandato já começou politicamente. Sua missão, porém, não poderá ser cumprida apenas pelo governo: precisará ser construída com a sociedade brasileira.
Nota de transparência editorial: Este artigo integra a série autoral Lula 4, a missão, da Rede Estação Democracia. Ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas para pesquisa e revisão do texto. As interpretações, propostas e posições expressas são de responsabilidade do seu autor.
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.
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