O debate da Band e a Argentina, por Milton Pomar
Tenório Jr., conhecido por Tenorinho, foi raptado em Buenos Aires na noite de 18 de março de 1976, alguns dias antes do golpe militar que devastou a Argentina. Após nove dias sendo torturado por militares na Escola de Mecânica da Armada (ESMA), mataram-no com cinco tiros, e jogaram seu corpo, sem documentos, na periferia da cidade. Foi enterrado como indigente. Seus ossos foram encontrados e identificados, quase 50 anos depois, e no dia 13/09/2025, a Embaixada do Brasil em Buenos Aires foi comunicada oficialmente do fato e informou a sua família.
Quem raptou, torturou e matou Tenorinho buscava outra pessoa, e não ele, o pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior, 35 anos de idade, casado, a mulher grávida do quinto filho, que pouco antes de ser pego na rua se apresentara com Vinicius de Moraes e Toquinho no Teatro Grand Rex, em Buenos Aires.
Tenorinho foi vítima da “Operação Condor”, que fazia justamente isso: capturar, torturar, matar e “desaparecer” os corpos de ativistas de esquerda – categoria na qual o jovem músico não se enquadrava. É bem possível que tenham se dado conta do engano após muita tortura, e aí, para não terem que “passar recibo” do engano, preferiram matá-lo e sumir com ele. Assim Tenorinho passou à condição de desaparecido, no universo integrado por mais de 20 mil pessoas na Argentina, assassinadas pela ditadura militar que assumiu o poder no país em 24/03/1976.
Para quem viveu naquele fatídico ano de 1976, com milhares de assassinatos e desaparecimentos cometido por ditaduras militares no Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia, Chile, Peru, Equador e Panamá, são inesquecíveis os nomes e fatos macabros em todos esses países. O caso da Argentina chama a atenção por duas razões: a atuação da “Triple A”, organização de extrema-direita liderada por José López Rega e apoiada pela Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos (EUA), que assassinou mais de mil lideranças de esquerda, entre 1973 e 1976; e a quantidade total de vítimas durante a ditadura militar (1976/1983): estima-se que os militares e policiais tenham matado 30 mil pessoas.
Coincidência ou não, “matar uns 30 mil” (no Brasil) foi o que o então deputado federal Jair Bolsonaro disse, em entrevista para Jair Marchesini, no programa “Câmera Aberta”, da TV Bandeirantes, em 24 de maio de 1999 (https://www.youtube.com/watch?v=qIDyw9QKIvw), quando afirmou também ser favorável à tortura, e repetiu ser necessário “matar uns 30 mil”.
Todos esses fatos horríveis voltaram, durante o “show” de deboche e cinismo do candidato Flávio Bolsonaro no “debate” dia 18 à noite na BAND (TV Bandeirantes). É que Javier Milei, o atual presidente argentino, esteve no lançamento da sua candidatura em julho, em São Paulo, ocasião na qual ele atacou o presidente Lula, e devido ao elogio à sua política econômica, manifestado por Daniella Marques, assessora do candidato, em 14 de setembro, como “ótimo modelo a ser seguido”.
Em 28/04/2026, o portal iG Economia expôs a situação aflitiva da economia do país: “A Argentina é o país com a maior dívida internacional do mundo. De acordo com dados divulgados nesta última segunda-feira (27), o país concentra quase 35% de toda a dívida global com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Já o Brasil não consta na lista de devedores divulgada pelo próprio Fundo.”
Com Milei na presidência, a Argentina atingiu Dívida Externa recorde de US$328 bilhões, dos quais US$58 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Tentando fazer caixa, entregou para os EUA o “Corredor Andes-Atlântico”, para viabilizar a extração das riquezas minerais na Patagônia.
Estudo realizado pelo Fundar – Centro de Inovação em Políticas de Desenvolvimento, revela o enorme custo empresarial do “ótimo modelo a ser seguido”: “(…) Si miramos los datos del gobierno de Milei, vemos que durante esta gestión la cantidad de empresas cayó más que en cualquier otro gobierno de los últimos 24 años.” (https://fund.ar/publicacion/monitor-mensual-de-empresas/) Sua política econômica resultou até agora em 32 mil empresas fechadas e 245 mil empregos a menos, o que explica o aumento, na população, da quantidade de pessoas pobres (32%) e indigentes (7%).
Mas… a relação Flávio-Javier vai muito além da política econômica desastrosa: os dois têm relações com Fernando Cerimedo, o criminoso que fraudou eleições na Argentina e em outros países latino-americanos, utilizando “granjas de bots” e “fazendas de conteúdo” para eleger candidatos de extrema-direita. Íntimo da família Bolsonaro, a quem prestou serviço no final de 2022, Cerimedo ainda está preso, agora em El Alto, cidade onde fica o aeroporto internacional da Bolívia – o que faz pensar se a sua transferência para lá não foi para facilitar o seu “resgatado” por agentes da CIA, já que os EUA conseguiram que o Promotor-Geral Roger Mariaca e sua equipe, responsáveis pelo caso dele, fossem presos, acusados de envolvimento com narcotraficantes…
Flávio Bolsonaro, no debate na BAND, lançou inúmeras “propostas”, com sorriso que não conseguiu segurar, sabendo que estava falando “só por falar”. Toda vez que apresentava propostas, fazia em tom de deboche, de maneira leviana, estilo “se colar, colou”. Disse e repetiu, entre outras fantasias, que colocará o SUS “no padrão Einstein”, referindo-se ao hospital de ricos Alberto Einstein, em São Paulo. Ficou evidente, por suas caras e bocas, que Flávio Bolsonaro mentiu o tempo todo.
Javier Milei também fez a sua campanha eleitoral assim, combinando palhaçadas em público com promessas que não cumpriu, mais a fraude digital proporcionada pelo esquema de Cerimedo. Uma motosserra lá, um “tesouraço” aqui, e em comum a disposição de encarar o empobrecimento da população como o “preço a ser pago”, pelo modelo de Estado mínimo que defendem.
Eleito com 55,7% dos votos, há três anos, Milei tem agora 57% de desaprovação (63% em abril), e 38,5% de aprovação – 30% entre as mulheres e 27,8% na parcela com educação universitária, segundo pesquisa da AtlasIntel, divulgada dia 14/10.
Conforme a economia se agrave, a desaprovação de Milei deverá aumentar até as eleições para presidente, em 24 de outubro de 2027. Tomara que até lá os partidos se estruturem para derrotar a extrema-direita na Argentina, como faremos no Brasil no próximo dia 25 de outubro.
Milton Pomar é professor, geógrafo, mestre em “Estado, Governo e Políticas Públicas” e autor do livro “O sucesso da China socialista”.
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