3 de junho de 2026

Lula e a sensação de pertencimento da bondade, por Sergio Medeiros

A nova forma de visão de mundo foi rapidamente disseminada pela onipresente comunicação diária das grandes redes sociais
Ricardo Stuckert

Lula e a sensação de pertencimento da bondade

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por Sergio Medeiros

Entretanto, fica ai o alerta, não foi através da racionalidade, do livre convencimento que Lula rompeu o veto a sua pessoa,  a base foi algo mais singelo, foi a empatia, o amor, a sensação de pertencimento da bondade existente nestas comunidades pobres e desvalidas.

Uma breve contextualização.

O texto se propõe a tecer considerações sobre o que restou das estruturas sociais e políticas do nosso país, depois da fragmentação do poder e da destruição do Estado, levada a cabo por Sérgio Moro e sua República de Curitiba e que desaguou na barbárie bolsonarista (um breve rascunho de ideias a serem lidas, consideradas, desconsideradas, reformuladas, deixadas de lado…mas que tem que serem discutidas).

Em outro texto falei sobre a fragmentação do poder e a destruição do Estado, isso em 2018, 2019.*

Agora estamos nesse espaço de tempo superveniente, onde o vácuo criado pela ausência organizada do poder, tal  como era entendido, instituições, universidades, sindicatos, igrejas, partidos políticos e outras instituições civis, os quais, alijados de sua justificação enquanto poder,  passaram a ficar em segundo plano, num compartimento social quase descartável, passíveis de serem objeto de manipulação ou apropriação, sendo, de qualquer modo, destacáveis e destacados da realidade social massiva desde então posta.

Todo este segmento,a  dita sociedade civil organizada,  foi substituído, retirado de seus nichos de poder – entendido como o lugar de onde a sociedade ouve e recolhe seus subsídios para a vida social.

Este movimento de substituição de referências,   foi efetivado através da massiva utilização das redes sociais, onde foi forjada “a teoria do homem simples”.

A nova forma de visão de mundo foi rapidamente disseminada pela onipresente comunicação diária das grandes redes sociais, sendo que, de forma mais expressa,  via utilização massiva do whatsapp, meio de acesso ao público ao qual se destinavam as boas novas, no caso,  a setores de concentração expressiva da população, escolhidos em razão da forma de agregação, ou seja, em razão da fé, ou da obediência hierárquica sob o peso da autoridade.

Assim, os setores escolhidos, por excelência massivos, e por seu núcleo central se basear na fé ou na hierarquia, o que os tornava  permeáveis a nova doutrinação, além de contarem com lideranças  passíveis de cooptação e com sede de poder, estes setores, de onde se irradiariam,  foram  as igrejas evangélicas e os núcleos de caráter militar.

A nova teoria, que deu azo à inúmeras primaveras ao redor do mundo, tem sua base no advento de um novo participante da sociedade  – deu-se “a criação do homem simples”, o qual estava desconectado destes nichos de poder em que repousava a sociedade, dita civil.

Em breves termos, este novo espaço seria o lugar onde a pessoa comum reconstrói sua necessidade coletiva de grupo, o que é feito por intermédio de apelos genéricos e de fácil compreensão… mensagens simples e de circulação imemorial, ao qual o inconsciente coletivo não teria dificuldade em se abrigar, por sua intemporalidade e, exatamente por isso, por seu intrínseco conservadorismo.

Deste modo, os slogans adotados,  honra, pátria , família, preconceitos, esforço, sobrevivência, fé, prosperidade, Deus a serviço do homem e alvo de promessas e cobranças

Em outros termos,  basicamente fé e fanatismo em termos antropológicos, e tudo isso numa sequência virtuosa com a recompensa ao final –  se fizerem isso, acontecerá isso…-,  mas, como na fé espiritual … dizem que tudo acontecerá no futuro, tudo muito simples,  fé, tradição e fanatização,  eis a velha receita do novo rei… no caso, a rede social do whats,  do grupo whatsapp.

Assim, a antiga discussão racional e metódica, não alcança esta redoma da dita “simplicidade” pois, quaisquer argumentos “mais complexos” fazem parte da falsidade do mundo e são repelidos como mentiras, são simplesmente mentiras, se eu não entendo, são mentiras,  se a minha verdade simples se contrapõe a elas, são mentiras.

Com o tempo e, em razão de sua conformação, com base em ideias conservadoras, na manipulação da fé e na construção de um modelo alternativo e fechado, este espaço se entronizou como o local onde a extrema-direita fez sua trincheira.

Pois bem, neste ponto, antes de abordarmos o referido fenômeno, por essencial  e por ser uma análise social e política por excelência,  faço um parenteses, para realçar um fato, ainda não estudado em toda sua amplitude, quase uma constatação, não tão simples,  mas, ainda um fato que teve o potencial de alterar todo um cenário hostil para a esquerda  para o espectro de poder anterior.

O fato, é que, mesmo neste novo caldo de cultura,  o atual Presidente Luís Inácio Lula da Silva,  conseguiu atingir parte deste grupamento social, o mais pauperizado,  mas, eis aqui a diferenciação, Lula fez isso usando o sentimento, o sentimento de solidariedade, de compartilhamento de experiências comuns… como a fome e a luta contra a fome, como a luta diária pela sobrevivência, como o amor aos filhos… nestes espaços, Lula é puro sentimento, e, nisso ele furou a bolha.

Entretanto, fica ai o alerta, não foi através da racionalidade, do livre convencimento que Lula rompeu o veto a sua pessoa,  a base foi algo mais singelo, foi a empatia, o amor, a sensação de pertencimento da bondade existente nestas comunidades pobres e desvalidas.

Feito estes breves reparos continuo a análise social ora proposta.

Ressalto que estes agrupamentos – que, em tese,  podem ser mais facilmente alienados e cooptados pelo relato do homem simples –  não sente, nem usa, como método,  a razão convencional expressa por intermédio da sociedade civil e por seus porta-vozes-, pois seu viver cotidiano,  significa muitas vezes apenas existência em termos mais estritos e restritos e que, ainda que  a vida coletiva seja exaltada, nesses casos, a integração a grupos se constitui no fator primordial de união para a sobrevivência comum.

De outro lado, voltando a questão do poder e de seu retorno a seus antigos atores e protagonistas, ouso lamentar e dizer que a questão não se resume ao “fortalecimento das instituições” pois estas, em seu sentido social foram destituídas de seu alcance coletivo, foram isoladas do contexto mais amplo que as ligava intrinsecamente ao tecido social onde desenvolviam suas atividades, agora são apenas estruturas sociais que não mais encontram sua justificação direta na sociedade em que encontram inseridas. Em outros termos,  a luta pelas ONGs, pelas Universidades, pelos Movimentos Identitários, precisa ser reconstruída, mas  isso em outras bases, a serem criadas, e que sejam necessariamente centradas em uma visão de Estado, sob pena de não mais romperem seu alcance social ora restrito.

Por isso,muitas vezes,  parece que estamos lutando contra moinhos de vento, como quixotes.

É  que, concretamente, estamos repetindo lições antigas, não mais passíveis de confrontar a realidade, para entendê-la e modificá-la…

Nesse vácuo, em relação a uma grande parcela da população, as Instituições de Estado são nada ou quase nada, aliás,  são tudo o que se quer superado, e nesse meio, grassa a idéia de que  o estado e sua complexidade é mais um  obstáculo, que as instituições são  “coisas postas” como preexistentes e fatores de dominação, e aí são negadas e deixam de ter poder na vida destas pessoas como coisas sem valor prático.

Isto porque o “novo conhecimento”, que se baseia na relação lógica , não do desconhecimento,  mas do conhecimento primário e fechado, dito simples, e que  foi criado para enganar os incautos.

Nesta conformação de ideias, a negação não é o obstáculo principal, ela é, sim, um fato a mais, pois a “simplicidade” passou a preencher os espaços não lógicos ou ignorados, afastando-os da discussão.

Portanto, não tem como substituir tal discurso por intermédio da racionalidade, pois, neste contexto, ela  é tudo o que os separa da crença e da fé, sendo esta,  em si mesma, por sua incapacidade de alcançá-la, a gênese de sua inconformidade e sua alienação. 

Esta postura crente e de negação à razão exógena  é, em seu viver, tudo o que os diferencia e fortalece.

Por isso, a frase aparentemente despretensiosa ” a minha ignorância vale tanto quanto os teus diplomas”, esconde o orgulho pela sua trajetória, a qual não pode ser desmerecida em relação a qualquer outro,  mas, por outro lado, ao fazê-lo comete o mesmo pecado, tenta minimizar o conhecimento do outro, ficando deste modo, definidos e bem separados os espaços de cada um.

Frise-se, a discussão ou sua conciliação, deveria ser,  o meu conhecimento e minha sabedoria, valem tanto quanto o teu conhecimento e teus diplomas, pois o que está em discussão é nossa existência humana, e, neste ponto, somos todos iguais, postas as desigualdades.

Para finalizar, fica a pergunta, afinal que linguagem nova é esta.

Mas, afinal, sempre foi a nova linguagem, a nova comunicação, as novas heresias, as pulsões, os preconceitos, as ambições… sempre são os mesmos… a linguagem é que foi mudada para abarcar os ingênuos e os simplesmente crentes e sensíveis ao “novo” ao fanatizável novo.

*Post publicado no GGN, em 09.11.2018 . https://jornalggn.com.br/artigos/moro-a-teoria-da-desagregacao-do-poder-e-a-fragmentacao-do-estado/

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