4 de junho de 2026

Lula nunca será Lech Wałęsa tropical, por Sara Goes

Lula expos a distância entre suas histórias ao lembrar que, enquanto o polonês virou peão de elite, ele seguiu operário da soberania.
Lula e Lech Walesa

Lula nunca será Lech Wałęsa tropical

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por Sara Goes

A comparação é antiga e recorrente. Em 2009, ainda no segundo mandato, Lula exorcizou um fantasma que o assombrava: “Eu não posso fracassar como Lech Wałęsa na Polônia”, disse, evocando o líder sindical que, alçado ao poder com apoio das elites anticomunistas, terminou humilhado nas urnas com míseros 0,5% dos votos na tentativa de reeleição. Já em 2011, na condição de ex-presidente, Lula foi novamente colocado lado a lado com o polonês, desta vez por analistas liberais que o chamaram de “um Lech Wałęsa que deu certo”, nas páginas do Financial Times e em colunas locais. A operação era clara, reconfigurar Lula como mascote domesticado da globalização, vitorioso porque cedeu, aceito porque renunciou ao conflito.

Mas Lula não é Wałęsa. E nunca será.

Quem insiste nesse paralelo, por nostalgia revolucionária ou ressentimento de classe, erra na leitura e trai a realidade. A esquerda terraplanista, como bem identificou Reynaldo Aragon, ainda busca pureza onde há embate, ainda clama por iconoclastas enquanto se recusa a disputar mediações. Espera rupturas instantâneas, não acúmulo estratégico. Rejeita as contradições do presente em nome de um passado idealizado que nunca se realizou.

O discurso de Lula nesta quarta-feira, 17 de julho, na cerimônia de abertura do Congresso da UNE, jogou luz sobre essa contradição. Em meio a aplausos, o presidente recordou a trajetória solitária de quem chegou à Presidência com medo de fracassar como Wałęsa. “Ele foi eleito com apoio da elite internacional. Quatro anos depois, teve 0,5% de voto. Eu pensava: será que a gente vai conseguir governar esse país?”, confessou. Mas ali mesmo, diante de uma juventude universitária que é fruto direto das políticas educacionais dos governos petistas, Lula cravou sua diferença. “Eu fui o presidente que mais fez universidade na história desse país. E ainda é pouco”, afirmou, olhos firmes, sem euforia nem autocomplacência.

A diferença histórica é inegociável. Lech Wałęsa foi moldado e financiado por instituições religiosas e potências geopolíticas que o utilizaram como instrumento da transição anticomunista. Tinha o Vaticano ao lado, tinha Washington na retaguarda. Lula não teve cardeal nem embaixador. Teve greve, fome, cadeia, voto. Teve a UNE, a periferia, os sindicatos e o povo pobre do Brasil como sustentação. Não nasceu para representar o Ocidente, mas para representar os que o Ocidente sempre empurrou para fora da História.

Sua fala foi um inventário do que foi feito, mas também um chamado ao futuro. “Conselho a gente até aceita, mas lição a gente não aceita de ninguém”, avisou, mirando os olhos da juventude, mas reverberando para além das paredes do congresso estudantil. O recado atravessou Brasília, chegou a Wall Street e foi sutilmente compreendido por aqueles que até ontem se escondiam atrás da chantagem comercial de Donald Trump.

Na noite anterior, na residência do Senado, Hugo Motta apareceu com a cara de quem percebeu que falou demais. Ao seu lado, Davi Alcolumbre recuperava a malemolência que lhe é quase natural, sorrindo ao anunciar, junto ao vice-presidente Geraldo Alckmin, um pacto de cooperação institucional para enfrentar o tarifaço estadunidense. O gesto, até então impensável, soou como recuo silencioso, tentativa apressada de apagar o rastro da sabotagem aberta. A encenação do pacto não altera o jogo, mas revela o efeito do grito.

Lula não precisou invocar Wałęsa para expor a distância entre suas histórias. Fez isso ao lembrar que, enquanto o polonês virou peão de elite, ele seguiu operário da soberania. “Eu não quero uma sociedade de algoritmos. Quero uma sociedade de humanistas”, disse. “Não quero que aperte com o dedo, quero que aperte com a cabeça e com o coração.” O Brasil que ele defende é feito de gente, não de cálculos. De afetos, não de rankings.

E é justamente por isso que Lula não será Lech Wałęsa tropical. Porque nunca quis ser. Porque resistiu a ser. Porque segue sendo o que sempre foi, um sobrevivente impuro, real, popular. E porque hoje, diante da ofensiva do capital estrangeiro e da covardia dos seus cúmplices locais, ele não recua. Avança dizendo que ainda é pouco.

Sara Goes é jornalista e âncora da TV 247 e TV Atitude Popular. Nordestina antes de brasileira, mãe e militante, escreve ensaios que misturam experiência íntima e crítica social, sempre com atenção às formas de captura emocional e guerra informacional. Atua também em projetos de comunicação popular, soberania digital e formação política. Editora do site <código aberto>.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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