“Não-debate” favorece Flávio Bolsonaro, o candidato que não tem proposta
por Francisco Fernandes Ladeira
Neste ano, tivemos o processo eleitoral mais despolitizado da chamada “Nova República”. A agenda pública não foi dominada por propostas plausíveis sobre saúde, educação, transporte, moradia ou mesmo segurança pública. Em vez disso, prevaleceram distracionismos como a padroeira do Brasil e o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.
Por um lado, isso revela como a lógica das redes sociais rebaixa aquilo que Habermas um dia idealizou como esfera pública. Atualmente, o corte que viraliza é mais eficiente do que um bom argumento, o que se reflete no sucesso eleitoral de influenciadores digitais e youtubers, dos mais variados espectros ideológicos.
Por outro lado, essa despolitização foi tacitamente incentivada pela grande mídia, pois favorece aos candidatos da direita e, principalmente, da extrema direita, que não possuem qualquer tipo de projeto de país, exceto o desejo de que o Brasil se transforme em colônia dos Estados Unidos.
Diante dessa realidade, era esperado (ou não!) que o debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, organizado pela Band no domingo (18/10), pudesse, enfim, ser marcado pela divulgação de projetos de país dos dois candidatos. O que se viu, porém, foi mais do mesmo: o predomínio de xingamentos. Parafraseando o antropólogo francês Marc Augé, o que presenciamos foi um “não-debate”: um espaço onde quase nada foi dito, quase nada foi confrontado, quase nada foi proposto. Como mencionei, isso favorece ao candidato sem propostas: Flávio Bolsonaro.
Nitidamente, Flávio entrou no debate com o único objetivo de desestabilizar o presidente Lula. Se fosse um jogo de futebol, ele seria aquele jogador que tenta a todo custo arrancar um cartão vermelho do time adversário. A circulação de Bolsonaro com feições irônicas atrás de Lula, durante as falas do presidente, foi o maior exemplo dessa estratégia. É a escola trumpista de comunicação.
No início do “não-debate”, até funcionou, o que ficou claro no nervosismo de Lula — algo que também já havia sido registrado em 2022, quando o petista perdeu a paciência com o “padre” Kelmon. Como Flávio Bolsonaro não tem qualquer tipo de compromisso com a verdade, Lula gastou muito tempo insistindo que o candidato do PL explicasse o destino do dinheiro pago por Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse. Não importam as falcatruas bolsonaristas: os eleitores de extrema direita sempre serão fiéis à família a qual prestam devoção.
No “não-debate” também não poderiam faltar as “não-respostas”. Flávio Bolsonaro se esquivou dos questionamentos: se é contrário à licença-maternidade, se vai replicar no Brasil o modelo de Milei na Argentina, quais serão os cortes do tesouraço e qual é a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Não respondeu essas perguntas e nunca irá respondê-las.
Lula se saiu melhor justamente nos poucos momentos em que o “não-debate” se transformou em debate, principalmente na temática da saúde, com a crítica à atuação genocida de Bolsonaro durante a pandemia da Covid-19 e a observação sobre a intenção de Flávio de implementar um modelo de gestão privada no SUS (na prática, entregar a saúde pública para o grande capital).
Lançar desafios ao candidato de extrema direita também se mostrou um procedimento auspicioso, reconhecido, inclusive, pelos articulistas da mídia corporativa. Mesmo sabendo que seu oponente nunca irá cumprir, foi importante Lula sugerir a Flávio que ambos abram seus sigilos bancário e telefônico para que a população saiba “quem é ladrão neste país”. Isso pode desmontar a imagem da suposta honestidade bolsonarista.
Também seria fundamental deslocar a disputa do segundo turno do terreno das acusações genéricas para questões que exigem posição objetiva: questionar Flávio Bolsonaro sobre quais medidas irá tomar caso seja eleito. E mostrar para o eleitor que a chapa de extrema direita representa um projeto que visa a beneficiar somente o topo da pirâmide social. Outro ponto negligenciado no “não debate”, que Lula poderia ter explorado, é a temática educação, campo em que os bolsonaristas têm como o único “argumento” denunciar a “doutrinação comunista” nas salas de aula.
Se, na próxima sexta-feira (23/10), na Rede Globo, Lula conseguir transformar o “não-debate” em “debate”, focar nas pautas que realmente interessam ao povo, desmascarar Flávio Bolsonaro e mostrar a quais interesses ele atende, aí sim, poderemos conquistar votos dos indecisos. “Mais do mesmo” só favorece quem quer se esquivar da discussão sobre os rumos do Brasil.
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Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFMG) – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor do livro “Palestina na geopolítica global pós-2023: narrativas e contranarrativas” (Editora CRV)
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