A Opep já não manda como antes — e Trump sabe disso
Fragmentação do cartel, guerra no Oriente Médio e o novo descontrole do petróleo no mundo
por Maria Luiza Falcão Silva
Durante décadas, bastava uma decisão da OPEP para mover o mundo. Cortes de produção, ajustes coordenados, declarações estratégicas — tudo isso era suficiente para alterar preços, redesenhar expectativas e, em muitos casos, impor limites concretos às economias centrais. Esse poder não desapareceu. Mas já não opera da mesma forma.
A decisão recente dos Emirados Árabes Unidos de deixar o cartel não é apenas um movimento técnico. É um sintoma. Um sinal de que o sistema que sustentou a Opep por mais de meio século começa a mostrar fissuras mais profundas. E quando um cartel perde coesão, não surge automaticamente um mercado mais eficiente. Surge, na maioria das vezes, um mercado mais instável.
Para entender o momento atual, é preciso voltar ao passado. A Opep nasce em 1960, em Bagdá, como resposta direta ao domínio das grandes petroleiras ocidentais sobre preços e produção. Era, desde o início, um projeto de soberania econômica. Nos anos 1970, essa estratégia atinge seu auge. O choque do petróleo de 1973 não apenas elevou preços — revelou ao mundo que o petróleo podia ser utilizado como instrumento de poder político. Ali se consolidou a ideia de que energia e geopolítica são inseparáveis.
Mas a força da Opep sempre carregou dentro de si uma contradição: preços elevados demais incentivam concorrência. Foi assim com o avanço da produção fora do cartel, com a diversificação energética e, mais recentemente, com a revolução do shale oil nos Estados Unidos.
O avanço do chamado shale oil — ou petróleo de xisto — foi um dos fatores mais decisivos para alterar o equilíbrio do mercado global de energia nas últimas duas décadas. Trata-se de petróleo extraído de formações rochosas de baixa permeabilidade por meio de técnicas como o fraturamento hidráulico (fracking) e a perfuração horizontal, que permitem liberar hidrocarbonetos antes inacessíveis. Essa inovação, amplamente desenvolvida nos Estados Unidos, transformou o país em um dos maiores produtores mundiais e reduziu sua dependência externa, ao mesmo tempo em que enfraqueceu a capacidade da Opep de controlar a oferta global. O resultado foi a introdução de um novo tipo de concorrência no mercado: mais flexível, mais sensível a preços e menos comprometida com qualquer forma de coordenação coletiva — um elemento-chave para entender por que o poder da Opep já não é o que foi.
A criação da Opep+, ao incorporar países como a Rússia, foi uma tentativa de restaurar esse poder de coordenação. Funcionou parcialmente. Mas não resolveu o problema central: interesses nacionais continuam falando mais alto que a disciplina coletiva.
A saída dos Emirados explicita esse conflito. Ao ampliar sua capacidade produtiva, o país passou a ver as cotas da Opep não como proteção, mas como limitação. Esse movimento não é isolado. Ele reflete uma lógica crescente entre produtores: ganhar participação de mercado pode ser mais estratégico do que sustentar preços artificialmente elevados.
É nesse contexto que a reação de Donald Trump precisa ser lida com cuidado. Trump comemora. Para os Estados Unidos, petróleo mais barato ajuda a conter a inflação, reduz o custo de vida e fortalece a narrativa de recuperação econômica. Mas essa comemoração é, no mínimo, incompleta.
Porque o que está em curso não é apenas uma queda de preços. É uma mudança na forma como esses preços são determinados.
E é aqui que a guerra no Irã entra de forma decisiva.
Conflitos no Oriente Médio sempre impactaram o petróleo. Mas havia, no passado, um elemento moderador: a capacidade da Opep de ajustar a oferta e conter movimentos mais extremos. Com um cartel fragmentado, esse amortecedor enfraquece. O resultado é um mercado mais sensível a choques geopolíticos.
O Irã ocupa uma posição estratégica nesse sistema. Não apenas como produtor relevante, mas como ator com influência direta sobre o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado globalmente. Em um cenário de conflito, a ameaça não precisa sequer se concretizar para produzir efeitos. Basta ser crível.
O que se desenha, portanto, é uma combinação delicada: de um lado, maior competição entre produtores pressionando preços para baixo; de outro, um ambiente geopolítico explosivo capaz de provocar elevações abruptas. Essa convivência entre forças opostas não produz estabilidade. Produz volatilidade.
O Brasil observa esse movimento de fora — mas não de forma neutra. O país integra a Opep+, a partir de 2025, como um país aliado produtor de petróleo. Mas não está sujeito a cotas como os membros plenos.
Ao evitar compromissos de corte de produção, o Brasil preservou sua capacidade de expandir oferta e disputar mercado. Essa escolha, coerente com a lógica de um produtor emergente, traz consigo uma consequência direta: ao não participar de mecanismos de coordenação, o país também não dispõe de instrumentos para amortecer a volatilidade de preços.
Em um cenário de fragmentação da Opep e intensificação das tensões geopolíticas, essa exposição tende a se ampliar — e transforma o Brasil em um agente cada vez mais relevante, mas também mais vulnerável, no novo tabuleiro energético global.
Como produtor de petróleo, o país depende de preços internacionais para sustentar receitas públicas, investimentos e o próprio desempenho da Petrobras. Preços persistentemente baixos reduzem royalties, comprimem margens e afetam decisões de investimento no pré-sal. Ao mesmo tempo, como economia ainda dependente de combustíveis fósseis, o Brasil também se beneficia, no curto prazo, de preços mais baixos via inflação e custos logísticos.
Esse duplo efeito revela um ponto essencial: não existe vitória simples nesse cenário.
Mais ainda: a fragmentação da Opep reforça uma tendência que vai além do petróleo. O mundo caminha para uma ordem energética menos coordenada e mais competitiva, em que grandes produtores — Estados Unidos, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Rússia, Brasil — operam cada vez mais guiados por interesses nacionais imediatos, e menos por arranjos coletivos estáveis.
Isso tem implicações diretas sobre inflação global, segurança energética e até sobre a transição climática. Um petróleo barato demais desestimula investimentos em energia limpa. Um petróleo caro demais pressiona economias e amplia tensões sociais. Sem coordenação, esses extremos tendem a se alternar com mais frequência.
A Opep não desapareceu. Mas deixou de ser o centro organizador do sistema.
E talvez seja esse o ponto mais importante — e menos evidente.
Trump pode comemorar o alívio momentâneo no preço da gasolina. Mas o que está emergindo não é um mundo mais favorável aos consumidores. É um mundo mais imprevisível.
E, em energia, imprevisibilidade raramente vem sem custo.
Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).
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WRamos
12 de maio de 2026 1:15 pmUm fator a mais a ser considerado nesta excelente análise é o de que a produção americana depende de preços mínimos do petróleo. Quando a OPEP manteve a oferta em níveis elevados, causando queda acentuada do preço, a produção nos EUA ficou inviável, já que o custo de extração do shale oil é muito alto. Outro fator é que preços muito altos não são necessários para os EUA, mas o grupo que manda no país atualmente não se preocupa com o custo de vida de seus compatriotas e está nadando na grana ao repassar o preço internacional para a produção interna sem necessidade.